Assentamentos, Muro e invasões do exército afetam Tulkarm e Qalqiliya

Ao norte da Cisjordânia, próximas do Mar Mediterrâneo, cidades palestinas sofrem com a construção do Muro de Separação e cotidianas violações de direitos humanos

 

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Mapa da Cisjordânia ocupada

Tulkarm é uma cidade palestina localizada ao norte da Cisjordânia ocupada e está apenas 14km distante do mar Mediterrâneo. Em dias de céu limpo, é possível ver o mar a oeste, na direção da cidade de Netanya, em Israel. Hoje, para ir até a praia, os palestinos sob ocupação precisam de autorização prévia do governo israelense. “Antes, eram 10 minutos para ir ao mar. Agora, todo mundo em Tulkarm está triste. Podemos ver o mar, mas não podemos ir. Temos as montanhas agora”, diz um palestino.

Após a guerra de 1948 e a criação do Estado de Israel,muitos dos refugiados expulsos das áreas de Jaffa e Haifa, por exemplo, foram morar no campo de Tulkarm, o terceiro mais populoso da Cisjordânia. Lá, 21.500 pessoas vivem em uma área menor que 1km². Outro campo é o Nur Shams, com 10.500 habitantes. Contando com os dois campos de refugiados, a população de Tulkarm chega a 161.000 pessoas.

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Acompanhantes visitam campo de Nur Shams, Tulkarm. EAPPI, Danielle.

Mesmo situada em área A, com controle militar e civil palestino, o exército israelense faz incursões frequentes na cidade de Tulkarm. A barreira de separação construída por Israel tem 38 quilômetros e afetou a economia da cidade devido à drástica redução de tráfego de pessoas e mercadorias entre a cidade e o território israelense.

Majoritariamente agrícola, a cidade também sofre com a restrição de acesso dos fazendeiros às terras que estão do outro lado do muro. Alguns perderam terrenos com a construção da barreira, enquanto outros têm dificuldade para obter a autorização necessária para acessar suas propriedades. Entretanto, aqueles que têm os documentos enfrentam sérias questões, como o horário restrito de abertura dos portões agrícolas, sua mudança repentina sem aviso prévio e conduta individual dos soldados, bastante instável.

Alguns portões, por exemplo, ficam abertos por apenas 30 minutos. Quando os soldados se atrasam, por vezes não incluem tempo adicional para deixar o portão aberto. No portão agrícola chamado Far’un, por exemplo, o horário de abertura é das 6h até 6h30. Certa manhã, os soldados chegaram às 6h15 e fecharam o portão às 6h30, deixando apenas 15 minutos para a travessia de trabalhadores e veículos.

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Muro de separação, Qalqiliya. EAPPI, Danielle.

 

Outra questão importante na área de Tulkarm são as fábricas de produtos químicos e seu impacto ambiental. O caso mais evidente é o da fábrica Geshuri, que foi fechada em Israel em 1984 devido à poluição que causava e simplesmente reaberta em território palestino. Fayez Taneeb tem sua fazenda ao lado da fábrica e viu sua propriedade ser modificada nos últimos anos com a indústria e a construção do muro. Ele perdeu mais da metade de suas terras com a implantação da barreira israelense, que cerca três lados de sua fazenda.

Outro efeito da fábrica é a poluição do ar, que causa diversos problemas de saúde na população de Tulkarm, conforme aponta um estudo feito em 2013. Segundo a revista científica Lancet, há mais casos de câncer, asma e doenças respiratórias entre residentes de Tulkarm do que em outros distritos.

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Qalqiliya, uma cidade ao sul de Tulkarm,  tambem será profundamente afetada com a construção de 93 quilômetros de barreira de separação, já anunciados por Israel, de forma a incorporar e “proteger” os diversos assentamentos construídos em território palestino. Além disso, a companhia multinacional de água do país ocupante, Mekorot, explora vários poços da região, que compõem os aquíferos da Cisjordânia.

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Cidade de Qalqiliya, murada.

A construção do Muro de Separação em Qalqiliya deixou algumas vilas na então chamada “seam zone“,  um dos vários tipos de “closed military zones”[1] impostas na Cisjordânia, localizada entre a Linha Verde (armistício de 49) e a barreira em si [2]. Comunidades beduínas como Arab Abu Farda e Arab ar Ramadin Al Janubi se encontram hoje cercadas por assentamentos e pelo muro. Diariamente, as crianças que estudam em uma escola em Habla (veja o mapa abaixo) têm que cruzar um portão agrícola de mesmo nome. Este é um dos lugares mais problemáticos monitorados pelos Acompanhantes Ecumênicos internacionais, que trabalham tentando garantir o direito dos palestinos à educação e ao acesso a sua própria terra, posto diariamente em cheque.

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A construção de assentamentos na região aumenta a presença dos militares israelenses em várias vilas de Qalqiliya. Azzun, por exemplo, sofre com frequentes incursões noturnas do exército. “Isso é normal aqui. Acontece quase todo dia”, disse uma jovem de 17 anos.

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Casa invadida pelo exército de Israel, Azzun. EAPPI, Isabelle.

Na madrugada de 27 de outubro, por exemplo, 15 casas foram invadidas por militares e cinco jovens entre 19 e 26 anos foram presos. As ações foram semelhantes: ao entrar, os soldados reúnem a família em um cômodo, com exceção do suspeito, enquanto vasculham o resto da casa. Em quatro das cinco casas visitadas por EA’s, o cenário era de destruição. E duas das famílias disseram ouvir os gritos de seus filhos sendo espancados. “Eu chorei e gritei para ajudar o meu filho, mas eles me empurraram de volta para o quarto”, afirma a mãe de um dos detidos. Em uma das casas, os soldados simplesmente perguntaram se a família tinha um filho, sem ao menos saber o nome de quem supostamente procuravam.

Nesta incursão especificamente, segundo relatos, os militares estavam particularmente interessados em obter informações sobre as mulheres e crianças. Em uma das famílias, a irmã do detido foi submetida a revista conduzida por soldadas mulheres. Outra família relatou que as três filhas foram levadas sozinhas a um dos quartos para serem revistadas por mulheres. As meninas de 9 e 12 anos foram obrigadas a tirar a camiseta e calça, e a filha mais velha, de 18 anos, teve que se despir completamente. Elas também disseram que as militares colocaram um cachorro dentro do quarto, levando o animal pra fora apenas porque elas choraram muito.

Dias depois da detenção, a família de um dos jovens levados ainda não tem informação sobre seu paradeiro. Na semana seguinte a esta incursão, o exército voltou a Azzun, fechando a entrada da cidade e utilizando bombas de som e de gás lacrimogêneo.

É esse o cotidiano por aqui.

 

[1] Para mais informações sobre as restrições impostas aos moradores que vivem em terras declaradas “seam zones“, ver relatório de HAMOKED – Center for the Defence of Individual (março, 2003): The Permit Regime Human Rights Violations in West Bank Areas Known as the “Seam Zone”.
[2] Seam zone, ou “zona de costura“, consiste na área localizada entre a chamada “Green Line”, que é a linha de armistício estabelecida em 1949, após o fim da guerra que levou à criação do Estado de Israel e o deslocamento de cerca de 700 mil palestinos. Em muitas regiões, Israel desenhou a rota da barreira de separação de forma que ela adentrasse território palestino, alegando motivos de “segurança”. A organização não-governamental israelense B’Tselem, em relatório que pode ser lido neste link , contesta tal justificativa e afirma que “uma das razões prioritárias para a escolha de algumas das seções da rota da Barreira é estabelecer certas áreas para expansão de assentamento no lado “israelense” da Barreira”. Quando concluída, a barreira de separação terá 712km, mais que o dobro da linha estabelecida em 1949.

Danielle

EA do Grupo 62, Tulkarm

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com

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As raízes arrancadas de Wadi Fukin

Eu estava na estrada indo para Al Walaja quando um celular dentro do carro tocou. Era apenas 9h30 da manhã e, do outro lado da linha, uma voz decepcionada relatou um incidente no vilarejo de Wadi Fukin. Soldados das Forças de Defesa Israelenses, juntamente com funcionários da Administração Civil, haviam invadido uma área ao norte da vila, cortando cerca de 17 oliveiras centenárias e destruindo 0,02 km² de terra cultivável. De acordo com as autoridades israelenses, essa região é considerada como reserva natural e deve ser protegida. Mas talvez, para eles, as árvores cultivadas pelas famílias palestinas não se enquadrem sob essa proteção.

O vilarejo de Wadi Fukin está localizado no distrito de Belém, na Cisjordânia. Com aproximadamente 1300 habitantes, esta vila fica num vale com terras férteis, onde diariamente os moradores trabalham em suas plantações. Praticamente todas as famílias que aqui moram são de agricultores, que dependem da venda dos produtos para sua sobrevivência.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Agricultor trabalha em sua propriedade, ao sol do meio dia. – EAPPI/ Carolina B.

Na sua porção norte, está a fronteira entre Israel e Palestina, definida pelo armistício de 1949 (também conhecida como Linha Verde ou Green Line). A comunidade israelense Zur Hadassa está localizada após a fronteira, e o vilarejo costumava ter relações positivas com os moradores dessa cidade. Apesar de haver um trecho de muro de separação planejado para a região, até o momento não há uma barreira física entre terras palestinas e israelenses. Ao sul de Wadi Fukin, está o assentamento ilegal Beitar Illit. O impacto da presença de Beitar Illit vai muito além do que podemos imaginar à primeira vista. Ahmad Sokar, o prefeito, contou-me como a vida naquele vale silencioso mudou desde que a colônia foi construída sobre terras confiscadas do vilarejo. “Wadi Fukin sempre foi famoso pela produção agrícola mas, nos últimos 15 anos, Beitar Illit começou a despejar seu esgoto em canos que levam diretamente a nossas plantações. Isso comprometeu a reputação dos nossos produtos.” Com o solo contaminado pelo esgoto, a subsistência dos moradores ficou comprometida.

Ahmad também falou sobre as frequentes invasões que os colonos de Beitar Illit fazem na vila. “Às vezes, eles vêm apenas para nos intimidar com suas armas. Outras vezes, eles colocam fogo na terra, nadam em nossas piscinas agrícolas (tanques de água que são usados para irrigação), roubam coisas de nossas hortas ou destroem parte da plantação.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Parquinho do vilarejo, que tem uma ordem de demolição pelas autoridades israelenses. EAPPI/ Carolina B.

O único parquinho disponível para as crianças do vilarejo, que foi construído há 5 anos, tem uma ordem de demolição. Adel Hroub, ex-membro do conselho municipal, segura seu filho no colo e afirma que “em Beitar Illit, há cerca de 60 parquinhos, onde as crianças podem brincar. Aqui, temos apenas um, e não sabemos quanto tempo ele ainda vai durar.” Adel me levou para andar pelo vilarejo e ver algumas das obras para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, mas quase todas as obras receberam ordens para serem interrompidas, vindas da Administração Civil israelense. O motivo? A maior parte de Wadi Fukin está em território classificado como área C,na qual Israel detém o controle civil e militar. Os Acordos de Oslo, nos anos 90, dividiram a Cisjordânia em três tipos de área, de acordo com quem tem o controle de cada uma. A área A está sob controle da Autoridade Palestina, enquanto a área B está sob controle civil palestino e militar israelense. Atualmente, mais de 60% do território palestino na Cisjordânia é classificado como área C, o que impede que palestinos e palestinas façam uso de suas próprias terras sem antes conseguir uma permissão de Israel. Conseguir uma permissão para qualquer tipo de obra requer muita paciência, dinheiro – e quase sempre gera frustração, já que apenas 1% dos pedidos de permissão são aceitos. Sem opções, as famílias arriscam construir sem a permissão legal, correndo o risco de ter sua obra demolida a qualquer momento.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Campo de futebol quase finalizado, com uma ordem de demolição emitida recentemente. EAPPI/ Carolina B.

Andando pelos campos de oliveiras em direção ao sul da vila, há um campo de futebol quase finalizado. Adel disse que logo irão colocar a grama e o campo poderá ser utilizado pelos jovens e adultos, e que todos estão empolgados para jogar bola ali antes que o exército venha destruir a quadra. O campo de futebol também recebeu uma ordem de demolição antes mesmo de ser finalizado.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – A comunidade israelense Zur Hadassa se expande e avança a Linha Verde, ameaçando tomar mais terras do vilarejo.  EAPPI/ Carolina B.

Esta é minha segunda visita à Palestina ocupada, mas algumas cenas não deixam de impressionar. Vimos as oliveiras que foram arrancadas pelos tratores na manhã anterior, as raízes expostas ao ar. Ahmad me mostrou o vídeo da destruição das árvores e no rosto dos agricultores o olhar de perda. De certa forma, aquelas árvores eram uma parte da família deles, cuidadas ao longo de gerações, anualmente fornecendo milhares de azeitonas. Ao arrancar as raízes das oliveiras, um recado foi passado: são também as raízes que palestinos e palestinas têm naquela terra que estão sendo rompidas. Ao ver os campos queimados pelos colonos que invadem o vilarejo, eu enxerguei a tentativa de apagar as memórias daquelas famílias.

Enquanto estávamos em seu escritório, Ahmad me mostrou um mapa de planejamento para a região, elaborado pelas autoridades israelenses. Onde antes estavam as oliveiras, seria construída uma zona industrial e uma estrada para ligar Beitar Illit a Zur Hadassa.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Terras agrícolas queimadas pelos colonos durante invasões ao vilarejo. Ao fundo, o assentamento ilegal de Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ahmad não conseguiu esconder sua preocupação com o futuro do vilarejo enquanto me mostrava a expansão de Beitar Illit e de Zur Hadassa. “Não sabemos ainda se a única entrada para a vila será fechada quando a expansão da colônia e da comunidade e a construção da zona industrial forem finalizadas.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Expansão do assentamento ilegal Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ao deixar aquele vale encurralado por ocupantes ilegais, eu me perguntei se na minha próxima visita ainda existirá Wadi Fukin – ou se mais um vilarejo palestino será anexado a Israel e todas as raízes palestinas dali estarão expostas ao ar, como as oliveiras arrancadas.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Na prefeitura do vilarejo, algumas fotos mostram a luta dos moradores para salvar o futuro de Wadi Fukin – EAPPI/ Carolina B.

Mais informações:

https://electronicintifada.net/content/video-without-land-we-are-nothing/14774

http://english.wafa.ps/page.aspx?id=EUdHELa47753255022aEUdHEL

https://www.ochaopt.org/documents/opt_arij_vp_wadifukin.pdf

http://mondoweiss.net/2014/09/village-largest-israeli/

Referências:

www.ochaopt.org/location/area-c

http://data.ochaopt.org/vpp.aspx

Carolina B

EA do Grupo 62, Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).