As raízes arrancadas de Wadi Fukin

Eu estava na estrada indo para Al Walaja quando um celular dentro do carro tocou. Era apenas 9h30 da manhã e, do outro lado da linha, uma voz decepcionada relatou um incidente no vilarejo de Wadi Fukin. Soldados das Forças de Defesa Israelenses, juntamente com funcionários da Administração Civil, haviam invadido uma área ao norte da vila, cortando cerca de 17 oliveiras centenárias e destruindo 0,02 km² de terra cultivável. De acordo com as autoridades israelenses, essa região é considerada como reserva natural e deve ser protegida. Mas talvez, para eles, as árvores cultivadas pelas famílias palestinas não se enquadrem sob essa proteção.

O vilarejo de Wadi Fukin está localizado no distrito de Belém, na Cisjordânia. Com aproximadamente 1300 habitantes, esta vila fica num vale com terras férteis, onde diariamente os moradores trabalham em suas plantações. Praticamente todas as famílias que aqui moram são de agricultores, que dependem da venda dos produtos para sua sobrevivência.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Agricultor trabalha em sua propriedade, ao sol do meio dia. – EAPPI/ Carolina B.

Na sua porção norte, está a fronteira entre Israel e Palestina, definida pelo armistício de 1949 (também conhecida como Linha Verde ou Green Line). A comunidade israelense Zur Hadassa está localizada após a fronteira, e o vilarejo costumava ter relações positivas com os moradores dessa cidade. Apesar de haver um trecho de muro de separação planejado para a região, até o momento não há uma barreira física entre terras palestinas e israelenses. Ao sul de Wadi Fukin, está o assentamento ilegal Beitar Illit. O impacto da presença de Beitar Illit vai muito além do que podemos imaginar à primeira vista. Ahmad Sokar, o prefeito, contou-me como a vida naquele vale silencioso mudou desde que a colônia foi construída sobre terras confiscadas do vilarejo. “Wadi Fukin sempre foi famoso pela produção agrícola mas, nos últimos 15 anos, Beitar Illit começou a despejar seu esgoto em canos que levam diretamente a nossas plantações. Isso comprometeu a reputação dos nossos produtos.” Com o solo contaminado pelo esgoto, a subsistência dos moradores ficou comprometida.

Ahmad também falou sobre as frequentes invasões que os colonos de Beitar Illit fazem na vila. “Às vezes, eles vêm apenas para nos intimidar com suas armas. Outras vezes, eles colocam fogo na terra, nadam em nossas piscinas agrícolas (tanques de água que são usados para irrigação), roubam coisas de nossas hortas ou destroem parte da plantação.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Parquinho do vilarejo, que tem uma ordem de demolição pelas autoridades israelenses. EAPPI/ Carolina B.

O único parquinho disponível para as crianças do vilarejo, que foi construído há 5 anos, tem uma ordem de demolição. Adel Hroub, ex-membro do conselho municipal, segura seu filho no colo e afirma que “em Beitar Illit, há cerca de 60 parquinhos, onde as crianças podem brincar. Aqui, temos apenas um, e não sabemos quanto tempo ele ainda vai durar.” Adel me levou para andar pelo vilarejo e ver algumas das obras para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, mas quase todas as obras receberam ordens para serem interrompidas, vindas da Administração Civil israelense. O motivo? A maior parte de Wadi Fukin está em território classificado como área C,na qual Israel detém o controle civil e militar. Os Acordos de Oslo, nos anos 90, dividiram a Cisjordânia em três tipos de área, de acordo com quem tem o controle de cada uma. A área A está sob controle da Autoridade Palestina, enquanto a área B está sob controle civil palestino e militar israelense. Atualmente, mais de 60% do território palestino na Cisjordânia é classificado como área C, o que impede que palestinos e palestinas façam uso de suas próprias terras sem antes conseguir uma permissão de Israel. Conseguir uma permissão para qualquer tipo de obra requer muita paciência, dinheiro – e quase sempre gera frustração, já que apenas 1% dos pedidos de permissão são aceitos. Sem opções, as famílias arriscam construir sem a permissão legal, correndo o risco de ter sua obra demolida a qualquer momento.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Campo de futebol quase finalizado, com uma ordem de demolição emitida recentemente. EAPPI/ Carolina B.

Andando pelos campos de oliveiras em direção ao sul da vila, há um campo de futebol quase finalizado. Adel disse que logo irão colocar a grama e o campo poderá ser utilizado pelos jovens e adultos, e que todos estão empolgados para jogar bola ali antes que o exército venha destruir a quadra. O campo de futebol também recebeu uma ordem de demolição antes mesmo de ser finalizado.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – A comunidade israelense Zur Hadassa se expande e avança a Linha Verde, ameaçando tomar mais terras do vilarejo.  EAPPI/ Carolina B.

Esta é minha segunda visita à Palestina ocupada, mas algumas cenas não deixam de impressionar. Vimos as oliveiras que foram arrancadas pelos tratores na manhã anterior, as raízes expostas ao ar. Ahmad me mostrou o vídeo da destruição das árvores e no rosto dos agricultores o olhar de perda. De certa forma, aquelas árvores eram uma parte da família deles, cuidadas ao longo de gerações, anualmente fornecendo milhares de azeitonas. Ao arrancar as raízes das oliveiras, um recado foi passado: são também as raízes que palestinos e palestinas têm naquela terra que estão sendo rompidas. Ao ver os campos queimados pelos colonos que invadem o vilarejo, eu enxerguei a tentativa de apagar as memórias daquelas famílias.

Enquanto estávamos em seu escritório, Ahmad me mostrou um mapa de planejamento para a região, elaborado pelas autoridades israelenses. Onde antes estavam as oliveiras, seria construída uma zona industrial e uma estrada para ligar Beitar Illit a Zur Hadassa.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Terras agrícolas queimadas pelos colonos durante invasões ao vilarejo. Ao fundo, o assentamento ilegal de Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ahmad não conseguiu esconder sua preocupação com o futuro do vilarejo enquanto me mostrava a expansão de Beitar Illit e de Zur Hadassa. “Não sabemos ainda se a única entrada para a vila será fechada quando a expansão da colônia e da comunidade e a construção da zona industrial forem finalizadas.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Expansão do assentamento ilegal Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ao deixar aquele vale encurralado por ocupantes ilegais, eu me perguntei se na minha próxima visita ainda existirá Wadi Fukin – ou se mais um vilarejo palestino será anexado a Israel e todas as raízes palestinas dali estarão expostas ao ar, como as oliveiras arrancadas.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Na prefeitura do vilarejo, algumas fotos mostram a luta dos moradores para salvar o futuro de Wadi Fukin – EAPPI/ Carolina B.

Mais informações:

https://electronicintifada.net/content/video-without-land-we-are-nothing/14774

http://english.wafa.ps/page.aspx?id=EUdHELa47753255022aEUdHEL

https://www.ochaopt.org/documents/opt_arij_vp_wadifukin.pdf

http://mondoweiss.net/2014/09/village-largest-israeli/

Referências:

www.ochaopt.org/location/area-c

http://data.ochaopt.org/vpp.aspx

Carolina B

EA do Grupo 62, Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).

Vocabulário da ocupação

Já é início de outubro e, para os EAs do grupo 62, já se passou um mês de experiência na Palestina e em Israel. Um dos nossos grandes desafios é tentar entender a narrativa de ambos os lados da ocupação militar israelense na Cisjordânia, que existe desde 1967 e não mostra sinais de abrandamento.

O trabalho em Yanoun, uma pequena vila palestina localizada na região de Nablus, possibilita o contato mais frequente e próximo com as famílias locais e com as comunidades vizinhas. Durante as conversas é possível ir aprendendo algumas palavras que a população local utiliza ao se referir à vida na ocupação. A linguagem se torna uma ferramenta para tentar compreender a realidade e torná-la mais suportável – e, para os estrangeiros e recém-chegados, como nós, ela funciona como uma lente através da qual temos acesso às experiências vivenciadas cotidianamente por aqui.

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Rebanho de ovelhas pertencente às famílias do vilarejo de Yanoun, ao fundo na foto. No topo da colina pode-se ver a torre e o estábulo do assentamento mais próximo. Foto: EAPPI/Jade

“Adhi”, que significa algo como “é normal”, por exemplo. É uma expressão comum que exprime a resignação que as pessoas sentem na maior parte do tempo. G., nosso motorista e principal contato na região, nos diz em tom de brincadeira que costuma ouvir histórias das maiores desgraças seguidas por um “adhi”: “Os soldados invadiram minha casa no meio da noite… adhi!”, “Mataram meu filho bem na minha frente… adhi!”, “Demoliram minha casa com tudo dentro… adhi!”. E por mais comuns que sejam esses relatos, depois de algumas semanas precisamos fazer um esforço para lembrar que não é “adhi”, não é normal – ou, pelo menos, não deveria ser.

Mas a ocupação se manifesta em todos os aspectos da vida, aqui em Yanoun assim como na maior parte do território da Cisjordânia que está sob controle civil e militar de Israel: é proibido construir novas casas sem permissão das autoridades israelenses (que quase nunca as concedem); ao mesmo tempo, as comunidades são cercadas cada vez mais de perto pelos assentamentos israelenses, que expandem suas construções em território palestino sem nenhum tipo de restrição; a cada ano mais terras palestinas são confiscadas pelo exército para serem usadas como áreas de treinamento militar. Isso sem mencionar as dificuldades de locomoção dentro do próprio território, como a obrigação de cruzar check-points pra ir de uma cidade a outra, a impossibilidade de ir a Israel sem uma autorização nominal específica, a proibição de viajar pelo aeroporto de Tel Aviv (mesmo para os palestinos que conseguem permissão para irem a Israel). São muitas as políticas que restringem os direitos básicos da população palestina, e depois de quase cinquenta anos de ocupação militar, seus efeitos já são considerados normais.

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Pracinha/playground em Belém, logo ao lado do muro da separação. Foto: EAPPI/Jade

Todas essas medidas são justificadas pelo poder ocupante como medidas necessárias à segurança do povo israelense. Por aqui, do outro lado do muro, a impressão que se tem é que elas são executadas com o objetivo de dificultar ao máximo a vida dos que decidem permanecer na sua terra. Mas as pessoas permanecem – e para isso também há uma palavra no vocabulário da ocupação: “Sumud”.

“Sumud” não tem uma tradução simples no nosso idioma. Significa uma forma de resistência, mas sem a conotação de agressão ou de revide que às vezes vem implícita na palavra em português. Sumud significa ficar, apesar de tudo. Permanecer na Palestina e levar a vida adiante apesar da ocupação e da violência. A fala de A., que conhecemos no vilarejo de Duma, ilustra bem essa definição.

“Nós passamos para as próximas gerações uma mensagem de esperança, de que um dia seremos livres. Apesar das demolições, das prisões e tudo mais, a geração seguinte está aí e nós continuamos casando e construindo nossas casas. Não devemos ter medo porque não somos ladrões, não roubamos nada de ninguém. Essa terra é nossa, essas casas são nossas.” A., Duma.

Nesse sentido, a escolha de não abandonar a terra, de casar e constituir família na Palestina já é por si só considerada uma forma de resistir pacificamente ao regime de ocupação militar.

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EAs do grupo 62 observam os assentamentos ao redor da vila de Qaryut, na região de Nablus. Foto: EAPPI/Noirin Healy-Magwa

A escolha das palavras para se referir aos lugares também é significativa no contexto das disputas narrativas. Muitas das cidades que conhecemos hoje pelos nomes hebraicos antigamente também eram chamadas pelos nomes árabes: Jerusalém é Al-Quds, Hebron é Al-Khalil, Tel Aviv é Yafa, Shechem é Nablus (essa última talvez uma das poucas que continua sendo mais conhecida pelo nome em árabe). Mesmo na Palestina os nomes em hebraico são comumente utilizados pela população local para dar direções aos estrangeiros. Porém, quando o estrangeiro toma a iniciativa de referir-se a cidade pelo nome em árabe, entende-se que está implícita nessa escolha a simpatia pela narrativa palestina, a lembrança da história árabe desses lugares. No campo simbólico do conflito, cada palavra é uma chance de tomar partido.

Jade

EA do Grupo 62, Yanoun

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).

A terra se estreita no Vale

“A terra nos é estreita. Ela nos encurrala no último desfiladeiro” escreveu o poeta palestino Mahmoud Darwich, em um poema que expressa a constante redução das terras da Palestina disponíveis para seu povo. O Vale do Jordão é uma terra fértil e rica em recursos hídricos, mas sua amplitude se estreita de acordo com a filiação étnica e religiosa ao qual se pertence: ao mesmo tempo que mais espaço é disponibilizado para colonos israelenses nessa região, os palestinos se veem constritos a cantões cada vez menores e com menos recursos disponíveis.

A área do Vale do Jordão cobre a quase um terço de toda Cisjordânia, se estendendo por toda a parte leste desse território. Por conta disso, o Vale do Jordão também corresponde a única saída disponível para os palestinos da Cisjordânia: o acesso ao resto do mundo via Jordânia. Parte da justificativa israelense para o controle quase absoluto do Vale do Jordão se define pelo valor estratégico de controlar a “fronteira leste” para a segurança do “Estado Judeu”. Entretanto, Israel tem um acordo de paz há mais de 20 anos com o estado com quem divide as águas do Rio Jordão, isto é, o Reino Hashemita da Jordânia. A tão recorrente lógica da “segurança” não esclarece por si só as políticas israelenses em relação ao Vale do Jordão, em especial em relação aos subsídios aos assentamentos econômicos nessa região.

Igualmente significativo para os palestinos é o valor do Vale do Jordão para recursos hídricos e para agricultura. Desde 1967, a ocupação israelense reduziu abruptamente o usufruto desses recursos naturais para os palestinos. A dupla política de controle e desvios dos recursos hídricos para assentamentos em conjunto com o confisco crescente de terras privadas e públicas outrora disponíveis para uso agrícola de palestinos. Outra face dessa política é o deslocamento forçado de populações, através de ordens de expulsões por razões militares, demolição de propriedade e treino militar, entre tantas táticas. Em conjunto com a fuga de dezenas de milhares de palestinos durante a Guerra de 1967 (sobretudo refugiados de 1948 de dois campos oficiais e outros dois não oficiais), essa estratégia resultou na redução da população do Vale do Jordão de 300 mil para 65 mil. Mais de uma dezena de comunidades desapareceram do Vale, desde então. Outras foram reduzidas a uma fração de sua população pré-1967. As terras disponíveis para uso e desenvolvimento palestino é ainda mais fracionada: pouco mais 5% do Vale do Jordão é acessível para os palestinos, outros 94% são áreas de fronteira, assentamentos, fazendas de assentamentos, zonas de prática de tiro e reservas naturais israelenses ou palestinas.

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Vale do Jordão – Árvores de colonos em terras palestinas no Norte de Jericó. EAPPI/G Soares

Na vila de Al-‘Auja, ao Norte de Jericó, a terra disponível para crescimento natural e agricultura se estreitou consideravelmente. A terra cultivada foi reduzida a um décimo do que era antes da ocupação israelense: 40 mil dunums para menos de 4 mil dunums (1 dunum = 1 m²). O exército de Israel confiscou a maior parte das terras de Al-‘Auja originalmente alegando razões de “segurança” (32,000 dunums foram tomados para “zona tampão” com a Jordânia). Todavia, uma parte significativa dessas terras tomadas por motivos securitários foram transferidas para colonos israelenses explorarem economicamente, formando lucrativos assentamentos. Como uma trágica ironia dessa história que se repete em tantos outros lugares do Vale do Jordão, palestinos de Al-‘Auja acabam por trabalhar nas fazendas dos assentamentos, frequentemente em terrenos que eles mesmos outrora possuíam, ou em alguns casos, para os quais a família mantém documentos de posse ou até propriedade.

Ao menos parte da vila de al-‘Auja se encontra em uma situação de mais garantias a maior parte dos vilarejos e comunidades rurais do Vale do Jordão: a parte central de al-‘Auja encontra-se em área A, sob controle total da Autoridade Palestina. Isso possibilita o desenvolvimento de vários tipos de infraestrutura sem prévia aprovação de autoridades israelenses. No restante do território, inclusive boa parte das terras agrícolas de al-‘Auja, vigora a lei militar israelense em todos os assuntos civis. As áreas sob total controle da lei marcial israelense são partes da Área C, o que corresponde 61% do território da Cisjordânia. No Vale do Jordão, a Área C corresponde por 87% de toda essa região. Questões como água e segurança para o Estado de Israel são praticamente independentes dessas decisões criadas nos Acordos de Oslo a partir de 1993, porém são mais drásticas as implicações para a população vivendo diretamente sob um regime de leis militares que limitam qualquer desenvolvimento, ou até mesmo a existência.

As áreas de al-‘Auja fora da Área C continuam submetidas ao regime de confisco de terra e a diversas estratégias de expropriação. No início do ano, um colono chamado Omer espalhou fertilizantes industriais sob um lote não cultivado para alegar posse. Esse lote pertence a três famílias distintas, mas a escassez de água para eles impossibilita o cultivo de qualquer planta. Nessa terra agora árida e seca, há, todavia, o mesmo potencial agrícola de todas as outras. Nas proximidades desse terreno, colonos plantam tâmaras e pimentas. Devido a localidade desse lote, a tomada por colonos irá afetar todos os habitantes ao redor, restringindo ainda mais a área de pastos para ovelhas para então criar “zonas de segurança” ao redor da parte expandida do assentamento.

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Vale do Jordão – O prefeito de Al Auja mostra a plantação palestina com fertilizantes de colonos. EAPPI/ G Soares

“Existir é resistir” diz um lema palestino no Vale do Jordão. Por vezes os habitantes dessa região são chamados de sabra por palestinos de outras partes: referência a uma espécie de cacto e que simboliza a perseverança diante as intemperes naturais dali e também diante os ditames da ocupação. Tanto as grandes vilas agrícolas (como Jiftlik), quanto as pequenas comunidades beduínas (como ‘Ein Al Hilwa) são submetidas a medidas dracônicas que tornam a vida quase impossível. Ordens de evacuação, ordens de demolição, confisco de propriedade, drenagem dos recursos hídricos, restrições ao movimento, treinamentos militares, agressões diretas por soldados e colonos, tudo isso se acumula e se repete constantemente com o passar dos anos, desgastando o vigor físico e mental dos indivíduos e corroendo os alicerces socioeconômicos que tornam essas comunidades viáveis. A “mera” existência perante essas intermináveis agruras acaba por se fazer um ato heroico de resistência, por vezes a única possível.

Em uma das vilas do Norte do Vale do Jordão mais afetadas por essas políticas de expropriação e expulsão forçadas, al Hadidya, poucos indivíduos restam. Desde da década de 1990, essa vila foi demolida seis vezes. Isso não impediu que os habitantes da vila começassem a reerguer as estruturas demolidas assim que a poeira da demolição baixasse. Todavia, como em outros casos pelo Vale do Jordão, as autoridades israelenses têm buscados “meios legais” de expulsar para sempre os palestinos de al Hadidya de suas terras. Tanto as demolições de propriedade quanto expulsões forçadas de população são medidas que contravêm as leis internacionais humanitárias de acordo com a Quarta Convenção de Genebra, que prevê que uma força ocupante deve zelar pelos interesses da população ocupada. Diante da inação da Comunidade Internacional, Israel continua aplicar seus próprios critérios para atingir seus objetivos em relação ao Território Palestino ocupado que envolve o controle do máximo de território com o mínimo de população palestina presente.

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Al Hadidya seca e os assentamentos de Roi green. EAPPI/G Soares

Abu Sakr, o líder comunitário de al Hadidya, tenta há algum tempo conseguir uma aprovação da Suprema Corte de Israel para um plano central para a vila, que a permitiria desenvolver e obter infraestrutura legalmente segundo o ordenamento militar israelense que rege a vida dos palestinos na Cisjordânia. Abu Sakr não demonstra nenhuma crença no sistema judiciário israelense, busca apenas: “Você acha que eu vou obter justiça da corte israelense? A intenção deles é nos expulsar, então o que se faz é apenas adiar, como uma ovelha adiando o seu abate”.

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Jordan Valley – Al Hadidya – Abu Sakar. EAPPI/G Soares

A metáfora da ovelha esperando o abate pode parecer passiva demais considerando a enorme perseverança dos palestinos diante da ocupação israelense que perdura há décadas. Entretanto, faz algum sentindo ao ver ao passar dos anos um Vale que deixa de ser palestino, cujos poços de água se tornam escassos, as terras agrícolas se reduzem e vilas inteiras desaparecem. A passividade não está tanto naqueles que são afetados diretamente por esse processo e não possuem por si só os recursos para se contrapor a sina que Israel tenta lhes destinar, mas sim daqueles que assistem mudos a esse processo. Não caberá somente a potência ocupante a responsabilidade pelo apagamento da presença e da cultura palestina no Vale do Jordão. E por isso deverão ser responsabilizados. Muitos palestinos acreditam que a história eventualmente os redimirão, como expressou: “Aqui morreremos / No último desfiladeiro / Aqui ou aqui… plantará oliveiras / Nosso sangue”.

 

Gabriel Soares

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EA do Grupo 60 em Vale do Jordão

 

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

 

 

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Acompanhando as crianças de Belém

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Acompanhantes caminham com as crianças da escola para suas casas, na Vila de Tuqua, Belém. EAPPI/Ruan

Pela segunda vez, venho para a Palestina participar do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e em Israel (EAPPI) do Conselho Mundial das Igrejas. Desta feita estou localizada na cidade onde nasceu Jesus, em Belém. É uma grande satisfação fazer parte desse programa, especialmente porque é um programa de acompanhamento – termo muito caro para mim. Gustavo Gutiérrez, um dos pais da Teologia da Libertação, foi quem popularizou o termo e a noção de acompanhamento. Para o teólogo, o termo significa estar presente e apoiar alguém na sua jornada, caminhar lado a lado e partilhar o pão com os pobres e oprimidos assim como o mestre Jesus. Segundo Gutiérrez o verdadeiro serviço a humanidade envolve a compreensão de como a pobreza global é uma situação estrutural e sistêmica, e seu entendimento deve estar ligado aos esforços para acabar com ela.

A finalidade do acompanhamento para o teólogo peruano é unir a justiça social com a espiritualidade; “a espiritualidade que recusa-se a ser uma espécie de oásis, ou, menos ainda, uma fuga ou um refúgio em tempos difíceis”, mas que envolve uma jornada de solidariedade e de autorreconhecimento de nossa própria cumplicidade na perpetuação da violência estrutural. Com a ciência e com o avanço da tecnologia, o nosso pecado estrutural se aprofunda e o chamado não é para medidas de socorro, mas uma demanda para construirmos uma ordem social diferente. Gutiérrez fala da necessidade da transição da caridade para modelos de justiça social, do auxílio financeiro para o acompanhamento.¹

“Vinde e vede” conclamou Gustavo Gutiérrez aos cristãos do mundo para acompanhar os palestinos nas suas vidas sob à ocupação militar israelense.² Este chamado também fora realizado pelo Arcebispo de Jerusalém no ano de 2002 ao Conselho Mundial das Igrejas e, a partir de então foi estabelecido o Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e em Israel.

O EAPPI conta com o respaldo da população palestina, da Comunidade Internacional e de setores da esquerda israelense. O programa conta com observadores em toda Cisjordânia que acompanham os palestinos em suas vidas diárias, provendo presença protetiva com o objetivo de atenuar a violência e monitorar as violações dos direitos humanos. A nossa visibilidade, a dos acompanhantes, em locais de conflito, atua de modo a desescalar e prevenir a violação dos direitos humanos. Os abusos que presenciamos são documentados e tornados públicos para ONGs Internacionais e agências da ONU.

Parte fundamental do acompanhamento em Belém consiste em caminhar com as crianças de suas casas para a escola no período da manhã, e na parte da tarde quando voltam da escola para suas casas. Cerca de 85% da área da província de Belém está localizada na Área C, o que significa que está sob total controle do exército israelense. Como resultado dos Acordos de Oslo de 1993, a Cisjordânia foi dividida em três áreas: A, B e C. A área A é controlada pela Autoridade Palestina, na área B o controle é compartilhado entre Israel e Palestina, e a Área C está completamente sob controle militar israelense. Mais de 60% de toda a Cisjordânia está sob controle administrativo e militar de Israel.³

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Crianças atravessam o checkpoint (posto de controle) após a habitual checagem de suas identidades e mochilas escolares. Vila de An Numan, Belém. EAPPI/ I Neiva

Mas por que acompanhamos as crianças no seu caminho para escola e de volta pra casa? Mais de 60% da Cisjordânia, haja vista que está sob o controle militar da potência ocupante, tem uma presença militar constante em diferentes áreas, inclusive em frente de várias escolas. Os ataques às crianças ocorrem com frequência: bombas de gás lacrimogênio, bombas de som, balas de borracha e mesmo munição real são atiradas contra as crianças. Muitas vezes elas podem “provocar” – palavra que os soldados usam – e atirar uma pedra contra um jipe militar ao que se segue a retaliação com bombas de todos os tipos. A maior parte das vezes, todavia, não há qualquer “provocação” e os soldados atiram contra as crianças mesmo assim.

Há algumas semanas estávamos na escola na vila de Al Khader (uma das vilas que monitoramos na província de Belém) e havia um veículo militar de onde os soldados começaram a atirar gás contra as crianças (era um grupo de crianças entre 6 e 10 anos de idade). Não havia nenhuma razão ou ‘provocação’, as crianças caminhavam em grupo escoltadas por professores e nós observávamos a caminhada deles de volta pra casa. Meu colega foi tentar falar com o soldado que atirava e que estava há cerca de dois metros de distância de nós, e este respondeu com um tiro há poucos centímetros de nossos pés e, em seguida, mais tiros de gás lacrimogêneo no playground da escola.

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Acompanhante Ecumênico e professor olham as bombas de gás lacrimogênio no playground da escola, na Vila de Al Khader, Belém. EAPPI/TA Prois

Na semana seguinte vimos o diretor da escola saindo as pressas da escola para o hospital por ter inalado muito gás e ouvimos nas notícias que um rapaz tinha sido baleado perto da escola. No dia seguinte fomos até o hospital saber o estado do jovem e o que tinha acontecido. Um jovem de 17 anos havia sido baleado nas costas perto da escola, a bala perfurou seu corpo perto do coração mas ele sobreviveu pois conseguiu ser levado as pressas ao hospital. Em seguida os militares israelenses tentaram invadir o hospital para levar o menino, só que havia muitos carros na porta de hospital e todos os aldeões se reuniram na frente do hospital para impedir que os israelenses entrassem. Os soldados começaram a atirar contra a multidão e acertaram um médico, também no coração. Os dois passavam bem. O diretor do hospital nos explicou que eles têm bastante experiência no tratamento de ferimentos de bala e nos mostrou o vídeo dos militares israelenses tentando invadir o hospital. Aqui na Palestina, os smartphones da maioria das pessoas têm vídeos da violência. Os professores das escolas já nos mostraram diversos vídeos de bombas na escola e de crianças correndo em pânico em meio a nuvens de gás.

Em Al Khader, as escolas que datam de 1932 têm vista para uma estrada que agora é usada por israelenses para acessar assentamentos ilegais na Palestina ocupada. O Exército de Israel diz que sua presença é necessária para impedir que as crianças atirem pedras contra os carros nas estradas e contra os jipes militares. Os ataques contra escolas contribuem para o clima de impunidade e injustiça na Palestina. De acordo com o Conselho de Segurança das Nações Unidas, ataques a escolas são tidos como uma grave violação dos direitos da criança, em reconhecimento de que eles são ilegais nos termos do artigo 50° da Quarta Convenção de Genebra, e que eles afetam o direito da criança à educação, consagrado no artigo 26° da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e no artigo 28° da Convenção sobre os Direitos da Criança. 4

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Crianças pousam para foto, e atrás, ver-se soldados israelenses em frente a escola de Tuqua. EAPPI/K Fox

Na última segunda-feira, dia 21 de março, os colonos dos assentamentos ilegais cerca da vila de Al Khader (os assentamentos de Efrat e Neve Danyyel) tinham uma maratona marcada e foram escoltados pelos soldados israelenses pelo território palestino. Quando os colonos passavam perto da vila de Al Khader os soldados atiraram balas de gás e de borracha contra as crianças e detiveram três menores por 4 horas. Os professores nos contaram que a detenção das crianças foi uma retaliação haja vista que os professores tentaram argumentar para que eles parassem de atirar contra a escola. No final de fevereiro, um total de 440 crianças palestinas estavam presas no sistema de detenção militar israelense. Este é o maior número de crianças presas desde que os dados tornaram-se disponíveis em janeiro de 2008. Segundo o relatório do Defence For Children International, o único país no mundo que processa crianças sistematicamente em tribunais militares é Israel, com uma média de 500 e 700 crianças processadas por ano.5

No campo de refugiados Aida, que fica na cidade de Belém, há cinco minutos da minha casa, o cheiro de gás já é algo familiar. As crianças voltam da escola cerca de meio dia e meia e vão brincar na rua mais ampla do campo, ou no único espaço para crianças no campo de refugiados – um campinho de futebol no qual foi preciso instalar uma rede, de modo que as bombas atiradas pelos soldados da torre de controle militar do muro de separação, que fica a alguns metros do campo, não atingissem as crianças. As crianças jogam pedras contra o muro e contra os jipes militares e os soldados respondem com bombas de som e com gás lacrimogêneo. Esse é o rito diário aqui. De fato, para mim, Belém tem cheiro de gás lacrimogênio.

O EAPPI e outras organizações internacionais têm pedido às autoridades israelenses para cumprir sua responsabilidade segundo o Direito Internacional, permitir o acesso seguro à educação para as crianças em Al Khader e em toda a Palestina ocupada, parar com os ataques às escolas e com a prisão e detenção arbitrária de crianças. Toda criança merece acesso à escola e a sentir-se seguro nela.

[1] http://projects.iq.harvard.edu/srcp/blog/walking-together-paul-farmer-gustavo-guti%C3%A9rrez-and-limits-modern-juxtaposition-religion#_edn15

[2] De banden van Paus Franciscus met de bevrijdingstheologie (8 mei 2014). http://www.kairospalestina.nl/nl/pausbezoek-palestina-2014.aspx

[3] http://www.unrwa.org/sites/default/files/west_bank_demolitions_factsheet.pdf

[4] http://www.gddc.pt/direitos-humanos/textos-internacionais-dh/tidhuniversais/dih-conv-IV-12-08-1949.html

[5] http://www.nowaytotreatachild.org

Clique aqui https://www.eappi.org/en/advocacy/focus-on-education para ver a gama de ações que você pode tomar para apoiar as crianças, incluindo uma carta que você pode enviar para o seu representante.

 

Indra Neiva                                         Indra

 

EA do Grupo 60 em Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

Infância, amizade e humanidade

“Não vamos desistir”, disse Jamal, um vendedor e dono de uma loja na cidade velha. Ele é muito orgulhoso de sua história, da sua família, especialmente de seu pai. A loja que agora é dele, situada no ‘souk’ era dele. O ‘velho souk’ não é apenas um ‘mercado árabe’ mas tem sua própria história assim como toda a cidade de Al-Khalil. Al-Khalil ou Hebron é a cidade de Abraão ou Ibraim, que é considerado o amigo de Deus. Em Hebraico a cidade é Hebron, e em Árabe é Khalil, nas duas línguas significa “amigo”.

Tudo nessa cidade tem um significado, uma história e uma memória. Essa cidade é uma das mais importantes cidades da Palestina, al-khalil se tornou uma das quatro cidades santas do Islã. Mas porque um palestino que vive na cidade conhecida como “amigo” estaria pensando em desistir?

O nome da cidade significa ‘amigo’, mas parece que existe muita ‘inimizade’ dentro dela. Todo mundo quer ser amigo do ‘grande amigo’ mas sem ser amigos e amigas um dos outros. A ocupação não é sobre amizade, nem tão pouco sobre humanidade, ela é sobre algo que não faz parte dessas coisas. Amizade só existe na humanidade, pois quando se fala de amigas e amigos, estamos falando de humanos. “Eu não vejo preto e branco, eu não acredito que alguém seja limpo e que alguém seja sujo. Eu acredito que somos todos o mesmo: cristãos, judeus, muçulmanos, meninos, meninas, homem, mulher…”. Isso foi o que Idris, um palestino revendedor, nos disse. Ele está sempre do lado de fora do CheckPoint 56 – na entrada da Shuhada Street – tomando café, conversando com as pessoas. Talvez se ele tivesse oportunidade, ele também conversaria e tomaria café com os israelenses, mas infelizmente existe uma barreira entre eles. Não estamos falando de barreiras físicas, elas são simples de se derrubar e destruir. As maiores barreiras são as mentais, os muros que construímos em nossos pensamentos, esses sim, são duros e difíceis de quebrar.

03.02.2016 Hebron H2, Bab Al Baladia, Boy detained for 4 soldiers. Photo EAPPI - M. Haglund

EAPPI/Manoel Botelho

 

Tel Rumeida é um bairro famoso em Hebron. Em Tel Rumeira existe uma casa onde há 15 anos mora uma família e, cerca de um mês atrás, eles tiveram sua casa ocupada mais um vez. Os soldados chegaram, colocaram a família em um mesmo cômodo, onde não eram permitidos ir a cozinha, e nem mesmo ao banheiro, enquanto o exército utilizava o restante da casa. Durante nove anos, soldados utilizavam a laje da casa como posto militar. Depois desses nove anos, os soldados finalmente saíram do telhado, mas deixaram uma câmera observando a família. De qualquer maneira, ainda é uma forma de ocupação. Sobre o que é isso? Humanidade? Amizade?

31.1.2016 Tel Rumeida, Hebron. House mentioned with camera on the roof, EAPPI - S. Tucci

EAPPI/ Manoel Botelho

Khaldon tem 14 anos e mora dentro do Souk. No último mês de outubro, ele foi comprar iogurte para seus irmãos, teve um conflito no momento em que ele estava na rua, ele tentou correr, mas mesmo assim levou um tiro na perna com uma munição ‘dumdum’. Ele ainda está em tratamento com pinos de aço e platina no perna, mas isso não o impediu de continuar sonhando em ser engenheiro e torcer pro seu time de futebol, Barcelona.

31.1.2016 Hebron H2 Khaldon`s leg with iron metal sticks to treat. EAPPI - F. Barreto

EAPPI/ Manoel Botelho

Ameer tem 15 anos, foi liberto da cadeia no final de janeiro. Durante os quatro meses que esteve encarcerado, teve suas duas pernas quebradas, seu dente e sua mandíbula. Ele não pode comer por causa de sua mandíbula, então tudo que ele pode é tomar leite, essa tem sido sua refeição.

31.1.2016 Old City Hebron, Khaldon`s leg in treatement. EAPPI- F. Barreto

EAPPI/ Manoel Botelho

A cidade que era a ‘cidade do amigo’ agora é a cidade da resistência. Resistir é existir.

Crianças sabem mais sobre amizade que adultos, por extensão, sabem mais sobre humanidade. Normalmente eles podem brincar com qualquer pessoa que esteja interessada, eles/elas vão tentar conversar com você mesmo sem falar sua língua. Crianças não pensam sobre as diferenças, elas só querem brincar juntas. Mas algumas vezes, crianças são forçadas a crescer antes da hora. Khaldon e Ameer são claros exemplos de crianças que tiverem suas infâncias roubadas e colocadas em outro lugar dentro da dura realidade de Hebron.

30.1.2016 WadAlHussein Hebron, EA and kids reading the dictionarey. EAPPI-F. Barreto - Cópia

EAPPI/ Manoel Botelho

Em  1992, Israel ratificou a Convenção sobre os Direitos da Criança, que diz:

“O melhor interesse da criança deve ser a principal preocupação na tomada de decisões que possam afetá-los. Todos os adultos devem fazer o que é melhor para as crianças. Quando os adultos tomam decisões, eles devem pensar sobre como suas decisões afetarão as crianças. Isso se aplica especialmente para o orçamento, a política e os legisladores.”1 (Tradução livre)

Nós temos muitas palavras e “leis” para proteger as crianças, mas o que são palavras e leis se histórias como a de Ameer e Khaldon não são exceções, mas a regra?

“toda criança privada da liberdade seja tratada com a humanidade e o respeito que merece a dignidade inerente à pessoa humana, e levando-se em consideração as necessidades de uma pessoa de sua idade.”2

8.1.2016.Hebron.EAs playing volleyball with children in Wadi al Hussein valley.EAPPI_E.Röst - Cópia

EAPPI/ Manoel Botelho

As crianças fazem mais que falam, elas podem falar muito, mas também fazem muito. Elas podem te convidar pra brincar sem dizer qualquer coisa que você possa entender; elas podem te chamar de amigo sem perguntar seu nome, religião, nacionalidade, gênero… etc. Enfim, elas entendem mais sobre a humanidade do que nós.

 1 http://www.unicef.org/crc/files/Rights_overview.pdf

2 Artigo 37 (c) da Convenção sobre os Direitos das Crianças

 

Manoel BotelhoIMG-20151224-WA0003

EA do Grupo 59 em Hebron

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

Narrativas únicas sobre a Palestina

Como narra a escritora Nigeriana Chimamanda Adichie, é muito comum que tenhamos histórias únicas sobre pessoas de outras culturas e sobre as situações que estas pessoas vivem. A escritora define o conceito de história única da melhor forma: “Show people as one thing over and over again, and that’s what they become” (Mostre as pessoas como uma única coisa repetidas vezes e elas se tornarão isso. Tradução livre). Essas histórias únicas limitam nossa compreensão crítica sobre a complexidade da experiência humana. Podem, inclusive, ser perigosas, na medida em que as utilizamos para justificar sentimentos como indiferença ou violência contra outras pessoas. A narrativa única que mais encontro sobre palestinos é a que mais é utilizada por muitas pessoas para que possam se manter indiferentes ao que acontece sob ocupação militar na Palestina: palestinos seriam muçulmanos fundamentalistas que não aceitam a presença de judeus e cristãos em suas terras e, em virtude de sua religião e intolerância, cometem ataques terroristas contra civis em Israel. Sob este pretexto, aceitam-se todas as violações de direitos humanos que acontecem nesse pequeno pedaço de terra do Oriente Médio. Esse discurso sobre a identidade dos palestinos é o que mais tenta-se combater dentro da Palestina. Desde que cheguei aqui, com muito humor e paciência, homens e mulheres palestinos se esforçam para desafiar esse conceito orientalista, como define Edward Said, trazido de fora e sustentado pela mídia tradicional.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Como Acompanhantes Ecumênicos na Palestina e Israel tivemos a oportunidade de encontrar diversas faces da complexa história de opressão e resistência que aqui se desenrola. A ocupação afeta as pessoas de formas diferentes e desiguais, provocando igualmente variadas reações aos traumas aqui sofridos. Encontrei palestinos que acreditam que “existir é resistir”, ou seja, que se manter aqui e tentar viver normalmente apesar da ocupação é uma forma de resistência a ela. Afinal, em suas opiniões sustentadas por todas as violações sistemáticas que sofrem, o objetivo final da ocupação seria expulsá-los de suas terras. Essas pessoas, através de organizações ou não, encontram formas de facilitar ao máximo a vida dos palestinos que acreditam nesta forma de resistência. Nunca deixarão suas terras, resistem. São guerreiros pacíficos e acreditam nesta forma de luta.

Encontramos também palestinos ativistas que atuam das mais variadas formas. Fazem protestos pacíficos nas ruas, auxiliam outros palestinos a trabalharem em suas terras mesmo contra a vontade dos colonos judeus e do governo israelense. Atiram pedras todas as sextas-feiras contra o muro de separação, bloqueiam estradas e fazem o máximo para dificultar a vida dos colonos ilegais quem vem roubar suas terras.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Encontramos pessoas que acham que a ocupação hoje em dia nem é um mal tão grande assim, que se pode viver normalmente com ela. Pessoas que, ao ouvirem histórias de estrangeiros sobre as dificuldades em outros países ou ao observarem a difícil situação que outros países árabes vivem, passam a acreditar que a ocupação os protege. Encontramos pessoas que têm orgulho de ter esta luta como objetivo de vida, pois estava previsto em algum lugar em suas escrituras sagradas. Encontramos também pessoas tão desesperadas e afetadas pela violência da ocupação que acabam reagindo também com violência.

E vidas se perdem. Contudo, poucas pessoas se perguntam por que a violência se perpetua. A história única que possuem já lhes dá a resposta pronta: são terroristas, são fundamentalistas, são violentos.

Outra história única que comumente ouço diz respeito à mulher palestina. É comum que feministas brasileiras digam que a luta das mulheres árabes contra o patriarcado é muito mais difícil que a nossa, em nossa sociedade ocidental tão mais desenvolvida – alto nível de ironia aqui. É muito comum que se associe o hijab à submissão, à fraqueza, quando comparada à liberdade da mulher brasileira em poder vestir-se da forma que quiser. Nenhum destes discursos aborda a complexidade de ser uma mulher vivendo em uma zona de conflito, vivendo sob ocupação militar. O discurso não atinge a dupla resistência diária dessas mulheres: contra a opressão de sua própria sociedade e a opressão que vem de fora.

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Belém EAPPI/Maira Peres

A noção de que as mulheres seriam as reprodutoras da nação, enquanto os homens seriam os protetores, acarreta a ideia de que as mulheres estão subordinadas ao heroísmo masculino. Na Palestina, existe a lenda de que a mulher também pode se tornar uma heroína ao dar o exemplo de coragem nas formas de reagir em momentos de caos ou de grande estresse, quando pessoas mais fracas sentem-se derrotadas e sem esperança. O papel da mulher na sociedade palestina sob ocupação está principalmente associado à manutenção da família, à criação de crianças fortes, à integração da comunidade. Mas na prática está relacionado à convivência diária com a violência proveniente da presença dos colonos judeus e dos militares israelenses nas mínimas ações do dia a dia, mas também na política interna e na economia. Sua existência e luta têm como base a afirmação da identidade palestina e de suas religiões, de suas práticas culturais, ao mesmo tempo em que se resiste a opressões internas  inerentes ao patriarcado.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Além disso, as mulheres palestinas sempre foram importantes no movimento de liberação da Palestina, como mostram histórias famosas como a de Leila Khaled. Somente em 2015, 291 mulheres de diferentes idades foram presas ou detidas por manifestações políticas, violentas ou não, contra a ocupação militar israelense (The Palestinian Center for Prisioner Studies – PCPS). Mulheres organizam protestos contra a ocupação, contra o próprio governo, lutam por seus direitos, criam organizações para dar suporte umas as outras, resistem.

Eu tinha uma história única sobre o que eu viria a viver aqui durante estes três meses do programa. Pensava que encontraria pessoas tristes e cansadas de uma ocupação que dura mais de 60 anos, fazendo com que já a terceira geração tenha nascido e crescido sob ela. Pensava que a única coisa que essas pessoas poderiam me ensinar era como existem sofrimentos maiores do que os meus próprios e o quão fúteis meus próprios problemas poderiam ser comparado aos deles. O que aprendi, na verdade, é que existe vida e amor sob ocupação. Existe luta e esperança, principalmente. Encontrei pessoas que cantam, apesar de ter que enfrentar as filas do checkpoint (postos de controle) todos os dias de manhã. Aprendi que não é preciso ser triste para lutar.

 Fonte: http://english.palinfo.com/site/pages/details.aspx?itemid=75941

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Maira Peres

EA do Grupo 59 em Belém

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Nabi Samwil

A comunidade de Nabi Samwil é uma pequena vila palestina que cresceu ao redor da tumba do Profeta Samuel. A tumba, uma mesquita e a vila dividiam o espaço do alto da montanha, nas cercanias de Jerusalém. Antes de 1967, cerca de 1.500 pessoas viviam na vila; até 2008, eram aproximadamente 3.000 moradores.

Com a criação do Estado de Israel, a região passou a ser cobiçada pelos judeus, para quem a figura do Profeta Samuel também é importante. Não demorou muito até que o exército israelense demolisse todas as casas ao redor da mesquita, que agora também é uma sinagoga.

A alegação do exército, segundo contam os moradores, foi de que as casas eram muito velhas e ofereciam riscos. No entanto, após a demolição, Israel não concedeu autorizações para que os palestinos pudessem construir, reformar, plantar ou criar animais na região. Ao contrário, deixou a área isolada, construiu um parque arqueológico, explorou turisticamente, usou parte do espaço da mesquita como sinagoga (inclusive a tumba do Profeta Samuel) e construiu um assentamento para israelenses no local.

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Nabi Samwil ©PAEPI/Mayara de Carvalho

Com a destruição da vila, parte considerável dos moradores migraram, a maioria deles para a Jordânia. Outra parte negou-se a abandonar o lar e construiu uma nova vila, sem permissão, no topo da mesma montanha, há poucos metros do local original, ao lado de onde hoje há o assentamento israelense.

A vida dos moradores é extremamente difícil. Eles vivem numa região de lama, em casas precárias, a maioria feita de estruturas metálicas, sem possibilidade de reforma-las e sem autorização para plantar, criar animais ou comercializar.

Além disso, com a construção dos muros em Jerusalém, a vila ficou sitiada. Os moradores não têm permissão de andar nas ruas do lado direito da montanha, que possuem livre e rápido acesso para o centro Jerusalém. Se são vistos andando do lado direito, os palestinos podem ser presos administrativamente, sem necessidade de processo judicial ou investigação criminal.

Ao andar do lado esquerdo da montanha, os moradores necessitam passar por checkpoints e não tem permissão para ir a Jerusalém. As pessoas da vila são numeradas e seu controle de identidade por Israel é feito através desses números. Caso queiram comprar algum bem ou comida, necessitam pedir autorização específica a Israel, informando a qualidade e quantidade do produto e provando que se trata de consumo pessoal. Essa permissão deve ser requisitada previamente e costuma demorar horas para se obter resposta.

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Nabi Samwil ©PAEPI/Mayara de Carvalho

A comunidade contou com doações de contêineres pela embaixada italiana e, neles, construiu uma escola para as crianças. Embora a escola tenha três diferentes séries, até 2014 todas as aulas dividiam o espaço de um só contêiner e aconteciam ao mesmo tempo. Com as novas doações, houve ampliação da escola e, hoje, as crianças tem salas diferentes.

A comunidade enfrenta alguns problemas de violência e intolerância por parte dos colonos israelenses que vivem na região, que algumas vezes chegam a atrapalhar as aulas ou invadir o espaço da escola. Atualmente, os contêineres da escola estão arrodeados por cercas com a finalidade de proteger as crianças.

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ProcessNabi Samwil ©PAEPI/Mayara de Carvalho

Apesar disso, nem todos os israelenses são hostis a essas famílias palestinas. Os moradores de Nabi Samwil costumam ter boa relação com os judeus ortodoxos que vivem em Jerusalém e que frequentam a vila para orar no espaço sagrado.

Com a guetificação e o apoio oferecido pelo Judiciário israelense à ocupação e destruição da vila, apenas 30 famílias resistem vivendo na região. Ainda assim, não sobrevivem apenas. Um bom exemplo disso foi a criação, pelas mulheres da comunidade, da Associação Feminista do Profeta Samuel, que oferece cursos, palestras, formações e espaços de convivência para as mulheres da vila.

Elas aprendem novas habilidades e criam oportunidades de arrecadar dinheiro para a vila. Dentre as iniciativas, as mulheres de Nabi Samwil fizeram formação em culinária e, desde então, oferecem jantares tipicamente palestinos para grupos de internacionais. Com isso, adquirem autonomia, valorizam a cultura e o desenvolvimento local e tentam contribuir para melhores perspectivas para o futuro da vila.

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EAPPI Team ©PAEPI/Mayara de Carvalho

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Mayara de Carvalho

EA do Grupo 59 em Jerusalém

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