Aprender sob ocupação militar: sobre mulheres e determinação

O acesso à educação de qualidade é um desafio em todos os países em desenvolvimento – é assim no Brasil, e aqui na Palestina não é diferente. Sob a ocupação militar, o maior obstáculo encontrado pelas crianças são os soldados que, diariamente, estão presentes em seu caminho para a escola. Muitas crianças enfrentam longas caminhadas perigosas ao longo das estradas, onde carros de colonos que moram em assentamentos ilegais aceleram, fingindo não ver os estudantes que estão tão vulneráveis a acidentes enquanto caminham. Mas o desafio de conseguir uma boa educação quando se trata de crianças com necessidades especiais é ainda maior.

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Ismael brinca de massinha. As crianças com deficiência são constantemente marginalizadas e privadas de seu direito à educação. Belém, EAPPI/Carolina B

Grande parte das crianças com deficiência não recebem a devida atenção e inclusão, sendo marginalizadas e impedidas de ter uma infância saudável. Em Belém, no campo de refugiados de ‘Aida, as mulheres têm um protagonismo importantíssimo em relação à isso: cansadas de esperar uma solução vinda da Autoridade Palestina ou da UNRWA (agência da ONU dedicada exclusivamente a atender os interesses de refugiados palestinos), um grupo de mães decidiu criar sua própria escola para crianças com deficiência.

Essas mães já sustentam um projeto de empoderamento feminino há seis anos, dando aulas de culinária tradicional palestina e abrigando estrangeiros em suas próprias casas. O grupo de empoderamento feminino Noor (que em árabe significa “luz”) foi idealizado por mulheres dos campos de ‘Aida e Al-Azza que têm filhos e filhas com necessidades especiais, juntamente com duas voluntárias estrangeiras. Atualmente, o projeto é mantido apenas pelas mulheres refugiadas, que surpreendem os turistas com pratos deliciosos, hospitalidade e histórias difíceis de serem digeridas.

Eu visitei a escola algumas vezes desde que cheguei aqui, e o aroma da cozinha invade a sala de aula, deixando uma atmosfera de risadas e fome.

Islam, uma das criadoras do projeto, tem seis filhos – e um deles, Mohamed, precisa de atenção e cuidado em tempo integral. “Muitas famílias têm vergonha de ter um filho deficiente, e o escondem dos outros. Eu e meus filhos sabemos que Mohamed é uma criança como qualquer outra, e meus filhos me ajudam a cuidar dele.” Islam narra como a ideia de inaugurar uma escola para as crianças dentro do campo de ‘Aida surgiu.

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Faixada da escola após a pintura. Belém, EAPPI/ Carolina B

Os centros para crianças com deficiência ficam muito longe do campo, são pagos e não fornecem transporte gratuito. As famílias precisam arcar com todos os custos, e nem sempre isso é possível. Além disso, os centros não têm capacidade para receber todas as crianças, alegando que não têm estrutura para cuidar de alguns casos mais graves. Há alguns meses, Islam decidiu, juntamente com outras mulheres, resolver o problema com seus próprios meios: ela cedeu um andar inteiro de sua casa para abrigar a escola recém-nascida. Porém, essa é uma medida temporária, pois o local não é acessível e adequado para ser uma escola que recebe cadeirantes. As ruas estreitas e esburacadas do campo não são muito diferentes das ruas do meu bairro em São Paulo, e as crianças precisam atravessá-las com cuidado, ou precisam de ajuda para cruzar o campo de cadeira de rodas.

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O campo de refugiados não é um lugar com acessibilidade adequada para pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção. EAPPI/ Carolina B

Eu fui convidada para participar de uma reunião entre as mulheres do Noor, juntamente com mães vindas de Hebron para ouvir as histórias das mães de ‘Aida e Al-Azza. Mais de 40 mulheres estavam reunidas, tomando café e compartilhando suas trajetórias e percepções de como é ter uma criança com deficiência sob a ocupação militar israelense.

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Reunião de mulheres de Hebron, ‘Aida e Al-Azza reuniu mais de 40 mães num emocionante encontro. Belém, EAPPI/ Carolina B

O protagonismo das mulheres transbordava nessa reunião, e eu senti algumas vezes um arrepio por estar presenciando algo tão especial. Sentir que nada irá impedir essas mulheres de realizar os sonhos que elas têm para a educação dos filhos, mesmo com todas as dificuldades de morar em um campo de refugiados, levou-me a refletir sobre a visão que muitas pessoas ainda têm das mulheres daqui. Independentemente da sua religião, já que são muçulmanas e cristãs, a inciativa delas para mudar a realidade atual está além das barreiras de nossos pré-conceitos em relação às mulheres palestinas.

Eu acompanhei uma manhã de aulas – a professora de árabe para crianças especiais, também chamada Islam, ensinava para seus alunos e alunas algumas palavras básicas, como papai, mamãe, irmão e irmã. Enquanto aprendiam, alguns deles desenhavam.

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Crianças desenham seus familiares entre muitas risadas e novas palavras. Belém, EAPPI/ Carolina B

Depois, com Saja, a fisioterapeuta, as crianças brincaram de massinha, modelando seus familiares com toda a criatividade do mundo.

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Após a aula de árabe, as crianças brincam de massinha, assitidas por Saja. Belém, EAPPI/Carolina B

Porém, ainda há outros desafios: além do salário das professoras, é preciso encontrar outro local para abrigar a escola, uma vez que a família de Islam cedeu a casa temporariamente. Além disso, o ideal seria encontrar um espaço com acessibilidade adequada, e não há verba para alugar um imóvel e reformá-lo. Os equipamentos para fisioterapia também ainda precisam ser comprados. O projeto agora está buscando financiamento estrangeiro para transformar essa inciativa numa escola que atenda todas as necessidades das crianças.

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No momento, a escola está funcionando na casa de Islam. As sessões de fisioterapia e as brincadeiras acontecem onde antes era a sala de estar, e as aulas de árabe são lecionadas em um dos antigos quartos. Belém, EAPPI/Carolina B

A iniciativa individual é necessária porque o direito das crianças especiais à educação não está sendo cumprido, mas a comunidade internacional não pode fechar os olhos frente a esse problema. Não fornecer educação adequada é uma violação grave aos direitos das crianças e pressionar as autoridades palestinas, assim como organizações internacionais, é essencial para mudar essa realidade.

Carolina B

EA do Grupo 62, Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).

As raízes arrancadas de Wadi Fukin

Eu estava na estrada indo para Al Walaja quando um celular dentro do carro tocou. Era apenas 9h30 da manhã e, do outro lado da linha, uma voz decepcionada relatou um incidente no vilarejo de Wadi Fukin. Soldados das Forças de Defesa Israelenses, juntamente com funcionários da Administração Civil, haviam invadido uma área ao norte da vila, cortando cerca de 17 oliveiras centenárias e destruindo 0,02 km² de terra cultivável. De acordo com as autoridades israelenses, essa região é considerada como reserva natural e deve ser protegida. Mas talvez, para eles, as árvores cultivadas pelas famílias palestinas não se enquadrem sob essa proteção.

O vilarejo de Wadi Fukin está localizado no distrito de Belém, na Cisjordânia. Com aproximadamente 1300 habitantes, esta vila fica num vale com terras férteis, onde diariamente os moradores trabalham em suas plantações. Praticamente todas as famílias que aqui moram são de agricultores, que dependem da venda dos produtos para sua sobrevivência.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Agricultor trabalha em sua propriedade, ao sol do meio dia. – EAPPI/ Carolina B.

Na sua porção norte, está a fronteira entre Israel e Palestina, definida pelo armistício de 1949 (também conhecida como Linha Verde ou Green Line). A comunidade israelense Zur Hadassa está localizada após a fronteira, e o vilarejo costumava ter relações positivas com os moradores dessa cidade. Apesar de haver um trecho de muro de separação planejado para a região, até o momento não há uma barreira física entre terras palestinas e israelenses. Ao sul de Wadi Fukin, está o assentamento ilegal Beitar Illit. O impacto da presença de Beitar Illit vai muito além do que podemos imaginar à primeira vista. Ahmad Sokar, o prefeito, contou-me como a vida naquele vale silencioso mudou desde que a colônia foi construída sobre terras confiscadas do vilarejo. “Wadi Fukin sempre foi famoso pela produção agrícola mas, nos últimos 15 anos, Beitar Illit começou a despejar seu esgoto em canos que levam diretamente a nossas plantações. Isso comprometeu a reputação dos nossos produtos.” Com o solo contaminado pelo esgoto, a subsistência dos moradores ficou comprometida.

Ahmad também falou sobre as frequentes invasões que os colonos de Beitar Illit fazem na vila. “Às vezes, eles vêm apenas para nos intimidar com suas armas. Outras vezes, eles colocam fogo na terra, nadam em nossas piscinas agrícolas (tanques de água que são usados para irrigação), roubam coisas de nossas hortas ou destroem parte da plantação.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Parquinho do vilarejo, que tem uma ordem de demolição pelas autoridades israelenses. EAPPI/ Carolina B.

O único parquinho disponível para as crianças do vilarejo, que foi construído há 5 anos, tem uma ordem de demolição. Adel Hroub, ex-membro do conselho municipal, segura seu filho no colo e afirma que “em Beitar Illit, há cerca de 60 parquinhos, onde as crianças podem brincar. Aqui, temos apenas um, e não sabemos quanto tempo ele ainda vai durar.” Adel me levou para andar pelo vilarejo e ver algumas das obras para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, mas quase todas as obras receberam ordens para serem interrompidas, vindas da Administração Civil israelense. O motivo? A maior parte de Wadi Fukin está em território classificado como área C,na qual Israel detém o controle civil e militar. Os Acordos de Oslo, nos anos 90, dividiram a Cisjordânia em três tipos de área, de acordo com quem tem o controle de cada uma. A área A está sob controle da Autoridade Palestina, enquanto a área B está sob controle civil palestino e militar israelense. Atualmente, mais de 60% do território palestino na Cisjordânia é classificado como área C, o que impede que palestinos e palestinas façam uso de suas próprias terras sem antes conseguir uma permissão de Israel. Conseguir uma permissão para qualquer tipo de obra requer muita paciência, dinheiro – e quase sempre gera frustração, já que apenas 1% dos pedidos de permissão são aceitos. Sem opções, as famílias arriscam construir sem a permissão legal, correndo o risco de ter sua obra demolida a qualquer momento.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Campo de futebol quase finalizado, com uma ordem de demolição emitida recentemente. EAPPI/ Carolina B.

Andando pelos campos de oliveiras em direção ao sul da vila, há um campo de futebol quase finalizado. Adel disse que logo irão colocar a grama e o campo poderá ser utilizado pelos jovens e adultos, e que todos estão empolgados para jogar bola ali antes que o exército venha destruir a quadra. O campo de futebol também recebeu uma ordem de demolição antes mesmo de ser finalizado.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – A comunidade israelense Zur Hadassa se expande e avança a Linha Verde, ameaçando tomar mais terras do vilarejo.  EAPPI/ Carolina B.

Esta é minha segunda visita à Palestina ocupada, mas algumas cenas não deixam de impressionar. Vimos as oliveiras que foram arrancadas pelos tratores na manhã anterior, as raízes expostas ao ar. Ahmad me mostrou o vídeo da destruição das árvores e no rosto dos agricultores o olhar de perda. De certa forma, aquelas árvores eram uma parte da família deles, cuidadas ao longo de gerações, anualmente fornecendo milhares de azeitonas. Ao arrancar as raízes das oliveiras, um recado foi passado: são também as raízes que palestinos e palestinas têm naquela terra que estão sendo rompidas. Ao ver os campos queimados pelos colonos que invadem o vilarejo, eu enxerguei a tentativa de apagar as memórias daquelas famílias.

Enquanto estávamos em seu escritório, Ahmad me mostrou um mapa de planejamento para a região, elaborado pelas autoridades israelenses. Onde antes estavam as oliveiras, seria construída uma zona industrial e uma estrada para ligar Beitar Illit a Zur Hadassa.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Terras agrícolas queimadas pelos colonos durante invasões ao vilarejo. Ao fundo, o assentamento ilegal de Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ahmad não conseguiu esconder sua preocupação com o futuro do vilarejo enquanto me mostrava a expansão de Beitar Illit e de Zur Hadassa. “Não sabemos ainda se a única entrada para a vila será fechada quando a expansão da colônia e da comunidade e a construção da zona industrial forem finalizadas.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Expansão do assentamento ilegal Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ao deixar aquele vale encurralado por ocupantes ilegais, eu me perguntei se na minha próxima visita ainda existirá Wadi Fukin – ou se mais um vilarejo palestino será anexado a Israel e todas as raízes palestinas dali estarão expostas ao ar, como as oliveiras arrancadas.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Na prefeitura do vilarejo, algumas fotos mostram a luta dos moradores para salvar o futuro de Wadi Fukin – EAPPI/ Carolina B.

Mais informações:

https://electronicintifada.net/content/video-without-land-we-are-nothing/14774

http://english.wafa.ps/page.aspx?id=EUdHELa47753255022aEUdHEL

https://www.ochaopt.org/documents/opt_arij_vp_wadifukin.pdf

http://mondoweiss.net/2014/09/village-largest-israeli/

Referências:

www.ochaopt.org/location/area-c

http://data.ochaopt.org/vpp.aspx

Carolina B

EA do Grupo 62, Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).

Jesus era palestino: uma reflexão sobre (a falta de lugar para) o Natal

A Terra Santa não recebe este nome por acaso. Tanto os territórios palestinos quanto os de Israel representam uma grande parcela do que teria sido palco de muitas histórias da Bíblia judaico-cristã e do Corão muçulmano. As convergências sobre assuntos religiosos são tantas quantas são as divergências, e a complexidade da situação na Palestina e Israel não para por aí.

Em tempos de natal, é interessante pensarmos um pouco sobre Jesus, pois todo dia 24 e 25 de dezembro se comemora o seu “natal”. Há controvérsias quanto ao lugar em que Jesus nasceu, pois, pelo menos três lugares diferentes são apontados como possíveis. O mais famoso é onde foi construída a Igreja da Natividade, em Belém, dentro da qual há uma estrela de prata colocada no exato local onde Jesus teria nascido.

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Entrada do Campo de Refugiado de Aida em Belém ©PAEPI/Renan Leme

Conforme a fé cristã, a jovem judia e virgem Maria, grávida de Jesus, ia montada num jumentinho e acompanhada por seu noivo José da Galileia para Belém, onde deveriam participar de recenseamento ordenado pelo governo daquela época. Jesus nasceu no meio do caminho, dentro de uma estrebaria pobre e foi colocado numa manjedoura para descansar porque não havia lugar nas hospedarias.

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Muro de Segregação em Belém ©PAEPI/Renan Leme

Dizem que, no trajeto para Belém, Maria também passou por Yanoun, pequena vila palestina onde morei durante a participação como EA. É por isso, dizem, que as azeitonas de lá são as melhores da região. Sem dúvida elas são! A bem da verdade, a presença de internacionais em Yanoun ainda é indispensável, pois inibe violências e provocações por parte dos colonos de assentamentos judaicos ao redor, ilegais até mesmo para Israel e outras transgressões aos acordos internacionais assinados por ambas as partes.

Há muitos judeus e israelenses que que sofrem com o conflito. De fato, a situação gera insegurança e dor para todos os que vivem. Mas, seguramente, quem se aproximar para vivenciar um pouco da realidade atual do povo da Palestina, sob ocupação israelense, reconhecerá que Israel é o maior violador de direitos humanos neste conflito e o povo palestino é a maior vítima nesse contexto. A vida na Cisjordânia e na Faixa de Gaza é de incerteza, falta de esperança e muitas dificuldades. A fronteiras e oportunidades em geral são restritas a poucos que conseguem têm a sorte de conquistar o direito de trabalhar, cultivar ou construir casas.

Jesus, que era filho de mãe judia e palestino, disse que se identificava com os oprimidos, desabrigados e excluídos. Ele se via neles: “Quando deram de comer a um destes pequeninos, a mim o fizeram. Quando acolheram um estrangeiro, a mim o fizeram”. Ainda bem pequeno, ele teve de deixar sua terra e viver como refugiado no Egito. O motivo era que o rei mandou matar os meninos de dois anos de idade para baixo: eles seriam um problema no futuro. Fato semelhante ainda ocorre com a prisão de crianças e adolescentes palestinos, tidos como perigosos e terroristas em potencial. Isso se confirma com a presença ostensiva de soldados israelenses nas proximidades de escolas, por exemplo, para que, desde cedo, as crianças árabes aprendam “quem manda” e não representem resistência no futuro. O rei que perseguiu os meninos era o judeu Herodes, numa época em que os judeus eram oprimidos na Palestina. O quadro atual é semelhante: os palestinos são oprimidos até mesmo pelos políticos que deveriam defender seus interesses e avançar nas negociações por paz e por direitos humanos.

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©PAEPI/Renan Leme

Herodes se sujeitava ao império romano, que mantinha a Palestina e outras terras ocupadas. Para os projetos imperialistas/colonialistas de hoje, a região da Terra Santa ainda atende muito bem ao propósito de inserir a cultura e dominação ocidental no Oriente Médio, além de fazer girar o mercado bélico com a continuidade do conflito. Lembro-me de alguns dias que passamos em Belém, e víamos da janela do hotel uma espécie de tanque de guerra do exército israelense que atirava muitas bombas de gás ao mesmo tempo contra um pouco mais de cem palestinos durante um protesto. A manifestação começou por causa dos problemas envolvendo o acesso à mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, somados à indignação pela morte de um garoto de treze anos que vivia num campo de refugiados. O menino foi alvejado por um tiro que veio da torre de vigia do muro que separa Belém de Jerusalém. Após o protesto, a rua estava forrada de cápsulas de balas e de bombas de gás e de efeito moral. Dos palestinos ficaram inúmeras pedras e bolinhas de gude, usadas como arma pelos palestinos.

Não só o natal, mas a vida na Cisjordânia é um desafio cada vez maior e muitos estão desistindo. Os que resistem o fazem pela persistência ou porque não têm para onde ir. A saída de muitos palestinos, inclusive membros das igrejas cristãs, tem sido a de procurar abrigo em outros países. O papai Noel não é generoso com as crianças de lá. Mas, mesmo assim, dar à luz tem sido uma forma de resistência das mulheres palestinas para garantir que seu povo não será extinto. A ocupação, porém, coloca em cheque o direito de muitas crianças acessarem um hospital ou clínica de maternidade. As crianças judias já crescem aprendendo a ter medo de quem não é judeu e a enxerga-los como inimigos, que podem se manifestar mais cedo ou mais tarde. O bom velhinho talvez seria encarado como mais um infiltrado antissemita.

Se Jesus estivesse entre nós hoje em dia, não seria contra a existência do estado moderno de Israel, como também não o somos, porque é o lar de muita gente que em outros momentos da história sofreu perseguição e preconceito. Mas, certamente não deixaria de criticar as injustiças que o Estado pratica em nome do judaísmo, como já acontecia na época de Jesus, e que, inclusive, o levaram à morte. Para o cristianismo, porém, Jesus ainda está vivo porque ressuscitou, e continua a inspirar seus seguidores a fazer o que ele fez e a consolar o coração dos que sofrem, porque ele mesmo foi um dos esquecidos, oprimidos, vitimados e saqueados de seus direitos mais básicos pela truculência dos poderosos e seus sistemas de injustiça e morte. O projeto de um estado para garantir o lugar de um povo não pode ser construído sobre o não-lugar de outro. De acordo com a Bíblia, mesmo os hebreus do antigo Israel habitavam com outros povos, compartilhando a terra.

O evangelho conta que pouco depois de sua ressurreição, Jesus estava caminhando ao lado de dois de seus discípulos que estavam voltando para casa porque duvidavam da história que ouviram sobre seu mestre e, por isso, não o reconheceram. Ao fim do trajeto eles convidaram Jesus para entrar, comer e repousar. Ele aceitou e, na hora do partir do pão, foi reconhecido e desapareceu. Aqueles discípulos exerceram hospitalidade e solidariedade com um ser humano em situação de fragilidade e, no final das contas, ele era Jesus. A dor deles gerou empatia pela dor de outra pessoa e por mais que tivessem sofrido, guardavam a lição de amar ao próximo como a eles mesmos. Por isso tiveram o privilégio de ver a esperança renascer!

O natal onde Jesus nasceu continua sendo difícil. O clima é inóspito, o conflito é de matar a esperança, a religião mal interpretada alimenta o ódio e os interesses políticos e econômicos ditam as regras do jogo. Mesmo assim, ainda há pessoas de Israel, da Palestina e do mundo todo que conseguem enxergar algo positivo no outro (mesmo que ele ou ela seja diferente) e convidar para repartir o pão, os sonhos de paz, o desejo de justiça, a esperança de um mundo melhor. Afinal de contas, época de natal, é tempo de lembrar que toda a humanidade é uma comunidade fraterna, que há espaço para toda gente e que as fronteiras só deveriam aparecer nos mapas para localização geográfica. Não precisam ser de separação!

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EA do Grupo 57 em Yanoun

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O Natal e a vida sob ocupação em Belém, pela EA Maira

Inevitavelmente o ano chega ao seu fim e com ele a reflexão sobre o ano que passou, assim como os planos e esperanças para o futuro. Uma época para aproveitar os feriados e ficar com a família e amigos, em muitos lugares. Na Palestina não é diferente. Exceto pelo fato de que mais um ano acaba e os palestinos ainda estão na busca por justiça, lutando contra ela em seu dia a dia, especialmente com o levante popular que está acontecendo desde outubro deste ano. Belém, a cidade onde viverei durante três meses fornecendo presença protetiva, é onde se encontra a Igreja da Natividade. A cidade recebe muitos turistas e visitantes em Dezembro, mês em que as celebrações natalinas começam com o Natal católico e protestante no dia 25. É de se esperar que este momento também traga visibilidade para o sofrimento diário que os palestinos têm vivido sob ocupação militar israelense.

Viver aqui é presenciar as diversas formas em que se tem tentado normalizar a ocupação. Em uma manhã em que monitoramos o checkpoint 300, que separa Belém de Jerusalém, uma mulher israelense nos aborda e questiona: “por que vocês estão aqui e não na Síria? Não há nada para fazer aqui, está tudo bem.” É possível compreender como ela chegou a essa conclusão. Para um observador distraído – ou desinteressado – os palestinos têm uma vida normal, visto que trabalham, estudam, têm carros, têm decoração de Natal na rua, vão à escola, bares e restaurantes. Mas não é preciso ir muito fundo para ver que a vida aqui oscila entre tranquilidade e pânico, segurança e ansiedade, esperança e desespero. Afinal a vida na ocupação não chega nem perto de ser confortável.

Viver sob a ocupação é levar pelo menos uma hora e meia de ônibus para ir de Belém a Jerusalém, cidades que ficam a uma distância de 7km uma da outra, por causa dos checkpoints. É ter que descer do ônibus em um dia de chuva e ficar esperando em baixo da chuva na fila para ser revistado, enquanto turistas estrangeiros podem ficar dentro do ônibus aguardando. Também enquanto isso colonos ilegais israelenses têm sua própria estrada e conseguem se movimentar livremente. É ter que chegar no checkpoint às 4h da madrugada, ou até mesmo antes, e ficar pelo menos uma hora na fila para poder chegar a tempo no trabalho em Jerusalém ou outras cidades israelenses. É não saber se hoje aleatoriamente você vai conseguir passar pelo checkpoint, porque pode ser que aconteça de seu nome estar em uma lista de pessoas que não podem passar, sem nenhuma explicação.

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“Você é livre para fazer o que nós mandamos” ©PAEPI/Maira Peres

Viver na ocupação é não ter permissão para visitar locais sagrados para a sua crença, por causa da sua nacionalidade. É não poder ampliar a sua casa ou fazer reformas porque a permissão para construção nunca é concedida pelas autoridades israelenses para um palestino e porque se você ousar fazer qualquer construção sem permissão eles virão até sua casa a demolir e ainda te cobrarão uma multa pelo serviço prestado. É receber ordens de demolição aleatoriamente e ver assentamentos sendo construídos onde antes era sua casa, sua terra, sua plantação de oliveiras. É se ver separado de suas terras por um muro de 12 metros ou por uma cerca, com acesso restrito ou nenhum acesso a elas.

Viver na ocupação é ter medo de deixar suas crianças irem para a escola, pois lá estão os soldados israelenses prontos para proteger todos os direitos dos colonos israelenses e nenhum direito de qualquer palestino, criança ou adulto. É ver as crianças crescerem rápido demais em uma realidade de violência na qual elas não podem ser crianças por muito tempo. É ver as crianças ficando doentes em virtude do gás lacrimogêneo com uma química extremamente forte que constantemente é jogado dentro das escolas, dentro das casas, nas ruas. É ver os jovens indo embora das cidades em busca de um futuro sem violência em outros países.

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Crianças palestinas da vila de Tuqu’ ©PAEPI/Maira Peres

Viver sob a ocupação é ter frequentemente sua vila e casa invadidas no meio da noite por militares israelenses como punição coletiva para os protestos que estão sendo feitos por jovens e crianças, que atiram pedras contra o muro de separação, contra os soldados, contra os colonos ilegais que roubam suas terras.

Mas viver sob a ocupação também é ver a resiliência e a força que o povo palestino é capaz. É vê-los não deixarem de ser pessoas receptivas e alegres, que acreditam em uma paz justa entre os povos, apesar da realidade que persiste. É ter esperança e lutar constantemente contra a ocupação. Existir é resistir, dizem as pichações pela cidade. Desta forma, celebrar o Natal e manter as tradições cristãs na cidade em que Jesus nasceu é uma forma de resistência. Aqui estão e aqui permanecerão até que a justiça seja feita.

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Árvore de Natal e bandeira Palestina enfeitam a cidade de Beit Jala na preparação para o Natal ©PAEPI/Maira Peres

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Maira Peres

EA do Grupo 59 em Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

Belém, pelo EA Vitor

Comecei meu período de voluntariado em Belém, pelo programa PAEPI (Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e Israel) no final de Setembro, uma semana após o início da escalada de violência que tem acontecido na Cisjordânia. No dia 22 do mesmo mês, um internacional havia testemunhado a morte de Hadeel Salah Al-Hashlamon durante um monitoramento de rotina. A jovem de 18 anos foi assassinada por soldados do exército israelense no Checkpoint 56, uma das entradas para a Cidade Velha de Hebron, apesar de não ter feito qualquer ação que pudesse ameaçar qualquer pessoa. Esse momento traumático para a comunidade local e para a Palestina como um todo, associado às incursões e restrições israelenses ao espaço da mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, foi o ponto de partida do ciclo de violência que muitos já têm chamado de “Terceira Intifada”.

Apesar desse começo marcado pela morte e uma nova onda de ódio, nos primeiros dias era difícil imaginar que eu iria testemunhar (ou pelo menos sentir indiretamente os efeitos de) tanta violência. É claro que quando uma pessoa vem para a Palestina com certo preparo ela tem consciência que a ocupação militar do território, mantida e aprofundada por Israel desde 1967, tem gerado ondas de acirramento no conflito; mas, para além da escalada de violência que gera efeitos bastante visíveis na mídia, como os ataques dos dois lados e as execuções extrajudiciais de jovens palestinos, uma coisa que estamos (re)aprendendo aqui é que existem formas mais arraigadas e sutis de violência, e que a ocorrência delas é parte integral e indissociável da ocupação, independentemente do nível de tensão de cada época.

Tem sido parte da rotina lidar com o gás lacrimogêneo lançado com generosidade pelos soldados israelenses na Hebron Road, principal avenida de Belém, com o objetivo de reprimir os protestos que ocorrem no ponto onde a avenida encontra o Muro da Segregação. Em uma grande área da cidade, que serve de passagem para todos os tipos de pessoas que circulam por Belém, é corriqueiro ter que se esconder dentro da loja mais próxima para esperar o gás se dissipar o suficiente e a vida da rua voltar ao normal.

Mas isso é apenas uma das faces mais visíveis da ocupação na cidade, e a própria noção de normalidade é colocada em cheque durante os três meses de vivência na Palestina que o programa proporciona. Para muitos palestinos a normalidade não é simplesmente interrompida por agressões pontuais. Para eles tornou-se normal o elemento da violência no cotidiano, principalmente através do processo de militarização da vida. O diálogo com os contatos de cada vila e com as pessoas que visitamos nos dá a chance de tentar entender como as experiências geradas pela ocupação militar israelense moldam à força, o modo de viver dos palestinos.

No caminho para o trabalho, milhares de pessoas são obrigadas a esperar em longas filas apertadas por corredores e grades antes de passarem por “checkpoints” – postos de vigilância onde suas identidades e permissões de entrada são verificadas – onde muitas vezes são necessários mais de trinta minutos ou uma hora para chegar à saída dos terminais de controle.

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Trabalhadores palestinos se esforçam para encurtar o tempo de espera no Checkpoint 300 ©PAEPI/Vitor Joanni

A humilhação cotidiana dos checkpoints da Cisjordânia, que separam territórios palestinos de outros territórios palestinos, pode ser claramente observada no Checkpoint 300, encravado no Muro da Separação entre Belém e Jerusalém. Durante o começo do dia, a grande maioria dos palestinos presentes são homens a caminho dos seus trabalhos em Jerusalém. Muitos vêm das vilas ao redor de Belém, mas há também os que vêm de Hebron e passam por outro checkpoint antes de chegar ao CP 300, onde o time local do PAEPI observa. Eles precisam sair das suas casas no meio da noite para chegar ao trabalho no tempo determinado pelos seus patrões, e muitas vezes há o risco de que eles não consigam. Para as mulheres e crianças (e também para os turistas internacionais) há um corredor chamado de “via humanitária”, mas ele está fechado há mais de três meses. A “solução”, nas manhãs dos dias úteis, tem sido improvisar a passagem através da via que é feita para quem cruza no sentido contrário, de Jerusalém para Belém. Mas esse improviso tem sido problemático, executado por soldados e pelos seguranças da empresa privada que efetivamente opera o checkpoint, de modo arbitrário e muitas vezes agressivo contra quem precisa cruzar o muro para acessar o lado palestino de Jerusalém.

É bom lembrar que a violência que é feita durante o processo de operação de um checkpoint é ainda menor que a violência da sua fonte: um muro que desrespeita não só as leis internacionais, ao violar a fronteira previamente acordada entre palestinos e israelenses; mas também, por consequência, desrespeita a integridade do território pleiteado pelos palestinos (que é reconhecido pela maioria dos países do mundo), bem como o direito fundamental de acesso aos meios de subsistência ou de existência digna.

Entre suas casas e os checkpoints, os trabalhadores palestinos normalmente passam por alguns dos dezenove assentamentos ilegais israelenses que estão construídos nos topos dos montes que cercam Belém e as vilas ao redor da cidade. A expansão dos assentamentos é um processo violento que nega, cada vez mais, aos palestinos a esperança de que sua nação atinja uma solução pacífica que contemple a coexistência entre o consolidado Estado de Israel e um possível Estado da Palestina.

Na Palestina da “Terceira Intifada” as pessoas se sentem ainda menos seguras do que antes para manter a tradição mais consolidada da sociedade local – a colheita das azeitonas. Os produtores que possuem árvores próximas aos assentamentos ilegais não tem tranquilidade para colher com suas famílias e amigos, pois não são raros os assédios, e até mesmo os ataques, de colonos israelenses contra os palestinos que se aproximam. No meu breve tempo aqui, visitei um campo próximo à isolada vila de Al Jaba onde mais de cinquenta oliveiras haviam sido cortadas ou arrancadas do solo. Visitei Nahhalin, vila onde cerca de cem árvores foram queimadas por um incêndio causado por colonos israelenses do enorme (e crescente) assentamento chamado Beitar Illit. Próximo a essa mesma vila, presenciei o assédio de colonos contra uma família que seguia com a sua colheita sem se importar com os xingamentos e ameaças proferidas em hebreu pelos adolescentes israelenses. Em Tuqu’a colhi azeitonas com um grupo de homens que, apesar do grupo de soldados que estava próximo, conversavam, riam e cantavam enquanto faziam o trabalho.

A tensão de conviver com a violência latente da colonização das suas terras não impede os palestinos de serem um povo extremamente hospitaleiro, que é muito grato pela presença de quem os visita e colabora, seja para colher azeitonas ou para ajudar a contar a história deles. Debaixo das oliveiras me senti verdadeiramente parte dos grupos com quem estive colhendo, numa dinâmica em que a gratidão era mútua – eles, pela nossa “presença protetiva” e solidariedade; nós, pela hospitalidade, pela chance de aprender sobre a vida deles e pela comida maravilhosa que sempre é oferecida.

Quase dois meses após a morte de Hadeel Salah Al-Hashlamon eu conheci outra Hadeel, que tem 17 anos e vive com sua família em Belém durante alguns dias da semana e na zona rural de Beit Sakarya nos dias de folga. A casa que fica no campo é simples, a ponto de disfarçar a riqueza que eles possuem no entorno: um pedaço de terra fértil onde eles cultivam maçãs, uvas, variedades de verduras e, é claro, oliveiras. A paisagem idílica foi abruptamente marcada pela construção de um posto avançado do assentamento mais próximo, Efrat, a cerca de dez metros de onde ficam as oliveiras da família de Hadeel. Próximo à casa, há também o cruzamento de Gush Etzyon na Estrada 60, que leva a Hebron.

É comum que nesse cruzamento aconteçam ataques de colonos israelenses contra palestinos e vice-versa. Na véspera de quando fomos colher azeitonas com eles, um ataque matou três israelenses e deixou outros cinco feridos. Por causa disso, a família estava ainda mais apreensiva ao realizar a colheita das suas azeitonas. Mas o dia correu tranquilo, ensolarado, sem qualquer sinal de violência que nos alcançasse. As crianças se divertiam entre si e conosco, os estrangeiros de nomes e cabelos engraçados. Um dia verdadeiramente feliz de trabalho e confraternização entre eles e a equipe do PAEPI que esteve presente.

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Insha’Allah ©PAEPI/Vitor Joanni

Apesar de toda a desesperança que aflige a Palestina e nós que temos o privilégio da vivência entre os palestinos, apesar dos males da ocupação israelense e da falta de indícios de que o futuro pode ser melhor, dias como esse servem para alimentar o ânimo dos que acreditam numa Palestina livre. Albert Camus escreveu que “é preciso imaginar Sísifo feliz”. No difícil caminho para a paz, muitos palestinos, apesar de tudo, mantém a poderosa capacidade de serem felizes.

Vitor Joanni

EA do Grupo 58 em Belém

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