Assentamentos, Muro e invasões do exército afetam Tulkarm e Qalqiliya

Ao norte da Cisjordânia, próximas do Mar Mediterrâneo, cidades palestinas sofrem com a construção do Muro de Separação e cotidianas violações de direitos humanos

 

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Mapa da Cisjordânia ocupada

Tulkarm é uma cidade palestina localizada ao norte da Cisjordânia ocupada e está apenas 14km distante do mar Mediterrâneo. Em dias de céu limpo, é possível ver o mar a oeste, na direção da cidade de Netanya, em Israel. Hoje, para ir até a praia, os palestinos sob ocupação precisam de autorização prévia do governo israelense. “Antes, eram 10 minutos para ir ao mar. Agora, todo mundo em Tulkarm está triste. Podemos ver o mar, mas não podemos ir. Temos as montanhas agora”, diz um palestino.

Após a guerra de 1948 e a criação do Estado de Israel,muitos dos refugiados expulsos das áreas de Jaffa e Haifa, por exemplo, foram morar no campo de Tulkarm, o terceiro mais populoso da Cisjordânia. Lá, 21.500 pessoas vivem em uma área menor que 1km². Outro campo é o Nur Shams, com 10.500 habitantes. Contando com os dois campos de refugiados, a população de Tulkarm chega a 161.000 pessoas.

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Acompanhantes visitam campo de Nur Shams, Tulkarm. EAPPI, Danielle.

Mesmo situada em área A, com controle militar e civil palestino, o exército israelense faz incursões frequentes na cidade de Tulkarm. A barreira de separação construída por Israel tem 38 quilômetros e afetou a economia da cidade devido à drástica redução de tráfego de pessoas e mercadorias entre a cidade e o território israelense.

Majoritariamente agrícola, a cidade também sofre com a restrição de acesso dos fazendeiros às terras que estão do outro lado do muro. Alguns perderam terrenos com a construção da barreira, enquanto outros têm dificuldade para obter a autorização necessária para acessar suas propriedades. Entretanto, aqueles que têm os documentos enfrentam sérias questões, como o horário restrito de abertura dos portões agrícolas, sua mudança repentina sem aviso prévio e conduta individual dos soldados, bastante instável.

Alguns portões, por exemplo, ficam abertos por apenas 30 minutos. Quando os soldados se atrasam, por vezes não incluem tempo adicional para deixar o portão aberto. No portão agrícola chamado Far’un, por exemplo, o horário de abertura é das 6h até 6h30. Certa manhã, os soldados chegaram às 6h15 e fecharam o portão às 6h30, deixando apenas 15 minutos para a travessia de trabalhadores e veículos.

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Muro de separação, Qalqiliya. EAPPI, Danielle.

 

Outra questão importante na área de Tulkarm são as fábricas de produtos químicos e seu impacto ambiental. O caso mais evidente é o da fábrica Geshuri, que foi fechada em Israel em 1984 devido à poluição que causava e simplesmente reaberta em território palestino. Fayez Taneeb tem sua fazenda ao lado da fábrica e viu sua propriedade ser modificada nos últimos anos com a indústria e a construção do muro. Ele perdeu mais da metade de suas terras com a implantação da barreira israelense, que cerca três lados de sua fazenda.

Outro efeito da fábrica é a poluição do ar, que causa diversos problemas de saúde na população de Tulkarm, conforme aponta um estudo feito em 2013. Segundo a revista científica Lancet, há mais casos de câncer, asma e doenças respiratórias entre residentes de Tulkarm do que em outros distritos.

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Qalqiliya, uma cidade ao sul de Tulkarm,  tambem será profundamente afetada com a construção de 93 quilômetros de barreira de separação, já anunciados por Israel, de forma a incorporar e “proteger” os diversos assentamentos construídos em território palestino. Além disso, a companhia multinacional de água do país ocupante, Mekorot, explora vários poços da região, que compõem os aquíferos da Cisjordânia.

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Cidade de Qalqiliya, murada.

A construção do Muro de Separação em Qalqiliya deixou algumas vilas na então chamada “seam zone“,  um dos vários tipos de “closed military zones”[1] impostas na Cisjordânia, localizada entre a Linha Verde (armistício de 49) e a barreira em si [2]. Comunidades beduínas como Arab Abu Farda e Arab ar Ramadin Al Janubi se encontram hoje cercadas por assentamentos e pelo muro. Diariamente, as crianças que estudam em uma escola em Habla (veja o mapa abaixo) têm que cruzar um portão agrícola de mesmo nome. Este é um dos lugares mais problemáticos monitorados pelos Acompanhantes Ecumênicos internacionais, que trabalham tentando garantir o direito dos palestinos à educação e ao acesso a sua própria terra, posto diariamente em cheque.

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A construção de assentamentos na região aumenta a presença dos militares israelenses em várias vilas de Qalqiliya. Azzun, por exemplo, sofre com frequentes incursões noturnas do exército. “Isso é normal aqui. Acontece quase todo dia”, disse uma jovem de 17 anos.

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Casa invadida pelo exército de Israel, Azzun. EAPPI, Isabelle.

Na madrugada de 27 de outubro, por exemplo, 15 casas foram invadidas por militares e cinco jovens entre 19 e 26 anos foram presos. As ações foram semelhantes: ao entrar, os soldados reúnem a família em um cômodo, com exceção do suspeito, enquanto vasculham o resto da casa. Em quatro das cinco casas visitadas por EA’s, o cenário era de destruição. E duas das famílias disseram ouvir os gritos de seus filhos sendo espancados. “Eu chorei e gritei para ajudar o meu filho, mas eles me empurraram de volta para o quarto”, afirma a mãe de um dos detidos. Em uma das casas, os soldados simplesmente perguntaram se a família tinha um filho, sem ao menos saber o nome de quem supostamente procuravam.

Nesta incursão especificamente, segundo relatos, os militares estavam particularmente interessados em obter informações sobre as mulheres e crianças. Em uma das famílias, a irmã do detido foi submetida a revista conduzida por soldadas mulheres. Outra família relatou que as três filhas foram levadas sozinhas a um dos quartos para serem revistadas por mulheres. As meninas de 9 e 12 anos foram obrigadas a tirar a camiseta e calça, e a filha mais velha, de 18 anos, teve que se despir completamente. Elas também disseram que as militares colocaram um cachorro dentro do quarto, levando o animal pra fora apenas porque elas choraram muito.

Dias depois da detenção, a família de um dos jovens levados ainda não tem informação sobre seu paradeiro. Na semana seguinte a esta incursão, o exército voltou a Azzun, fechando a entrada da cidade e utilizando bombas de som e de gás lacrimogêneo.

É esse o cotidiano por aqui.

 

[1] Para mais informações sobre as restrições impostas aos moradores que vivem em terras declaradas “seam zones“, ver relatório de HAMOKED – Center for the Defence of Individual (março, 2003): The Permit Regime Human Rights Violations in West Bank Areas Known as the “Seam Zone”.
[2] Seam zone, ou “zona de costura“, consiste na área localizada entre a chamada “Green Line”, que é a linha de armistício estabelecida em 1949, após o fim da guerra que levou à criação do Estado de Israel e o deslocamento de cerca de 700 mil palestinos. Em muitas regiões, Israel desenhou a rota da barreira de separação de forma que ela adentrasse território palestino, alegando motivos de “segurança”. A organização não-governamental israelense B’Tselem, em relatório que pode ser lido neste link , contesta tal justificativa e afirma que “uma das razões prioritárias para a escolha de algumas das seções da rota da Barreira é estabelecer certas áreas para expansão de assentamento no lado “israelense” da Barreira”. Quando concluída, a barreira de separação terá 712km, mais que o dobro da linha estabelecida em 1949.

Danielle

EA do Grupo 62, Tulkarm

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com

. Obrigada(o).

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Narrativas únicas sobre a Palestina

Como narra a escritora Nigeriana Chimamanda Adichie, é muito comum que tenhamos histórias únicas sobre pessoas de outras culturas e sobre as situações que estas pessoas vivem. A escritora define o conceito de história única da melhor forma: “Show people as one thing over and over again, and that’s what they become” (Mostre as pessoas como uma única coisa repetidas vezes e elas se tornarão isso. Tradução livre). Essas histórias únicas limitam nossa compreensão crítica sobre a complexidade da experiência humana. Podem, inclusive, ser perigosas, na medida em que as utilizamos para justificar sentimentos como indiferença ou violência contra outras pessoas. A narrativa única que mais encontro sobre palestinos é a que mais é utilizada por muitas pessoas para que possam se manter indiferentes ao que acontece sob ocupação militar na Palestina: palestinos seriam muçulmanos fundamentalistas que não aceitam a presença de judeus e cristãos em suas terras e, em virtude de sua religião e intolerância, cometem ataques terroristas contra civis em Israel. Sob este pretexto, aceitam-se todas as violações de direitos humanos que acontecem nesse pequeno pedaço de terra do Oriente Médio. Esse discurso sobre a identidade dos palestinos é o que mais tenta-se combater dentro da Palestina. Desde que cheguei aqui, com muito humor e paciência, homens e mulheres palestinos se esforçam para desafiar esse conceito orientalista, como define Edward Said, trazido de fora e sustentado pela mídia tradicional.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Como Acompanhantes Ecumênicos na Palestina e Israel tivemos a oportunidade de encontrar diversas faces da complexa história de opressão e resistência que aqui se desenrola. A ocupação afeta as pessoas de formas diferentes e desiguais, provocando igualmente variadas reações aos traumas aqui sofridos. Encontrei palestinos que acreditam que “existir é resistir”, ou seja, que se manter aqui e tentar viver normalmente apesar da ocupação é uma forma de resistência a ela. Afinal, em suas opiniões sustentadas por todas as violações sistemáticas que sofrem, o objetivo final da ocupação seria expulsá-los de suas terras. Essas pessoas, através de organizações ou não, encontram formas de facilitar ao máximo a vida dos palestinos que acreditam nesta forma de resistência. Nunca deixarão suas terras, resistem. São guerreiros pacíficos e acreditam nesta forma de luta.

Encontramos também palestinos ativistas que atuam das mais variadas formas. Fazem protestos pacíficos nas ruas, auxiliam outros palestinos a trabalharem em suas terras mesmo contra a vontade dos colonos judeus e do governo israelense. Atiram pedras todas as sextas-feiras contra o muro de separação, bloqueiam estradas e fazem o máximo para dificultar a vida dos colonos ilegais quem vem roubar suas terras.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Encontramos pessoas que acham que a ocupação hoje em dia nem é um mal tão grande assim, que se pode viver normalmente com ela. Pessoas que, ao ouvirem histórias de estrangeiros sobre as dificuldades em outros países ou ao observarem a difícil situação que outros países árabes vivem, passam a acreditar que a ocupação os protege. Encontramos pessoas que têm orgulho de ter esta luta como objetivo de vida, pois estava previsto em algum lugar em suas escrituras sagradas. Encontramos também pessoas tão desesperadas e afetadas pela violência da ocupação que acabam reagindo também com violência.

E vidas se perdem. Contudo, poucas pessoas se perguntam por que a violência se perpetua. A história única que possuem já lhes dá a resposta pronta: são terroristas, são fundamentalistas, são violentos.

Outra história única que comumente ouço diz respeito à mulher palestina. É comum que feministas brasileiras digam que a luta das mulheres árabes contra o patriarcado é muito mais difícil que a nossa, em nossa sociedade ocidental tão mais desenvolvida – alto nível de ironia aqui. É muito comum que se associe o hijab à submissão, à fraqueza, quando comparada à liberdade da mulher brasileira em poder vestir-se da forma que quiser. Nenhum destes discursos aborda a complexidade de ser uma mulher vivendo em uma zona de conflito, vivendo sob ocupação militar. O discurso não atinge a dupla resistência diária dessas mulheres: contra a opressão de sua própria sociedade e a opressão que vem de fora.

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Belém EAPPI/Maira Peres

A noção de que as mulheres seriam as reprodutoras da nação, enquanto os homens seriam os protetores, acarreta a ideia de que as mulheres estão subordinadas ao heroísmo masculino. Na Palestina, existe a lenda de que a mulher também pode se tornar uma heroína ao dar o exemplo de coragem nas formas de reagir em momentos de caos ou de grande estresse, quando pessoas mais fracas sentem-se derrotadas e sem esperança. O papel da mulher na sociedade palestina sob ocupação está principalmente associado à manutenção da família, à criação de crianças fortes, à integração da comunidade. Mas na prática está relacionado à convivência diária com a violência proveniente da presença dos colonos judeus e dos militares israelenses nas mínimas ações do dia a dia, mas também na política interna e na economia. Sua existência e luta têm como base a afirmação da identidade palestina e de suas religiões, de suas práticas culturais, ao mesmo tempo em que se resiste a opressões internas  inerentes ao patriarcado.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Além disso, as mulheres palestinas sempre foram importantes no movimento de liberação da Palestina, como mostram histórias famosas como a de Leila Khaled. Somente em 2015, 291 mulheres de diferentes idades foram presas ou detidas por manifestações políticas, violentas ou não, contra a ocupação militar israelense (The Palestinian Center for Prisioner Studies – PCPS). Mulheres organizam protestos contra a ocupação, contra o próprio governo, lutam por seus direitos, criam organizações para dar suporte umas as outras, resistem.

Eu tinha uma história única sobre o que eu viria a viver aqui durante estes três meses do programa. Pensava que encontraria pessoas tristes e cansadas de uma ocupação que dura mais de 60 anos, fazendo com que já a terceira geração tenha nascido e crescido sob ela. Pensava que a única coisa que essas pessoas poderiam me ensinar era como existem sofrimentos maiores do que os meus próprios e o quão fúteis meus próprios problemas poderiam ser comparado aos deles. O que aprendi, na verdade, é que existe vida e amor sob ocupação. Existe luta e esperança, principalmente. Encontrei pessoas que cantam, apesar de ter que enfrentar as filas do checkpoint (postos de controle) todos os dias de manhã. Aprendi que não é preciso ser triste para lutar.

 Fonte: http://english.palinfo.com/site/pages/details.aspx?itemid=75941

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Maira Peres

EA do Grupo 59 em Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

Nabi Samwil

A comunidade de Nabi Samwil é uma pequena vila palestina que cresceu ao redor da tumba do Profeta Samuel. A tumba, uma mesquita e a vila dividiam o espaço do alto da montanha, nas cercanias de Jerusalém. Antes de 1967, cerca de 1.500 pessoas viviam na vila; até 2008, eram aproximadamente 3.000 moradores.

Com a criação do Estado de Israel, a região passou a ser cobiçada pelos judeus, para quem a figura do Profeta Samuel também é importante. Não demorou muito até que o exército israelense demolisse todas as casas ao redor da mesquita, que agora também é uma sinagoga.

A alegação do exército, segundo contam os moradores, foi de que as casas eram muito velhas e ofereciam riscos. No entanto, após a demolição, Israel não concedeu autorizações para que os palestinos pudessem construir, reformar, plantar ou criar animais na região. Ao contrário, deixou a área isolada, construiu um parque arqueológico, explorou turisticamente, usou parte do espaço da mesquita como sinagoga (inclusive a tumba do Profeta Samuel) e construiu um assentamento para israelenses no local.

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Nabi Samwil ©PAEPI/Mayara de Carvalho

Com a destruição da vila, parte considerável dos moradores migraram, a maioria deles para a Jordânia. Outra parte negou-se a abandonar o lar e construiu uma nova vila, sem permissão, no topo da mesma montanha, há poucos metros do local original, ao lado de onde hoje há o assentamento israelense.

A vida dos moradores é extremamente difícil. Eles vivem numa região de lama, em casas precárias, a maioria feita de estruturas metálicas, sem possibilidade de reforma-las e sem autorização para plantar, criar animais ou comercializar.

Além disso, com a construção dos muros em Jerusalém, a vila ficou sitiada. Os moradores não têm permissão de andar nas ruas do lado direito da montanha, que possuem livre e rápido acesso para o centro Jerusalém. Se são vistos andando do lado direito, os palestinos podem ser presos administrativamente, sem necessidade de processo judicial ou investigação criminal.

Ao andar do lado esquerdo da montanha, os moradores necessitam passar por checkpoints e não tem permissão para ir a Jerusalém. As pessoas da vila são numeradas e seu controle de identidade por Israel é feito através desses números. Caso queiram comprar algum bem ou comida, necessitam pedir autorização específica a Israel, informando a qualidade e quantidade do produto e provando que se trata de consumo pessoal. Essa permissão deve ser requisitada previamente e costuma demorar horas para se obter resposta.

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Nabi Samwil ©PAEPI/Mayara de Carvalho

A comunidade contou com doações de contêineres pela embaixada italiana e, neles, construiu uma escola para as crianças. Embora a escola tenha três diferentes séries, até 2014 todas as aulas dividiam o espaço de um só contêiner e aconteciam ao mesmo tempo. Com as novas doações, houve ampliação da escola e, hoje, as crianças tem salas diferentes.

A comunidade enfrenta alguns problemas de violência e intolerância por parte dos colonos israelenses que vivem na região, que algumas vezes chegam a atrapalhar as aulas ou invadir o espaço da escola. Atualmente, os contêineres da escola estão arrodeados por cercas com a finalidade de proteger as crianças.

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ProcessNabi Samwil ©PAEPI/Mayara de Carvalho

Apesar disso, nem todos os israelenses são hostis a essas famílias palestinas. Os moradores de Nabi Samwil costumam ter boa relação com os judeus ortodoxos que vivem em Jerusalém e que frequentam a vila para orar no espaço sagrado.

Com a guetificação e o apoio oferecido pelo Judiciário israelense à ocupação e destruição da vila, apenas 30 famílias resistem vivendo na região. Ainda assim, não sobrevivem apenas. Um bom exemplo disso foi a criação, pelas mulheres da comunidade, da Associação Feminista do Profeta Samuel, que oferece cursos, palestras, formações e espaços de convivência para as mulheres da vila.

Elas aprendem novas habilidades e criam oportunidades de arrecadar dinheiro para a vila. Dentre as iniciativas, as mulheres de Nabi Samwil fizeram formação em culinária e, desde então, oferecem jantares tipicamente palestinos para grupos de internacionais. Com isso, adquirem autonomia, valorizam a cultura e o desenvolvimento local e tentam contribuir para melhores perspectivas para o futuro da vila.

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EAPPI Team ©PAEPI/Mayara de Carvalho

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Mayara de Carvalho

EA do Grupo 59 em Jerusalém

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Jesus nasce em Hebron neste Natal, pelo EA Manoel

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Jesus nasceu e isso é simbolicamente forte para os cristãos. O nascimento de Jesus significa o nascimento do salvador, do redentor, aliás, poderia se afirmar que não há cristianismo sem Cristo e só há Cristo porque houve Jesus. Mas paradoxalmente esse nascimento acontece num contexto de deslocamento, de exílio. Conta a narrativa bíblica que José teve que voltar a Belém para o recenseamento (Luc, 2,4). Segundo o historiador Flavio Joséfo, o recenseamento era algo comum feito pelo império romano com diferentes finalidades: contar os homens, cobrar taxas e/ou jurar lealdade ao imperador. De qualquer forma era uma maneira de controlar o povo e a terra.  Isto é, José, o pai de Jesus foi obrigado a se locomover por causa de um programa de controle do império romano. E assim, o verbo se fez carne no filho de um refugiado que não tinha onde nascer e ao nascer teve que ser escondido no exílio. Que salvador é esse?

Maria foi uma das raras mães que não chorou a morte de seu filho pois o escondeu no exílio no Egito, Herodes mandou matar todos (Mat. 2.16). É natal na palestina e muitas mães têm que esconder seus filhos e filhas, outras choram a morte, enquanto outras ainda hoje pedem os corpos dos filhos/as mortos/as para lhes dar um último adeus, elas querem simplesmente o direito de chorar a morte dos seus filhos e sepultá-los como corresponde. Israel detém 23 corpos de palestinos mortos por eles mesmos. Quem tem o direito de tirar a vida de alguém? E ainda de não devolver os corpos as famílias?

Interior da tenda em que se reunem os familiares

Interior da tenda em que se reúnem os familiares ©PAEPI/Manoel Botelho

Entrada da tenda onde se reunem os familiares dos mortos que esperam os corposo

Entrada da tenda onde se reúnem os familiares dos mortos que esperam os corpos ©PAEPI/Manoel Botelho

Para as/os cristãs/cristãos o nascimento de Jesus tem sentido por causa da sua vida e morte, mas sua vida só foi possível enquanto filho de exilado. Nancy Cardoso disse: “Vou correr e chorar com eles, porque é lá, na periferia da ocupação do império e dos seus soldados que Deus vai escolher novamente a tornar-se humana e habitar entre nós.”[1] Não é no império, nem no poder que Jesus tem espaço, mas é na periferia, é entre os refugiados e exilados que ele se encontra. Aqueles que ocupam a terra são contrários a esse Jesus nascido em situação de exílio, aqueles que ocupam a terra não querem perder seu poder e para tanto precisam matar, inclusive matar as crianças. Nessa lógica, não importa nada além do poder, da autoridade, do controle. E pra a manutenção desse poder é necessário assumir que algumas vidas valem mais do que outras, pior do que isso, que algumas vidas não têm nenhum valor. E o anterior justifica e legitima os abusos e as mortes cometidas.

Depois de adulto, Jesus também mostrou uma clara opção pelo lado oposto do império. Ele era um sinal de constante contradição, a qual já tinha sido anunciada (Luc 2, 34). Durante sua vida chamou um samaritano –“estrangeiro impuro”– de próximo, conversou com mulheres consideradas “impuras”, trabalhou no sábado – porque se importou com a vida e não com as regras –, não julgou uma adúltera, e tantos outros gestos que mostram que Jesus nunca serviu aos interesses do império e nem quis satisfazer os anseios imperiais da sua própria religião. Esta postura de contestação e contradição lhe causaria perseguição e sua morte.

O nascimento e a vida de Jesus nos mostram que o império não se importa com as pessoas, sejam crianças, mulheres, jovens ou adultos, isto é, não lhe interessa a vida e sim manter o poder a qualquer preço. Por isto, há e sempre haverá duas opções no natal, ceder ao império e suas forças (às vezes é o caminho mais curto e fácil) mantendo assim alguns privilégios, ou se juntar a Jesus e seu caminho aparentemente contraditório de quebrar algumas regras imperiais em prol da vida.

Em qualquer lugar do mundo estamos diante dessas duas opções, o império ou a vida, e  principalmente a vida das vitimas do império. Aqui em Hebron não é muito diferente. As mães aqui choram não só a morte de seus filhos e filhas, mas cessam de chorar, pois não tem nem seus corpos para o funeral. Elas não podem enterrar seus filhos porque o império não quer devolver os corpos. Em Hebron o império dita as regras e as executa com seu poder, diz onde se pode andar, fecha casas, demole outras, controla o cotidiano e tira a paz.

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Professoras e crianças sendo revistadas para irem a escola ©PAEPI/Manoel Botelho

Diante disso, minha esperança é que nesse natal prevaleça a vida, que nesse natal Jesus nasça pra essas famílias, pra essas mães, irmãs, esposas, assim como pra esses pais, irmãos, amigos e amigas. Enfim, que Jesus nasça pra esse povo que sofre com os abusos do império, que o verbo se faça carne e habite de novo alí, no território ocupado, pois certamente Jesus não está com o Império, Jesus nasce em Hebron, em Belém, em Ramalah… Jesus nasce na Palestina.

[1]CARDOSO. Nancy ChristmasAlert 2015, Belém, Palestina: KairosPalestine. Tradução livre

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EA do Grupo 59 em Hebron

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Natal em Jerusalém, pela EA Mayara

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Vista da Cidade antiga de Jerusalém, Monte das Oliveiras ao fundo ©PAEPI/Mayara de Carvalho

À exceção do bairro cristão, na cidade antiga, onde as luzes de natal foram recebidas com festa na última quinta-feira, a comemoração do nascimento de Jesus não é percebida nas ruas de Jerusalém. O conflito Israel-Palestina, no entanto, pode ser visto a olhos nus todo o tempo.

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©PAEPI/Mayara de Carvalho

De olhos abertos, os cristãos em Jerusalém tem se perguntado, “diante de tamanha violência e de um contexto tão desumano, o que temos a comemorar nesse natal?”. Perguntam o que fazer, assim como a multidão interrogou João quando ele pregava o batismo de arrependimentos para o perdão dos pecados (Lucas, 3:7-18). Naquela ocasião, João respondeu que todos deveriam respeitar e repartir, com o que não tem, aquilo que lhes sobra.

A resposta de João parece dizer muito a indagação que fazemos hoje. Talvez os cristãos não possam, ainda que queiram, mudar o sistema, mas são capazes de influenciar individualmente, de mudar um a um, na esfera da micropolítica. É suficiente? Talvez não, mas reduz sofrimentos, compartilha esperanças e pode levar a ações verdadeiramente transformadoras. Parece ser esse também o nosso papel, enquanto acompanhantes ecumênicos nos territórios ocupados.

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Sabeel, Centro de Teologia da Libertação Palestina ©PAEPI/Mayara de Carvalho

Assim, a comunidade cristã em Jerusalém tem feito um convite para olharmos o natal de forma menos romântica. Se pensarmos que um nascimento é sempre barulhento e doloroso, cheio de sofrimento, mas também coberto de esperança e contentamento, o nascimento de Jesus Cristo tem muito a dizer sobre o conflito Israel-Palestina. É desse modo que Jerusalém comemorará o natal: como uma oportunidade de transformação, de esperança e de lançar feixes de luz na escuridão.

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©PAEPI/Mayara de Carvalho

Mayara de Carvalho

EA do Grupo 59 em Jerusalém

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O Natal e a vida sob ocupação em Belém, pela EA Maira

Inevitavelmente o ano chega ao seu fim e com ele a reflexão sobre o ano que passou, assim como os planos e esperanças para o futuro. Uma época para aproveitar os feriados e ficar com a família e amigos, em muitos lugares. Na Palestina não é diferente. Exceto pelo fato de que mais um ano acaba e os palestinos ainda estão na busca por justiça, lutando contra ela em seu dia a dia, especialmente com o levante popular que está acontecendo desde outubro deste ano. Belém, a cidade onde viverei durante três meses fornecendo presença protetiva, é onde se encontra a Igreja da Natividade. A cidade recebe muitos turistas e visitantes em Dezembro, mês em que as celebrações natalinas começam com o Natal católico e protestante no dia 25. É de se esperar que este momento também traga visibilidade para o sofrimento diário que os palestinos têm vivido sob ocupação militar israelense.

Viver aqui é presenciar as diversas formas em que se tem tentado normalizar a ocupação. Em uma manhã em que monitoramos o checkpoint 300, que separa Belém de Jerusalém, uma mulher israelense nos aborda e questiona: “por que vocês estão aqui e não na Síria? Não há nada para fazer aqui, está tudo bem.” É possível compreender como ela chegou a essa conclusão. Para um observador distraído – ou desinteressado – os palestinos têm uma vida normal, visto que trabalham, estudam, têm carros, têm decoração de Natal na rua, vão à escola, bares e restaurantes. Mas não é preciso ir muito fundo para ver que a vida aqui oscila entre tranquilidade e pânico, segurança e ansiedade, esperança e desespero. Afinal a vida na ocupação não chega nem perto de ser confortável.

Viver sob a ocupação é levar pelo menos uma hora e meia de ônibus para ir de Belém a Jerusalém, cidades que ficam a uma distância de 7km uma da outra, por causa dos checkpoints. É ter que descer do ônibus em um dia de chuva e ficar esperando em baixo da chuva na fila para ser revistado, enquanto turistas estrangeiros podem ficar dentro do ônibus aguardando. Também enquanto isso colonos ilegais israelenses têm sua própria estrada e conseguem se movimentar livremente. É ter que chegar no checkpoint às 4h da madrugada, ou até mesmo antes, e ficar pelo menos uma hora na fila para poder chegar a tempo no trabalho em Jerusalém ou outras cidades israelenses. É não saber se hoje aleatoriamente você vai conseguir passar pelo checkpoint, porque pode ser que aconteça de seu nome estar em uma lista de pessoas que não podem passar, sem nenhuma explicação.

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“Você é livre para fazer o que nós mandamos” ©PAEPI/Maira Peres

Viver na ocupação é não ter permissão para visitar locais sagrados para a sua crença, por causa da sua nacionalidade. É não poder ampliar a sua casa ou fazer reformas porque a permissão para construção nunca é concedida pelas autoridades israelenses para um palestino e porque se você ousar fazer qualquer construção sem permissão eles virão até sua casa a demolir e ainda te cobrarão uma multa pelo serviço prestado. É receber ordens de demolição aleatoriamente e ver assentamentos sendo construídos onde antes era sua casa, sua terra, sua plantação de oliveiras. É se ver separado de suas terras por um muro de 12 metros ou por uma cerca, com acesso restrito ou nenhum acesso a elas.

Viver na ocupação é ter medo de deixar suas crianças irem para a escola, pois lá estão os soldados israelenses prontos para proteger todos os direitos dos colonos israelenses e nenhum direito de qualquer palestino, criança ou adulto. É ver as crianças crescerem rápido demais em uma realidade de violência na qual elas não podem ser crianças por muito tempo. É ver as crianças ficando doentes em virtude do gás lacrimogêneo com uma química extremamente forte que constantemente é jogado dentro das escolas, dentro das casas, nas ruas. É ver os jovens indo embora das cidades em busca de um futuro sem violência em outros países.

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Crianças palestinas da vila de Tuqu’ ©PAEPI/Maira Peres

Viver sob a ocupação é ter frequentemente sua vila e casa invadidas no meio da noite por militares israelenses como punição coletiva para os protestos que estão sendo feitos por jovens e crianças, que atiram pedras contra o muro de separação, contra os soldados, contra os colonos ilegais que roubam suas terras.

Mas viver sob a ocupação também é ver a resiliência e a força que o povo palestino é capaz. É vê-los não deixarem de ser pessoas receptivas e alegres, que acreditam em uma paz justa entre os povos, apesar da realidade que persiste. É ter esperança e lutar constantemente contra a ocupação. Existir é resistir, dizem as pichações pela cidade. Desta forma, celebrar o Natal e manter as tradições cristãs na cidade em que Jesus nasceu é uma forma de resistência. Aqui estão e aqui permanecerão até que a justiça seja feita.

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Árvore de Natal e bandeira Palestina enfeitam a cidade de Beit Jala na preparação para o Natal ©PAEPI/Maira Peres

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Maira Peres

EA do Grupo 59 em Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

Belém, pelo EA Vitor

Comecei meu período de voluntariado em Belém, pelo programa PAEPI (Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e Israel) no final de Setembro, uma semana após o início da escalada de violência que tem acontecido na Cisjordânia. No dia 22 do mesmo mês, um internacional havia testemunhado a morte de Hadeel Salah Al-Hashlamon durante um monitoramento de rotina. A jovem de 18 anos foi assassinada por soldados do exército israelense no Checkpoint 56, uma das entradas para a Cidade Velha de Hebron, apesar de não ter feito qualquer ação que pudesse ameaçar qualquer pessoa. Esse momento traumático para a comunidade local e para a Palestina como um todo, associado às incursões e restrições israelenses ao espaço da mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, foi o ponto de partida do ciclo de violência que muitos já têm chamado de “Terceira Intifada”.

Apesar desse começo marcado pela morte e uma nova onda de ódio, nos primeiros dias era difícil imaginar que eu iria testemunhar (ou pelo menos sentir indiretamente os efeitos de) tanta violência. É claro que quando uma pessoa vem para a Palestina com certo preparo ela tem consciência que a ocupação militar do território, mantida e aprofundada por Israel desde 1967, tem gerado ondas de acirramento no conflito; mas, para além da escalada de violência que gera efeitos bastante visíveis na mídia, como os ataques dos dois lados e as execuções extrajudiciais de jovens palestinos, uma coisa que estamos (re)aprendendo aqui é que existem formas mais arraigadas e sutis de violência, e que a ocorrência delas é parte integral e indissociável da ocupação, independentemente do nível de tensão de cada época.

Tem sido parte da rotina lidar com o gás lacrimogêneo lançado com generosidade pelos soldados israelenses na Hebron Road, principal avenida de Belém, com o objetivo de reprimir os protestos que ocorrem no ponto onde a avenida encontra o Muro da Segregação. Em uma grande área da cidade, que serve de passagem para todos os tipos de pessoas que circulam por Belém, é corriqueiro ter que se esconder dentro da loja mais próxima para esperar o gás se dissipar o suficiente e a vida da rua voltar ao normal.

Mas isso é apenas uma das faces mais visíveis da ocupação na cidade, e a própria noção de normalidade é colocada em cheque durante os três meses de vivência na Palestina que o programa proporciona. Para muitos palestinos a normalidade não é simplesmente interrompida por agressões pontuais. Para eles tornou-se normal o elemento da violência no cotidiano, principalmente através do processo de militarização da vida. O diálogo com os contatos de cada vila e com as pessoas que visitamos nos dá a chance de tentar entender como as experiências geradas pela ocupação militar israelense moldam à força, o modo de viver dos palestinos.

No caminho para o trabalho, milhares de pessoas são obrigadas a esperar em longas filas apertadas por corredores e grades antes de passarem por “checkpoints” – postos de vigilância onde suas identidades e permissões de entrada são verificadas – onde muitas vezes são necessários mais de trinta minutos ou uma hora para chegar à saída dos terminais de controle.

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Trabalhadores palestinos se esforçam para encurtar o tempo de espera no Checkpoint 300 ©PAEPI/Vitor Joanni

A humilhação cotidiana dos checkpoints da Cisjordânia, que separam territórios palestinos de outros territórios palestinos, pode ser claramente observada no Checkpoint 300, encravado no Muro da Separação entre Belém e Jerusalém. Durante o começo do dia, a grande maioria dos palestinos presentes são homens a caminho dos seus trabalhos em Jerusalém. Muitos vêm das vilas ao redor de Belém, mas há também os que vêm de Hebron e passam por outro checkpoint antes de chegar ao CP 300, onde o time local do PAEPI observa. Eles precisam sair das suas casas no meio da noite para chegar ao trabalho no tempo determinado pelos seus patrões, e muitas vezes há o risco de que eles não consigam. Para as mulheres e crianças (e também para os turistas internacionais) há um corredor chamado de “via humanitária”, mas ele está fechado há mais de três meses. A “solução”, nas manhãs dos dias úteis, tem sido improvisar a passagem através da via que é feita para quem cruza no sentido contrário, de Jerusalém para Belém. Mas esse improviso tem sido problemático, executado por soldados e pelos seguranças da empresa privada que efetivamente opera o checkpoint, de modo arbitrário e muitas vezes agressivo contra quem precisa cruzar o muro para acessar o lado palestino de Jerusalém.

É bom lembrar que a violência que é feita durante o processo de operação de um checkpoint é ainda menor que a violência da sua fonte: um muro que desrespeita não só as leis internacionais, ao violar a fronteira previamente acordada entre palestinos e israelenses; mas também, por consequência, desrespeita a integridade do território pleiteado pelos palestinos (que é reconhecido pela maioria dos países do mundo), bem como o direito fundamental de acesso aos meios de subsistência ou de existência digna.

Entre suas casas e os checkpoints, os trabalhadores palestinos normalmente passam por alguns dos dezenove assentamentos ilegais israelenses que estão construídos nos topos dos montes que cercam Belém e as vilas ao redor da cidade. A expansão dos assentamentos é um processo violento que nega, cada vez mais, aos palestinos a esperança de que sua nação atinja uma solução pacífica que contemple a coexistência entre o consolidado Estado de Israel e um possível Estado da Palestina.

Na Palestina da “Terceira Intifada” as pessoas se sentem ainda menos seguras do que antes para manter a tradição mais consolidada da sociedade local – a colheita das azeitonas. Os produtores que possuem árvores próximas aos assentamentos ilegais não tem tranquilidade para colher com suas famílias e amigos, pois não são raros os assédios, e até mesmo os ataques, de colonos israelenses contra os palestinos que se aproximam. No meu breve tempo aqui, visitei um campo próximo à isolada vila de Al Jaba onde mais de cinquenta oliveiras haviam sido cortadas ou arrancadas do solo. Visitei Nahhalin, vila onde cerca de cem árvores foram queimadas por um incêndio causado por colonos israelenses do enorme (e crescente) assentamento chamado Beitar Illit. Próximo a essa mesma vila, presenciei o assédio de colonos contra uma família que seguia com a sua colheita sem se importar com os xingamentos e ameaças proferidas em hebreu pelos adolescentes israelenses. Em Tuqu’a colhi azeitonas com um grupo de homens que, apesar do grupo de soldados que estava próximo, conversavam, riam e cantavam enquanto faziam o trabalho.

A tensão de conviver com a violência latente da colonização das suas terras não impede os palestinos de serem um povo extremamente hospitaleiro, que é muito grato pela presença de quem os visita e colabora, seja para colher azeitonas ou para ajudar a contar a história deles. Debaixo das oliveiras me senti verdadeiramente parte dos grupos com quem estive colhendo, numa dinâmica em que a gratidão era mútua – eles, pela nossa “presença protetiva” e solidariedade; nós, pela hospitalidade, pela chance de aprender sobre a vida deles e pela comida maravilhosa que sempre é oferecida.

Quase dois meses após a morte de Hadeel Salah Al-Hashlamon eu conheci outra Hadeel, que tem 17 anos e vive com sua família em Belém durante alguns dias da semana e na zona rural de Beit Sakarya nos dias de folga. A casa que fica no campo é simples, a ponto de disfarçar a riqueza que eles possuem no entorno: um pedaço de terra fértil onde eles cultivam maçãs, uvas, variedades de verduras e, é claro, oliveiras. A paisagem idílica foi abruptamente marcada pela construção de um posto avançado do assentamento mais próximo, Efrat, a cerca de dez metros de onde ficam as oliveiras da família de Hadeel. Próximo à casa, há também o cruzamento de Gush Etzyon na Estrada 60, que leva a Hebron.

É comum que nesse cruzamento aconteçam ataques de colonos israelenses contra palestinos e vice-versa. Na véspera de quando fomos colher azeitonas com eles, um ataque matou três israelenses e deixou outros cinco feridos. Por causa disso, a família estava ainda mais apreensiva ao realizar a colheita das suas azeitonas. Mas o dia correu tranquilo, ensolarado, sem qualquer sinal de violência que nos alcançasse. As crianças se divertiam entre si e conosco, os estrangeiros de nomes e cabelos engraçados. Um dia verdadeiramente feliz de trabalho e confraternização entre eles e a equipe do PAEPI que esteve presente.

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Insha’Allah ©PAEPI/Vitor Joanni

Apesar de toda a desesperança que aflige a Palestina e nós que temos o privilégio da vivência entre os palestinos, apesar dos males da ocupação israelense e da falta de indícios de que o futuro pode ser melhor, dias como esse servem para alimentar o ânimo dos que acreditam numa Palestina livre. Albert Camus escreveu que “é preciso imaginar Sísifo feliz”. No difícil caminho para a paz, muitos palestinos, apesar de tudo, mantém a poderosa capacidade de serem felizes.

Vitor Joanni

EA do Grupo 58 em Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.