VOZES QUE SE CRUZAM: uma poética da resistência nos territórios ocupados da Palestina

Quando se ouve a voz de Jibrin Al Baram, sabe-se instantaneamente que algo especial está sendo dito. Pastor de ovelhas de 52 anos, Jibrin vive na comunidade de Qawawis, incrustada em um dos morros de South Hebron Hills, região ao sul de Hebron, Palestina. Localizada na Área C[1] dos Territórios Ocupados Palestinos, portanto, sob o controle militar e administrativo de Israel, Qawawis é um dos motivos da presença do time de acompanhantes ecumênicos do EAPPI naquela região. A comunidade está circundada por colonatos judeus e são inúmeros os relatos de violência contra os palestinos. Este é, sem dúvida, o motivo da maioria das ligações recebidas pelo grupo 63, instalado na cidade de Yatta, província de Hebron. Mas existem outros: demolições, prisões, bloqueio de estradas pelo exército… Para Jibrin, entretanto, o perigo é maior. Sua tenda está isolada em um morro vizinho ao dos demais moradores, instalada em um declive há poucos metros da estrada que conduz ao colonato de Mitzpe Yair. Talvez por isso, sua fala esteja na fronteira entre o medo e a coragem.

“Aquele que luta pela humanidade vencerá sempre.” Assim ele nos recebe em sua tenda para um chá, e assim inicia sua fala. “Nunca vi um crime como esse, que nos tira dinheiro, tempo, ovelhas, que nos tira tudo.” Jibrin se refere aos ataques dos colonos. Devido à sua localização, ele sofre constantes ameaças enquanto pastoreia nas terras próximas ao colonato. Além disso, coleciona histórias de outros pastores e agricultores locais. Conta-nos de como Nael Khaled Abu Aram, outro pastor local, fora atacado e jogado ao chão, espancado a pau por dois colonos judeus enquanto pastorava suas ovelhas. Nael ficou gravemente ferido no braço, ombro e perna, e precisou passar sete meses em recuperação. Fez uma queixa e chegou a reconhecer um dos agressores dentre fotos de colonos mostradas pela polícia israelense, mas o processo não andou. Como a autoridade nesta área pertence a Israel, tudo flui em prejuízo dos palestinos.

Jibrin nasceu em uma caverna próxima à tenda onde mora hoje, a mesma caverna em que nascera seu pai. Nunca deixou sua terra, e nunca deixará, segundo afirma: “Para onde eu iria, para a Síria? Todos os palestinos lá estão morrendo”. Ele viu o primeiro colonato próximo a Qawawis ser fundado em 1983 (colonato de Susya), e os seguintes em 1998 (Mitzpe Yair) e 2001 (Avigayil). Em 2017 completa trinta e quatro anos, mais da metade de sua vida, de uma forçada convivência com judeus ortodoxos, em sua maioria, fundamentalistas que acreditam estarem tomando terras que lhe são suas por determinação divina. Na verdade, palestinos como os habitantes de Qawawis são os donos legais da terra e possuem os documentos de posse. Isso, entretanto, não impede a ação dos colonos, considerados ilegais pela Organização das Nações Unidas, mas encorajados pelo governo de Israel. Acostumado a viver e contar essas histórias aos acompanhantes ecumênicos e outras organizações internacionais, Jibrin desenvolveu uma maneira única de narrá-las e interpretá-las, uma espécie de abrigo pessoal para pensar a violência que presencia quase diariamente: “Imagine que alguém corta a minha garganta. Isso é uma coisa má. Mas se ao menos você contar [a minha história], em seus lábios, em seu coração, ela significará algo, será melhor que nada.” Essa é a sua forma de agradecer a nossa presença e pedir que espalhemos as suas palavras ao resto do mundo.

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Jibrin Al Baram, inconfundível com seu cachimbo enquanto pastoreia seu rebanho de ovelhas. Ao fundo, o colonato de Avigayil, um dos três próximos a Qwawis. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Ameaças semelhantes são as que nos levam à comunidade de Umm El Kheir. Esta se encontra lado a lado com o colonato de Karmel, do qual está separada apenas por uma cerca. Aqui, o problema mais frequente são as ordens de demolição. A comunidade já foi vítima de várias demolições, tendo a mais recente ocorrida há pouco mais de dois meses.[2] Recentemente, o grupo 63 atendeu a um chamado de Hamed Qasameh, o responsável pelas operações de campo da UN OHCHR na região sul da Palestina[3], para verificação, em Um El Kheir, do recebimento de doze stop work orders que proíbem obras de qualquer tipo em residências palestinas. Essas ordens são emitidas pela Administração Civil, sob comando de Israel. Segundo dados apresentados no site da organização B’Tselem, os palestinos estão proibidos de construir em cerca de 70% do território da área C.[4] Em Umm El Kheir,  apenas uma das ordens entregues abrange nove residências, entre tendas e casas da comunidade, sendo uma delas datada de vinte anos atrás, forçando uma família a viver por duas décadas sem manutenção em uma construção que já é extremamente precária. Na prática, essas ordens são um prenúncio de novas ordens de demolição que os moradores esperam receber em breve.

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Uma das “casas” sob ordem de demolição em Umm El Kheir. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Na comunidade, fomos recebidos por Ihmeed, um garoto de 19 anos, que nos guiou entre as tendas, apontando aquelas sob risco de demolição. De uma delas, sai uma mulher se lamentando. Ela traz a ordem que lhe foi entregue por soldados israelenses e pede que a fotografemos. Em seguida, senta-se em frente à sua casa e chora. “Esta é a minha mãe”, diz Ihmeed. Já sentados, enquanto nos oferece chá, Ihmeed nos conta como as ordens de demolição são entregues com um prazo de alguns dias para ser cumprida. Isso daria a opção aos moradores de demolirem eles mesmos as próprias tendas, em grande medida, uma tortura psicológica. Quando questionado sobre o que fará quando os tratores voltarem, Ihmeed não hesita em dizer: “Morarei debaixo desta pedra [sobre a qual conversávamos]. Eu não deixarei esta terra.”

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Ihmeed, 19 anos, morador de Umm El Kheir, relata à acompanhante ecumênica Liss B.-H como é viver sob a constante ameaça de ter sua casa demolida. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Jibrim e Ihmeed, 52 e 19 anos, em pontos opostos da vida, mas atravessados pelo mesmo sofrimento de viver sob ocupação, são a imagem daquilo que o filósofo Michel Onfray chama de “pensadores da existência”. Praticam uma filosofia prática, de enfrentamento na dor, de liberação da angústia e do medo que vivem constantemente. Trazem na fala uma espécie de poesia que só um povo oprimido é capaz de produzir. Tecem uma rede invisível de dizeres que lhe fazem resistir. Mais que isso, eles mostram que a Palestina não precisa de interlocutores, pois já tem uma voz própria. Precisa apenas ser ouvida. Isto nos leva à questão: qual o papel dos acompanhantes ecumênicos nessa luta? Qual a voz que nos cabe aqui?[5]

Estranha combinação de palavras esta: presença protetiva. Mistura de fragilidade e força, mas também de uma fina ironia. Proteger pela presença – como pensar possível esta ação se ao chegar dos tratores, se ao cercar dos soldados de Israel, tudo o que podemos fazer, nós, “internacionais”, é observar, esperar, escrever? Quando vieram pela primeira vez à comunidade de Umm El Kheir, e puseram suas casas no chão, de que serviu estarmos aqui? Quando vierem da próxima vez, que poderemos senão assistir? Talvez na espessura histórica da palavra resida uma resposta. No latim, praesentia,ae significa “presença, aparição dos deuses”. Seu uso data dos séculos XIII e XIV, quando o mundo latinizado – ocidental – dava os primeiros sinais de esgotamento, a fome e a peste grassavam, e as pessoas pediam o auxílio divino.[6] “Estar presente”, então, traz esta herança distante que liga Deus aos homens; é descer ao mais fraco, fazer-se igual, na fragilidade do outro, é afirmar-se humano. Ihmeed entretanto, dá-nos uma outra alternativa. Para ele, está claro o que viemos fazer.  Afinal, ao escutá-lo dizer: “Obrigado por estar aqui, por ver e levar ao mundo a nossa história”, papel e caneta ganham outro sentido.

[1] “Os acordos de Oslo firmado entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina, em 1933, dividiu a Cisjordânia em zonas distintas: A, B e C, sob diferentes jurisdições e níveis de controles entre elas.  A área A está sob total controle da Autoridade Palestina e consiste em áreas urbanas. Área B está sob controle civil palestino, e quanto à segurança, está compartilhada com Israel, constituindo, em grande parte, áreas rurais. A área C está sob total controle do poder militar e da Administração Civil Israelense.” Disponível em: https://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_area_c_factsheet_january_2013_english.pdf>. Acesso em: 11/12/2016.

[2] Ver http://www.taayush.org/?p=4270. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[3] Sigla para United Nations Office of the High Commissioner for Human Rights (UN OHCHR) in the Occupied Terriories in Palestine (oPt), a UN OHCHR é a voz das Nações Unidas nas questões de direitos humanos na Palestina.

[4] http://www.btselem.org/planning_and_building/restrictions_on_palestinian_planning_and_building. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[5] ONFRAY, Michel. Michel Onfray: a libertação na filosofia. In: http://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-onfray-a-libertacao-na-filosofia. Acesso em 21 de janeiro de 2017.

[6] HOUAISS, Antonio. Grande dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 2291.

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EA do Grupo 63, Yatta, South Hebron Hills.

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

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DEMOLINDO CASAS, ENGENHANDO SONHOS: famílias em cerco em Shi’B Al Butum

Quando amanhece na comunidade de Shi’B Al Butum, Sheadi, 5 anos, já está de pé ajudando os pais em tarefas como alimentar as ovelhas e acender o fogo para o chá. Ele e seus seis irmãos moram em uma tenda improvisada e isolada nas montanhas de South Hebron Hills. Em regiões como essa, dentro da área C dos territórios palestinos ocupados[1], sob o controle das forças israelenses, menos de 1% dos palestinos conseguem autorização para construir, e mesmo as tendas como a que abriga a família de Sheadi estão sob ordem de demolição.[2] Também condenadas estão as instalações em cavernas, pois nem todas as famílias das redondezas podem arcar com os custos de uma tenda ao ar livre, e abrigam-se debaixo da terra, dividindo grutas com seus rebanhos de ovelhas. Assim, quando entramos na caverna do tio de Sheadi, convidados para uma xícara de café, a gargalhada foi geral ao desejarmos boa noite – Masa ikher! – às ovelhas da casa.

Uma das tarefas do time de acompanhantes ecumênicos (AE) de South Hebron Hills, instalados em Yatta, Hebron, é fazer presença protetiva durante a noite quando requisitada – os sleep-overs. A grande maioria dos chamados se deve aos ataques dos colonos judeus. Desde 1967, os colonatos israelenses já somam quase 250 em todo o West Bank.[3] Considerados ilegais pela legislação internacional, essas pequenas vilas chegam a abrigar, apenas um deles, dezenas de milhares de judeus ortodoxos fundamentalistas, que se apossam de terras em território palestino, e passam a tornar impossível a vida de comunidades próximas, promovendo ataques – muitos andam armados e são protegidos pelo exército de Israel – e impedindo o acesso dos palestinos aos recursos naturais. Nos últimos meses, um caso especial vem sendo acompanhado pelo time de SHH: o de Mohammed Itzaq al Jabareen e sua família, residente em Shi’B Al Butum.

Mohammed afirma vir sofrendo assédio por parte de colonos e das forças de segurança israelenses. Em seu último telefonema, relatou a abordagem noturna efetuada por soldados, que revistaram sua tenda em busca de supostos “invasores” de um colonato próximo. Em outra ocasião, havia notado um grupo de colonos rondando sua tenda, armados e com um mapa em mãos, fazendo medições em seu terreno. E por aí vão outras formas de pressão psicológica. Seus efeitos são visíveis em seus filhos, incluindo Sheadi.

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A tenda de Mohammed e sua família ao anoitecer em Shi’B Al Butum. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

A única menina, Ahlean, 4 anos, traz os olhos quase sempre assustados, como carregasse neles a sombra de um fantasma. É preciso paciência para ver um sorriso romper sua face e lembrar que há ali uma criança – e cada minuto de espera vale a pena. Feadi, 6, é o mais adulto. Seu rosto é a cópia do pai, não apenas na aparência, mas em uma seriedade   precoce, uma gravidade nos olhos difícil de decifrar. Ahmmed, 3, o mais tímido. Sempre que possível, está perto do pai ou da mãe, buscando algum pedaço de abrigo. Há ainda os pequenos Iúsaf, 2, que ensaia os primeiros passos, tropeçando nos desvãos da caverna, e Teerek, pouco mais de 1 ano, quase sempre chorando nos braços de Arlean, ou embalado no berço por algum de seus irmãos. Sheadi é sem dúvida o mais inquieto, o primeiro a revistar as mochilas dos visitantes, testar seus óculos e perguntar os seus nomes. Nenhum lugar lhe basta, nenhuma resposta o silencia. Parece trazer no sangue o nomadismo dos beduínos traduzido em pequenos gestos de revolta, como fugir da escola quando há visita de médicos, ou tomar emprestada nossa lanterna para um passeio noturno fora da tenda.

Ensaf, sua mãe, consegue reunir todos em torno de si, e manter uma família onde poucos veriam possível um lar. É capaz de transformar um pequeno ato, como retirar o espinho preso no pé do pequeno Teerek, em uma grande operação que mobiliza todos ao redor: alguém traz a água para limpeza, outro segura lhe as pernas, um outro, os braços, enquanto mais um o distrai da dor fazendo caretas. Seu cuidado se estende para fora dos filhos, e, quando já estamos deitados para dormir, ela nos cobre, a cada um dos AE’s, com um cobertor extra, como fôssemos mais um dos seus. Termina por ser uma grande companheira para Mohammed, cujo semblante ao deixarmos sua tenda pela manhã revela a angústia de um pai que precisa trazer estranhos para dentro de casa para proteger a própria família.

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Mohammed, 27 anos, aquecendo-se ao fogo para o chá matinal. ©EAPPI/Leonardo V.

Antes de retornar à nossa base em Yatta, peço a Mohammed para tirar uma fotografia dele com os filhos. No momento da foto, um dos garotos sai rapidamente do quadro, enquanto um de seus filhos que passava perto corre para sentar-se ao seu lado. Só depois fico sabendo que o garoto desertor é na verdade filho de um outro morador local, e não queria aparecer na imagem de uma família que não é a sua. Não é possível compreender a resistência palestina sem ter em mente esse instinto de pertencimento, de saber qual o seu lugar.

Neste momento, Sheadi me flagra com a câmera em punho. Puxa-me pelo braço, busca algumas pedras, rearranja-as em torno de um objeto que encontra no chão e pede-me para fotografar, orgulhoso de sua obra. Por alguma magia de que só as crianças são capazes, ele parece perceber que na Palestina cada imagem pode ser a última. As paisagens aqui são atravessadas por múltiplas temporalidades. As montanhas revelam o peso de uma duração geológica, e sugerem o papel do olhar no despertar do desejo pela posse da terra, que está no centro de uma disputa milenar entre os povos desta região.

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A “Fortaleza de Sheadi”. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Por outro lado, nada está seguro do amanhã – veja-se o fato: apenas na área C, atualmente, há 1.134 ordens de demolição contra tendas, casas, cavernas e quaisquer outras instalações palestinas.[4] Dividindo a existência entre o eterno e o efêmero, os palestinos carregam o peso de um anacronismo particular. Disso, provém uma espessura política difícil de mensurar. Pois cada uma daquelas ordens judiciais traz em si a possibilidade de um novo enfrentamento entre os cidadãos palestinos e as forças israelenses, entre o passado e o presente.[5]

Na Escola de Shi’B al Butum, construída com a ajuda da União Europeia, o diretor Mohammed Jaber al Nawajah explica que Sheadi e seus irmãos têm dificuldades nos estudos. “São de uma família pobre, sofrem com os ataques dos colonos judeus, estão muito assustados.”[6] (À medida que fala, a obra de Sheadi começa a fazer sentido: uma fortaleza de pedra entorno do peito.) Nawajah mostra então uma carta redigida pelos alunos do quinto e sexto graus do ensino básico, na qual, entre outras coisas, falam do medo constante em viver sob ocupação, do desejo de viverem em segurança, com liberdade, e de terem uma profissão, e me aponta Sheadi como exemplo, dizendo: “Ele quer ser engenheiro – quer aprender a construir casas”. Nunca um sonho me pareceu tão justo.

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O futuro engenheiro Sheadi, e a serenidade no olhar de quem, contra todas as apostas, ainda não desaprendeu a sonhar. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

 

[1] “Os acordos de Oslo firmado entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina, em 1933, dividiu a Cisjordânia em zonas distintas: A, B e C, sob diferentes jurisdições e níveis de controles entre elas.  A área A está sob total controle da Autoridade Palestina e consiste em áreas urbanas. Área B está sob controle civil palestino, e quanto à segurança, está compartilhada com Israel, constituindo, em grande parte, áreas rurais. A área C está sob total controle do poder militar e da Administração Civil Israelense.” Disponível em: https://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_area_c_factsheet_january_2013_english.pdf>. Acesso em: 11/12/2016.

[2] Ver o relatório sobre as ordens de demolição na área C produzido pela OCHA – Office for the Coordination of Humanitarian Affairs, pertencente à ONU. Disponível em: http://www.ochaopt.org/content/under-threat-demolition-orders-area-c-west-bank.

[3] Dados disponíveis em: http://www.btselem.org/settlements/statistics. Acesso em 10/12/2016.

[4] Idem.

[5] Sobre anacronismo das imagens, ver DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.

[6] Entrevista com Mohammed Jaber al Nawajah diretor da Escola Básica de Shi’B Al Butum.

Leonardo V

EA do Grupo 63, Yatta, South Hebron Hills.

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Entre concreto, choro e chá: demolição em Silwan – Jerusalém Oriental

Este artigo teve vários inícios. Um dos esboços contava como a estratégia política do Estado de Israel para seguir apropriando-se das terras dos/as palestinos/as se sustenta em um conjunto de técnicas operada por uma burocracia eficiente e por um dos exércitos mais poderosos do mundo. Entre estas políticas destaca-se: a construção dos muros, a restrição para se conseguir a autorização para a construção, o controle pelo exército da mobilidade dos/as palestinos/as em suas próprias terras, as prisões de crianças e adultos palestinos sem uma acusação formal, construção de assentamentos em terras palestinas.  No entanto, tudo que escrevi ficou sem sentido, sem alma, depois que conheci a família do senhor  Asma Shuikhe.

Ali, entre ferro, concreto e outros escombros estava a materialização, na esfera micro, da política tentacular do Estado de Israel. Com sua voz cansada e pausada, contou que às 3 da manhã, centenas de soldados da Forças de Defesa de Israel (IDF – Israel Defense Forces) fecharam a rua e, em pouco tempo, os 35 metros (uma expansão da casa original) foi destruída. A reforma tinha como objetivo dar mais conforto à sua família de 13 membros.

“Depois que eles terminaram a demolição, soldados entraram na minha casa [refere-se à parte da casa original, não demolida] com cachorros. Eu perguntei o que eles queriam. Um soldado respondeu: Eu faço o que eu quero!”

A família e vizinhos olhavam para os escombros como se estivessem velando um corpo de uma criatura amada. Não sobrou nada. A casa morreu. Algumas pessoas estavam em silêncio, outras evocam palavras e jogavam suas mãos para seus céus em um claro diálogo com Deus.

Enquanto conversávamos, um dos seus filhos nos oferecia chá.  O funeral de uma casa sonhada. De um lado os escombros, do outro, os poucos e pobres móveis que foram retiradas às pressas. Qual o motivo da demolição? A falta de autorização para a realização da obra.

A demolição desta casa não é “apenas” a demolição de uma casa. Conforme dito, há um conjunto de políticas eficazmente planejada para retirar as terras dos/as palestinos/as. O controle das construções é uma delas. Para se conseguir a autorização deve-se submeter um pedido a vários órgãos, nos termos de lei de planejamento e construção (Planning and Building, de 1965), que regula inteiramente o planejamento e construção em Israel, incluindo a Jerusalém Oriental[1]. Raramente uma família palestina consegue esta autorização, o processo pode levar anos e custa somas consideráveis.

De acordo com esta lei há, principalmente, três categorias de demolição realizada contra a casa ou outra estrutura: 1) punitiva; 2) necessidade militar; 3) judicial ou administrativa.[2]

As demolições por punição são realizadas nos termos do artigo 119 da Emergency Defense Regulations de 1945, em situações onde um ocupante da casa foi encontrado envolvido ou com suspeita de envolvimento em atos de violência contra o Estado de Israel. As autoridades militares também podem autorizar demolições, uma medida que, em certas circunstâncias, é permitida sob a internacional lei, mas é estritamente limitada nos casos de absoluta necessidade militar. De acordo com a lei de planejamento e construção, as demolições judiciais ou administrativas (as que acontecem com maior frequência), são realizadas nos casos onde a casa ou outra estrutura é construída sem a permissão. A demolição da casa daquela família que conheci naquela manhã, insere-se nesta categoria. Mas seria “apenas” a casa dele?

A família vive em Silwan Valley, na Jerusalém Oriental[3], área com aproximadamente 55.000 palestinos/as e 400 judeus/judias espalhados/as em vários assentamentos.[4] Cerca de 99% dos pedidos de permissão para construir ou reformar feitos por palestinos são negados. Ainda naquela manhã visitei outras duas construções que foram demolidas (um abrigo para animais – com o confisco do cavalo pelo Estado – e uma outra casa que abrigava 09 pessoas), todas na mesma área.[5]

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Jerusalém Oriental – Demolição em Silwan. ©EAPPI/Berenice B

Como em toda a Jerusalém Oriental, a infraestrutura nesta área é pobre, embora os/as palestinos/as sejam obrigados/as a pagar todos os impostos ao Estado de Israel. As ruas não têm asfalto de qualidade, a iluminação pública é precária e o lixo espalha-se por todas as partes.

Enquanto conversávamos, Sr. Asma Shuikhe me mostrava a incoerência da lei.

“Você está vendo aquela casa? A que tem uma bandeira de Israel? Ele é uma casa de um colono judeu. ” [Era uma casa de três andares que se destacava pela ostentação das outras da mesma rua.]

Continuou:

“Nós, palestinos, nunca conseguimos permissão para fazer nada em nossas casas. Gastamos muito dinheiro e nunca conseguimos. Israel quer expulsar todos nós. Como conseguir uma autorização para fazer reformas ou construir uma nova casa?”

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Jerusalém Oriental – Escombros da casa. ©EAPPI/Berenice B

Jerusalém Oriental é considerada território ocupado. Desta forma, a transferência de civis é proibida de acordo com o direito internacional humanitário.[6] Ainda de acordo com a internacional lei humanitária, uma ordem para expropriação de terra para ser legal, deve beneficiar a população local que está sob ocupação. No caso de Jerusalém Oriental, contudo, a vasta maioria de terras expropriadas, anteriormente propriedade de palestinos, foram para beneficiar os judeus israelenses.

Quando Sr. Asma Shuikhe afirma que o Estado de Israel quer expulsar os/as palestinos/as de suas terras, a demolição de sua casa passa a ter um sentido mais amplo e conecta-se com o projeto política mais amplo e tentacular. A aparente fragmentação desaparece e o que poderia ser interpretado apenas como uma questão de uma burocracia estatal perversa e eficiente, passa a ter outros sentidos.

[1] Todos os documentos para requerer autorização devem ser submetidos em hebraico. Para entender os mecanismos burocráticos necessários, ver: Fact sheet: applying for a building permit in East Jerusalem.  Norwegian Refugee Council (NRC), May, 2013.

[2] In: Information, counselling and legal assistence programme in the occupied Palestinian territory. Fact sheet: FAQS on mainn legal issues in East Jerusalem, May, 2013.

[3] Durante a guerra de 1948, Israel apoderou-se da área ocidental de Jerusalém. Em  junho de 1967,  Israel ocupou a Cisjordânia, incluindo a parte oriental de Jerusalém. De acordo com a lei de Israel, os palestinos de Jerusalém Oriental são considerados “residentes permanentes” e não cidadãos.

[4] Para acompanhar as demolições e prisões dos/as palestinos/as moradores/as desta área, ver: http://silwanic.net/?p=53269;

http://alt-arch.org/en/about-us/

[6] De acordo com o Statute of the International Criminal Court, esta prática também constitui um  crime de guerra em conflitos armados internacionais. Os assentamentos estabelecidos e expandidos em todo o território ocupado da Palestina, incluindo Jerusalém Oriental, tem sido repetidamente confirmado pelo Conselho de Segurança da UNO como ilegais.

 

Berenice B

EA do Grupo 63, Jerusalém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

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A demolição pode vir a qualquer momento

Os Acompanhantes Ecumênicos na Palestina se dividem em seis times, em seis regiões diferentes da Cisjordânia ocupada. Cada região tem suas especificidades – alguns monitoram check points por onde passam os trabalhadores, outros acompanham crianças a caminho da escola, por exemplo. Mas há um tipo de incidente que tem se tornado cada vez mais comum em todas as regiões: as demolições levadas a cabo quase que diariamente pelas forças de segurança israelenses.

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Mapa Restricting Space in the OPT: Area C Map  UN/OCHA

Desde os Acordos de Oslo de 1993, o território da Cisjordânia ocupada foi dividido em três áreas: a Área A, que fica sob controle civil e securitário da Autoridade Palestina (AP); a área B, onde a AP lida com os assuntos civis mas os órgãos militares israelenses se encarregam da parte de segurança; e a área C, que fica totalmente sob controle do poder ocupante tanto em assuntos militares quanto civis, o que inclui planejamento urbano e concessão de permissões para qualquer tipo de construção. A área C corresponde a cerca de 60% do território da Cisjordânia, enquanto que 22,8% é área B (os centros dos vilarejos rurais) e apenas 17,2% é considerado área A (os centros urbanos) [1]. Como mostra o mapa do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA), a única área contígua da Cisjordânia é a C, enquanto que as áreas A e B são como ilhas de territórios mais ou menos autônomos. Toda a extensão das fronteiras, assim como as principais estradas, são controladas pelas forças israelenses.

Essa divisão deveria ser temporária e teoricamente tinha por objetivo facilitar a retirada gradual do exército israelense da Cisjordânia: dentro de cinco anos, a área C deveria ser considerada B e as áreas B deveriam virar A – mas isso nunca aconteceu.

Apesar de ser, hoje, irregular, essa divisão afeta a população palestina todos os dias, especialmente aqueles que vivem em área C. Eles são impedidos de construir novas casas ou abrigos para seus animais e até de reformar antigas estruturas sem antes conseguir permissão das autoridades israelenses. O processo para se candidatar a uma permissão é burocrático, demorado, caro, e mesmo assim é praticamente impossível que ela seja concedida [2]. Dessa forma, é muito comum que as famílias comecem a construir suas casas sem autorização. Nesses casos, as autoridades israelenses podem demolir as construções a qualquer momento.

Foi o que aconteceu com a comunidade beduína de Ein Ar-Rashash. Aqui, o alvo das demolições não eram nem sequer estruturas permanentes, mas tendas.

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Vilarejo beduíno de Ein Ar-Rashash, Nablus. EAPPI, EA Jade.

 

Todo o vilarejo foi demolido em fevereiro deste ano. Nos dias que se seguiram novas tendas foram providenciadas pela ONG Acted e em pouco tempo a comunidade se reergueu, mas desde então eles vivem sob constante ameaça de uma nova demolição. As 12 famílias que formam essa comunidade já tem um histórico de deslocamentos: antes da fundação do Estado de Israel em 1948, viviam no deserto do Negev; depois disso foram forçadas a se mudar para El-Khalil (Hebron), depois para os arredores de Jerusalém Oriental, para os arredores de Jericó e agora vivem aqui, em Ein Ar-Rashash, na região de Nablus, porção norte da Cisjordânia. Ao ser perguntado sobre o que espera do futuro, Ali Sahwahra responde:

“Que futuro? Estamos sitiados aqui. Não podemos ir a lugar nenhum porque cada vez mais terras na nossa volta viram assentamentos ou zonas de treinamento militar. Nem de noite temos descanso. Geralmente as pessoas dormem e descansam à noite, mas aqui, de noite ficamos ainda mais tensos. Dormimos ansiosos, de meia em meia hora, porque a qualquer momento o exército ou os colonos podem chegar e fazer o que quiserem conosco.”

O vilarejo beduíno de Al-Araqib oferece um exemplo extremo desse tipo de situação: no dia dois de novembro, a comunidade foi demolida pela 105ª vez desde 2010 – sendo que a penúltima demolição havia ocorrido menos de um mês antes, no dia 6 de outubro.  [veja as notícias aqui e aqui]

Segundo o artigo 53 da IV Convenção de Genebra, referente à proteção de civis em tempos de guerra e em territórios ocupados, é proibido ao poder ocupante destruir qualquer tipo de construção no território ocupado, exceto se absolutamente necessário para fins militares. Em casos como os dessas vilas beduínas, demolidas e reconstruídas incontáveis vezes, não fica claro que tipo de ameça as tendas, as famílias e os rebanhos representam à segurança do Estado de Israel. Mesmo assim, de tempos em tempos, as escavadeiras chegam e colocam tudo abaixo mais uma vez.

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Escombros de lojas demolidas em Beita. EAPPI, EA Jade.

 

Na verdade, nem é necessário que a construção seja considerada irregular para que seja demolida. A cidade de Beita, na região de Nablus, é majoritariamente área B, o que significa que é necessário apenas conseguir permissão das autoridades palestinas para construir. Na madrugada do dia três de novembro, três lojas foram demolidas pelas forças militares israelenses. Os terrenos são de propriedade privada e estavam sendo alugados com permissão da prefeitura de Beita. Mohammed A., dono de uma dessas lojas, trabalha com alguns familiares e a renda do negócio sustenta suas respectivas famílias, o que soma cerca de 60 pessoas. Mohammed nos conta que recebeu a ordem de demolição há um ano e meio, e desde então já havia tomado medidas legais por meio de um advogado, alegando que o terreno estava em área B e a construção estava regularizada – esforço em vão.

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Mohammed A., à esquerda, sobre um viga em meio aos escombros. EAPPI, EA Jade.

Apesar das dificuldades e do sentimento permanente de insegurança, a vida segue em frente sob a ocupação militar. No dia seguinte à demolição, Mohammed e alguns familiares já se empenhavam na reconstrução das estruturas que haviam sido destruídas.

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População atingida trabalha para reconstruir as lojas demolidas, Beita. EAPPI, EA Jade.

A política de demolições executada por Israel é ilegal do ponto de vista do direito internacional em mais de um aspecto, pois contraria a IV Convenção de Genebra e se baseia em um mecanismo criado para ser temporário, que deveria ter acabado em 1998. Para a população palestina, é um beco sem saída: não é possível construir na maior parte das terras, e, mesmo nos vilarejos onde deveria ser possível, as forças israelenses podem demolir sem restrições. A sensação de vulnerabilidade é permanente, mas a população resiste a cada vez que decide reerguer suas casas, suas lojas, os abrigos de seus animais. Por aqui, existir é resistir.

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[1] Norwegian Refugee Council Training Manual (2015): Housing, Land and Property in the West Bank, Area C. pg. 18

[2] Norwegian Refugee Council Training Manual (2015): Housing, Land and Property in the West Bank, Area C. pg. 32-22

 

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EA do Grupo 62, Yanoun

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com

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Assentamentos, Muro e invasões do exército afetam Tulkarm e Qalqiliya

Ao norte da Cisjordânia, próximas do Mar Mediterrâneo, cidades palestinas sofrem com a construção do Muro de Separação e cotidianas violações de direitos humanos

 

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Mapa da Cisjordânia ocupada

Tulkarm é uma cidade palestina localizada ao norte da Cisjordânia ocupada e está apenas 14km distante do mar Mediterrâneo. Em dias de céu limpo, é possível ver o mar a oeste, na direção da cidade de Netanya, em Israel. Hoje, para ir até a praia, os palestinos sob ocupação precisam de autorização prévia do governo israelense. “Antes, eram 10 minutos para ir ao mar. Agora, todo mundo em Tulkarm está triste. Podemos ver o mar, mas não podemos ir. Temos as montanhas agora”, diz um palestino.

Após a guerra de 1948 e a criação do Estado de Israel,muitos dos refugiados expulsos das áreas de Jaffa e Haifa, por exemplo, foram morar no campo de Tulkarm, o terceiro mais populoso da Cisjordânia. Lá, 21.500 pessoas vivem em uma área menor que 1km². Outro campo é o Nur Shams, com 10.500 habitantes. Contando com os dois campos de refugiados, a população de Tulkarm chega a 161.000 pessoas.

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Acompanhantes visitam campo de Nur Shams, Tulkarm. EAPPI, Danielle.

Mesmo situada em área A, com controle militar e civil palestino, o exército israelense faz incursões frequentes na cidade de Tulkarm. A barreira de separação construída por Israel tem 38 quilômetros e afetou a economia da cidade devido à drástica redução de tráfego de pessoas e mercadorias entre a cidade e o território israelense.

Majoritariamente agrícola, a cidade também sofre com a restrição de acesso dos fazendeiros às terras que estão do outro lado do muro. Alguns perderam terrenos com a construção da barreira, enquanto outros têm dificuldade para obter a autorização necessária para acessar suas propriedades. Entretanto, aqueles que têm os documentos enfrentam sérias questões, como o horário restrito de abertura dos portões agrícolas, sua mudança repentina sem aviso prévio e conduta individual dos soldados, bastante instável.

Alguns portões, por exemplo, ficam abertos por apenas 30 minutos. Quando os soldados se atrasam, por vezes não incluem tempo adicional para deixar o portão aberto. No portão agrícola chamado Far’un, por exemplo, o horário de abertura é das 6h até 6h30. Certa manhã, os soldados chegaram às 6h15 e fecharam o portão às 6h30, deixando apenas 15 minutos para a travessia de trabalhadores e veículos.

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Muro de separação, Qalqiliya. EAPPI, Danielle.

 

Outra questão importante na área de Tulkarm são as fábricas de produtos químicos e seu impacto ambiental. O caso mais evidente é o da fábrica Geshuri, que foi fechada em Israel em 1984 devido à poluição que causava e simplesmente reaberta em território palestino. Fayez Taneeb tem sua fazenda ao lado da fábrica e viu sua propriedade ser modificada nos últimos anos com a indústria e a construção do muro. Ele perdeu mais da metade de suas terras com a implantação da barreira israelense, que cerca três lados de sua fazenda.

Outro efeito da fábrica é a poluição do ar, que causa diversos problemas de saúde na população de Tulkarm, conforme aponta um estudo feito em 2013. Segundo a revista científica Lancet, há mais casos de câncer, asma e doenças respiratórias entre residentes de Tulkarm do que em outros distritos.

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Qalqiliya, uma cidade ao sul de Tulkarm,  tambem será profundamente afetada com a construção de 93 quilômetros de barreira de separação, já anunciados por Israel, de forma a incorporar e “proteger” os diversos assentamentos construídos em território palestino. Além disso, a companhia multinacional de água do país ocupante, Mekorot, explora vários poços da região, que compõem os aquíferos da Cisjordânia.

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Cidade de Qalqiliya, murada.

A construção do Muro de Separação em Qalqiliya deixou algumas vilas na então chamada “seam zone“,  um dos vários tipos de “closed military zones”[1] impostas na Cisjordânia, localizada entre a Linha Verde (armistício de 49) e a barreira em si [2]. Comunidades beduínas como Arab Abu Farda e Arab ar Ramadin Al Janubi se encontram hoje cercadas por assentamentos e pelo muro. Diariamente, as crianças que estudam em uma escola em Habla (veja o mapa abaixo) têm que cruzar um portão agrícola de mesmo nome. Este é um dos lugares mais problemáticos monitorados pelos Acompanhantes Ecumênicos internacionais, que trabalham tentando garantir o direito dos palestinos à educação e ao acesso a sua própria terra, posto diariamente em cheque.

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A construção de assentamentos na região aumenta a presença dos militares israelenses em várias vilas de Qalqiliya. Azzun, por exemplo, sofre com frequentes incursões noturnas do exército. “Isso é normal aqui. Acontece quase todo dia”, disse uma jovem de 17 anos.

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Casa invadida pelo exército de Israel, Azzun. EAPPI, Isabelle.

Na madrugada de 27 de outubro, por exemplo, 15 casas foram invadidas por militares e cinco jovens entre 19 e 26 anos foram presos. As ações foram semelhantes: ao entrar, os soldados reúnem a família em um cômodo, com exceção do suspeito, enquanto vasculham o resto da casa. Em quatro das cinco casas visitadas por EA’s, o cenário era de destruição. E duas das famílias disseram ouvir os gritos de seus filhos sendo espancados. “Eu chorei e gritei para ajudar o meu filho, mas eles me empurraram de volta para o quarto”, afirma a mãe de um dos detidos. Em uma das casas, os soldados simplesmente perguntaram se a família tinha um filho, sem ao menos saber o nome de quem supostamente procuravam.

Nesta incursão especificamente, segundo relatos, os militares estavam particularmente interessados em obter informações sobre as mulheres e crianças. Em uma das famílias, a irmã do detido foi submetida a revista conduzida por soldadas mulheres. Outra família relatou que as três filhas foram levadas sozinhas a um dos quartos para serem revistadas por mulheres. As meninas de 9 e 12 anos foram obrigadas a tirar a camiseta e calça, e a filha mais velha, de 18 anos, teve que se despir completamente. Elas também disseram que as militares colocaram um cachorro dentro do quarto, levando o animal pra fora apenas porque elas choraram muito.

Dias depois da detenção, a família de um dos jovens levados ainda não tem informação sobre seu paradeiro. Na semana seguinte a esta incursão, o exército voltou a Azzun, fechando a entrada da cidade e utilizando bombas de som e de gás lacrimogêneo.

É esse o cotidiano por aqui.

 

[1] Para mais informações sobre as restrições impostas aos moradores que vivem em terras declaradas “seam zones“, ver relatório de HAMOKED – Center for the Defence of Individual (março, 2003): The Permit Regime Human Rights Violations in West Bank Areas Known as the “Seam Zone”.
[2] Seam zone, ou “zona de costura“, consiste na área localizada entre a chamada “Green Line”, que é a linha de armistício estabelecida em 1949, após o fim da guerra que levou à criação do Estado de Israel e o deslocamento de cerca de 700 mil palestinos. Em muitas regiões, Israel desenhou a rota da barreira de separação de forma que ela adentrasse território palestino, alegando motivos de “segurança”. A organização não-governamental israelense B’Tselem, em relatório que pode ser lido neste link , contesta tal justificativa e afirma que “uma das razões prioritárias para a escolha de algumas das seções da rota da Barreira é estabelecer certas áreas para expansão de assentamento no lado “israelense” da Barreira”. Quando concluída, a barreira de separação terá 712km, mais que o dobro da linha estabelecida em 1949.

Danielle

EA do Grupo 62, Tulkarm

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com

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Vocabulário da ocupação

Já é início de outubro e, para os EAs do grupo 62, já se passou um mês de experiência na Palestina e em Israel. Um dos nossos grandes desafios é tentar entender a narrativa de ambos os lados da ocupação militar israelense na Cisjordânia, que existe desde 1967 e não mostra sinais de abrandamento.

O trabalho em Yanoun, uma pequena vila palestina localizada na região de Nablus, possibilita o contato mais frequente e próximo com as famílias locais e com as comunidades vizinhas. Durante as conversas é possível ir aprendendo algumas palavras que a população local utiliza ao se referir à vida na ocupação. A linguagem se torna uma ferramenta para tentar compreender a realidade e torná-la mais suportável – e, para os estrangeiros e recém-chegados, como nós, ela funciona como uma lente através da qual temos acesso às experiências vivenciadas cotidianamente por aqui.

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Rebanho de ovelhas pertencente às famílias do vilarejo de Yanoun, ao fundo na foto. No topo da colina pode-se ver a torre e o estábulo do assentamento mais próximo. Foto: EAPPI/Jade

“Adhi”, que significa algo como “é normal”, por exemplo. É uma expressão comum que exprime a resignação que as pessoas sentem na maior parte do tempo. G., nosso motorista e principal contato na região, nos diz em tom de brincadeira que costuma ouvir histórias das maiores desgraças seguidas por um “adhi”: “Os soldados invadiram minha casa no meio da noite… adhi!”, “Mataram meu filho bem na minha frente… adhi!”, “Demoliram minha casa com tudo dentro… adhi!”. E por mais comuns que sejam esses relatos, depois de algumas semanas precisamos fazer um esforço para lembrar que não é “adhi”, não é normal – ou, pelo menos, não deveria ser.

Mas a ocupação se manifesta em todos os aspectos da vida, aqui em Yanoun assim como na maior parte do território da Cisjordânia que está sob controle civil e militar de Israel: é proibido construir novas casas sem permissão das autoridades israelenses (que quase nunca as concedem); ao mesmo tempo, as comunidades são cercadas cada vez mais de perto pelos assentamentos israelenses, que expandem suas construções em território palestino sem nenhum tipo de restrição; a cada ano mais terras palestinas são confiscadas pelo exército para serem usadas como áreas de treinamento militar. Isso sem mencionar as dificuldades de locomoção dentro do próprio território, como a obrigação de cruzar check-points pra ir de uma cidade a outra, a impossibilidade de ir a Israel sem uma autorização nominal específica, a proibição de viajar pelo aeroporto de Tel Aviv (mesmo para os palestinos que conseguem permissão para irem a Israel). São muitas as políticas que restringem os direitos básicos da população palestina, e depois de quase cinquenta anos de ocupação militar, seus efeitos já são considerados normais.

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Pracinha/playground em Belém, logo ao lado do muro da separação. Foto: EAPPI/Jade

Todas essas medidas são justificadas pelo poder ocupante como medidas necessárias à segurança do povo israelense. Por aqui, do outro lado do muro, a impressão que se tem é que elas são executadas com o objetivo de dificultar ao máximo a vida dos que decidem permanecer na sua terra. Mas as pessoas permanecem – e para isso também há uma palavra no vocabulário da ocupação: “Sumud”.

“Sumud” não tem uma tradução simples no nosso idioma. Significa uma forma de resistência, mas sem a conotação de agressão ou de revide que às vezes vem implícita na palavra em português. Sumud significa ficar, apesar de tudo. Permanecer na Palestina e levar a vida adiante apesar da ocupação e da violência. A fala de A., que conhecemos no vilarejo de Duma, ilustra bem essa definição.

“Nós passamos para as próximas gerações uma mensagem de esperança, de que um dia seremos livres. Apesar das demolições, das prisões e tudo mais, a geração seguinte está aí e nós continuamos casando e construindo nossas casas. Não devemos ter medo porque não somos ladrões, não roubamos nada de ninguém. Essa terra é nossa, essas casas são nossas.” A., Duma.

Nesse sentido, a escolha de não abandonar a terra, de casar e constituir família na Palestina já é por si só considerada uma forma de resistir pacificamente ao regime de ocupação militar.

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EAs do grupo 62 observam os assentamentos ao redor da vila de Qaryut, na região de Nablus. Foto: EAPPI/Noirin Healy-Magwa

A escolha das palavras para se referir aos lugares também é significativa no contexto das disputas narrativas. Muitas das cidades que conhecemos hoje pelos nomes hebraicos antigamente também eram chamadas pelos nomes árabes: Jerusalém é Al-Quds, Hebron é Al-Khalil, Tel Aviv é Yafa, Shechem é Nablus (essa última talvez uma das poucas que continua sendo mais conhecida pelo nome em árabe). Mesmo na Palestina os nomes em hebraico são comumente utilizados pela população local para dar direções aos estrangeiros. Porém, quando o estrangeiro toma a iniciativa de referir-se a cidade pelo nome em árabe, entende-se que está implícita nessa escolha a simpatia pela narrativa palestina, a lembrança da história árabe desses lugares. No campo simbólico do conflito, cada palavra é uma chance de tomar partido.

Jade

EA do Grupo 62, Yanoun

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).

A terra se estreita no Vale

“A terra nos é estreita. Ela nos encurrala no último desfiladeiro” escreveu o poeta palestino Mahmoud Darwich, em um poema que expressa a constante redução das terras da Palestina disponíveis para seu povo. O Vale do Jordão é uma terra fértil e rica em recursos hídricos, mas sua amplitude se estreita de acordo com a filiação étnica e religiosa ao qual se pertence: ao mesmo tempo que mais espaço é disponibilizado para colonos israelenses nessa região, os palestinos se veem constritos a cantões cada vez menores e com menos recursos disponíveis.

A área do Vale do Jordão cobre a quase um terço de toda Cisjordânia, se estendendo por toda a parte leste desse território. Por conta disso, o Vale do Jordão também corresponde a única saída disponível para os palestinos da Cisjordânia: o acesso ao resto do mundo via Jordânia. Parte da justificativa israelense para o controle quase absoluto do Vale do Jordão se define pelo valor estratégico de controlar a “fronteira leste” para a segurança do “Estado Judeu”. Entretanto, Israel tem um acordo de paz há mais de 20 anos com o estado com quem divide as águas do Rio Jordão, isto é, o Reino Hashemita da Jordânia. A tão recorrente lógica da “segurança” não esclarece por si só as políticas israelenses em relação ao Vale do Jordão, em especial em relação aos subsídios aos assentamentos econômicos nessa região.

Igualmente significativo para os palestinos é o valor do Vale do Jordão para recursos hídricos e para agricultura. Desde 1967, a ocupação israelense reduziu abruptamente o usufruto desses recursos naturais para os palestinos. A dupla política de controle e desvios dos recursos hídricos para assentamentos em conjunto com o confisco crescente de terras privadas e públicas outrora disponíveis para uso agrícola de palestinos. Outra face dessa política é o deslocamento forçado de populações, através de ordens de expulsões por razões militares, demolição de propriedade e treino militar, entre tantas táticas. Em conjunto com a fuga de dezenas de milhares de palestinos durante a Guerra de 1967 (sobretudo refugiados de 1948 de dois campos oficiais e outros dois não oficiais), essa estratégia resultou na redução da população do Vale do Jordão de 300 mil para 65 mil. Mais de uma dezena de comunidades desapareceram do Vale, desde então. Outras foram reduzidas a uma fração de sua população pré-1967. As terras disponíveis para uso e desenvolvimento palestino é ainda mais fracionada: pouco mais 5% do Vale do Jordão é acessível para os palestinos, outros 94% são áreas de fronteira, assentamentos, fazendas de assentamentos, zonas de prática de tiro e reservas naturais israelenses ou palestinas.

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Vale do Jordão – Árvores de colonos em terras palestinas no Norte de Jericó. EAPPI/G Soares

Na vila de Al-‘Auja, ao Norte de Jericó, a terra disponível para crescimento natural e agricultura se estreitou consideravelmente. A terra cultivada foi reduzida a um décimo do que era antes da ocupação israelense: 40 mil dunums para menos de 4 mil dunums (1 dunum = 1 m²). O exército de Israel confiscou a maior parte das terras de Al-‘Auja originalmente alegando razões de “segurança” (32,000 dunums foram tomados para “zona tampão” com a Jordânia). Todavia, uma parte significativa dessas terras tomadas por motivos securitários foram transferidas para colonos israelenses explorarem economicamente, formando lucrativos assentamentos. Como uma trágica ironia dessa história que se repete em tantos outros lugares do Vale do Jordão, palestinos de Al-‘Auja acabam por trabalhar nas fazendas dos assentamentos, frequentemente em terrenos que eles mesmos outrora possuíam, ou em alguns casos, para os quais a família mantém documentos de posse ou até propriedade.

Ao menos parte da vila de al-‘Auja se encontra em uma situação de mais garantias a maior parte dos vilarejos e comunidades rurais do Vale do Jordão: a parte central de al-‘Auja encontra-se em área A, sob controle total da Autoridade Palestina. Isso possibilita o desenvolvimento de vários tipos de infraestrutura sem prévia aprovação de autoridades israelenses. No restante do território, inclusive boa parte das terras agrícolas de al-‘Auja, vigora a lei militar israelense em todos os assuntos civis. As áreas sob total controle da lei marcial israelense são partes da Área C, o que corresponde 61% do território da Cisjordânia. No Vale do Jordão, a Área C corresponde por 87% de toda essa região. Questões como água e segurança para o Estado de Israel são praticamente independentes dessas decisões criadas nos Acordos de Oslo a partir de 1993, porém são mais drásticas as implicações para a população vivendo diretamente sob um regime de leis militares que limitam qualquer desenvolvimento, ou até mesmo a existência.

As áreas de al-‘Auja fora da Área C continuam submetidas ao regime de confisco de terra e a diversas estratégias de expropriação. No início do ano, um colono chamado Omer espalhou fertilizantes industriais sob um lote não cultivado para alegar posse. Esse lote pertence a três famílias distintas, mas a escassez de água para eles impossibilita o cultivo de qualquer planta. Nessa terra agora árida e seca, há, todavia, o mesmo potencial agrícola de todas as outras. Nas proximidades desse terreno, colonos plantam tâmaras e pimentas. Devido a localidade desse lote, a tomada por colonos irá afetar todos os habitantes ao redor, restringindo ainda mais a área de pastos para ovelhas para então criar “zonas de segurança” ao redor da parte expandida do assentamento.

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Vale do Jordão – O prefeito de Al Auja mostra a plantação palestina com fertilizantes de colonos. EAPPI/ G Soares

“Existir é resistir” diz um lema palestino no Vale do Jordão. Por vezes os habitantes dessa região são chamados de sabra por palestinos de outras partes: referência a uma espécie de cacto e que simboliza a perseverança diante as intemperes naturais dali e também diante os ditames da ocupação. Tanto as grandes vilas agrícolas (como Jiftlik), quanto as pequenas comunidades beduínas (como ‘Ein Al Hilwa) são submetidas a medidas dracônicas que tornam a vida quase impossível. Ordens de evacuação, ordens de demolição, confisco de propriedade, drenagem dos recursos hídricos, restrições ao movimento, treinamentos militares, agressões diretas por soldados e colonos, tudo isso se acumula e se repete constantemente com o passar dos anos, desgastando o vigor físico e mental dos indivíduos e corroendo os alicerces socioeconômicos que tornam essas comunidades viáveis. A “mera” existência perante essas intermináveis agruras acaba por se fazer um ato heroico de resistência, por vezes a única possível.

Em uma das vilas do Norte do Vale do Jordão mais afetadas por essas políticas de expropriação e expulsão forçadas, al Hadidya, poucos indivíduos restam. Desde da década de 1990, essa vila foi demolida seis vezes. Isso não impediu que os habitantes da vila começassem a reerguer as estruturas demolidas assim que a poeira da demolição baixasse. Todavia, como em outros casos pelo Vale do Jordão, as autoridades israelenses têm buscados “meios legais” de expulsar para sempre os palestinos de al Hadidya de suas terras. Tanto as demolições de propriedade quanto expulsões forçadas de população são medidas que contravêm as leis internacionais humanitárias de acordo com a Quarta Convenção de Genebra, que prevê que uma força ocupante deve zelar pelos interesses da população ocupada. Diante da inação da Comunidade Internacional, Israel continua aplicar seus próprios critérios para atingir seus objetivos em relação ao Território Palestino ocupado que envolve o controle do máximo de território com o mínimo de população palestina presente.

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Al Hadidya seca e os assentamentos de Roi green. EAPPI/G Soares

Abu Sakr, o líder comunitário de al Hadidya, tenta há algum tempo conseguir uma aprovação da Suprema Corte de Israel para um plano central para a vila, que a permitiria desenvolver e obter infraestrutura legalmente segundo o ordenamento militar israelense que rege a vida dos palestinos na Cisjordânia. Abu Sakr não demonstra nenhuma crença no sistema judiciário israelense, busca apenas: “Você acha que eu vou obter justiça da corte israelense? A intenção deles é nos expulsar, então o que se faz é apenas adiar, como uma ovelha adiando o seu abate”.

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Jordan Valley – Al Hadidya – Abu Sakar. EAPPI/G Soares

A metáfora da ovelha esperando o abate pode parecer passiva demais considerando a enorme perseverança dos palestinos diante da ocupação israelense que perdura há décadas. Entretanto, faz algum sentindo ao ver ao passar dos anos um Vale que deixa de ser palestino, cujos poços de água se tornam escassos, as terras agrícolas se reduzem e vilas inteiras desaparecem. A passividade não está tanto naqueles que são afetados diretamente por esse processo e não possuem por si só os recursos para se contrapor a sina que Israel tenta lhes destinar, mas sim daqueles que assistem mudos a esse processo. Não caberá somente a potência ocupante a responsabilidade pelo apagamento da presença e da cultura palestina no Vale do Jordão. E por isso deverão ser responsabilizados. Muitos palestinos acreditam que a história eventualmente os redimirão, como expressou: “Aqui morreremos / No último desfiladeiro / Aqui ou aqui… plantará oliveiras / Nosso sangue”.

 

Gabriel Soares

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EA do Grupo 60 em Vale do Jordão

 

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

 

 

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