VOZES QUE SE CRUZAM: uma poética da resistência nos territórios ocupados da Palestina

Quando se ouve a voz de Jibrin Al Baram, sabe-se instantaneamente que algo especial está sendo dito. Pastor de ovelhas de 52 anos, Jibrin vive na comunidade de Qawawis, incrustada em um dos morros de South Hebron Hills, região ao sul de Hebron, Palestina. Localizada na Área C[1] dos Territórios Ocupados Palestinos, portanto, sob o controle militar e administrativo de Israel, Qawawis é um dos motivos da presença do time de acompanhantes ecumênicos do EAPPI naquela região. A comunidade está circundada por colonatos judeus e são inúmeros os relatos de violência contra os palestinos. Este é, sem dúvida, o motivo da maioria das ligações recebidas pelo grupo 63, instalado na cidade de Yatta, província de Hebron. Mas existem outros: demolições, prisões, bloqueio de estradas pelo exército… Para Jibrin, entretanto, o perigo é maior. Sua tenda está isolada em um morro vizinho ao dos demais moradores, instalada em um declive há poucos metros da estrada que conduz ao colonato de Mitzpe Yair. Talvez por isso, sua fala esteja na fronteira entre o medo e a coragem.

“Aquele que luta pela humanidade vencerá sempre.” Assim ele nos recebe em sua tenda para um chá, e assim inicia sua fala. “Nunca vi um crime como esse, que nos tira dinheiro, tempo, ovelhas, que nos tira tudo.” Jibrin se refere aos ataques dos colonos. Devido à sua localização, ele sofre constantes ameaças enquanto pastoreia nas terras próximas ao colonato. Além disso, coleciona histórias de outros pastores e agricultores locais. Conta-nos de como Nael Khaled Abu Aram, outro pastor local, fora atacado e jogado ao chão, espancado a pau por dois colonos judeus enquanto pastorava suas ovelhas. Nael ficou gravemente ferido no braço, ombro e perna, e precisou passar sete meses em recuperação. Fez uma queixa e chegou a reconhecer um dos agressores dentre fotos de colonos mostradas pela polícia israelense, mas o processo não andou. Como a autoridade nesta área pertence a Israel, tudo flui em prejuízo dos palestinos.

Jibrin nasceu em uma caverna próxima à tenda onde mora hoje, a mesma caverna em que nascera seu pai. Nunca deixou sua terra, e nunca deixará, segundo afirma: “Para onde eu iria, para a Síria? Todos os palestinos lá estão morrendo”. Ele viu o primeiro colonato próximo a Qawawis ser fundado em 1983 (colonato de Susya), e os seguintes em 1998 (Mitzpe Yair) e 2001 (Avigayil). Em 2017 completa trinta e quatro anos, mais da metade de sua vida, de uma forçada convivência com judeus ortodoxos, em sua maioria, fundamentalistas que acreditam estarem tomando terras que lhe são suas por determinação divina. Na verdade, palestinos como os habitantes de Qawawis são os donos legais da terra e possuem os documentos de posse. Isso, entretanto, não impede a ação dos colonos, considerados ilegais pela Organização das Nações Unidas, mas encorajados pelo governo de Israel. Acostumado a viver e contar essas histórias aos acompanhantes ecumênicos e outras organizações internacionais, Jibrin desenvolveu uma maneira única de narrá-las e interpretá-las, uma espécie de abrigo pessoal para pensar a violência que presencia quase diariamente: “Imagine que alguém corta a minha garganta. Isso é uma coisa má. Mas se ao menos você contar [a minha história], em seus lábios, em seu coração, ela significará algo, será melhor que nada.” Essa é a sua forma de agradecer a nossa presença e pedir que espalhemos as suas palavras ao resto do mundo.

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Jibrin Al Baram, inconfundível com seu cachimbo enquanto pastoreia seu rebanho de ovelhas. Ao fundo, o colonato de Avigayil, um dos três próximos a Qwawis. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Ameaças semelhantes são as que nos levam à comunidade de Umm El Kheir. Esta se encontra lado a lado com o colonato de Karmel, do qual está separada apenas por uma cerca. Aqui, o problema mais frequente são as ordens de demolição. A comunidade já foi vítima de várias demolições, tendo a mais recente ocorrida há pouco mais de dois meses.[2] Recentemente, o grupo 63 atendeu a um chamado de Hamed Qasameh, o responsável pelas operações de campo da UN OHCHR na região sul da Palestina[3], para verificação, em Um El Kheir, do recebimento de doze stop work orders que proíbem obras de qualquer tipo em residências palestinas. Essas ordens são emitidas pela Administração Civil, sob comando de Israel. Segundo dados apresentados no site da organização B’Tselem, os palestinos estão proibidos de construir em cerca de 70% do território da área C.[4] Em Umm El Kheir,  apenas uma das ordens entregues abrange nove residências, entre tendas e casas da comunidade, sendo uma delas datada de vinte anos atrás, forçando uma família a viver por duas décadas sem manutenção em uma construção que já é extremamente precária. Na prática, essas ordens são um prenúncio de novas ordens de demolição que os moradores esperam receber em breve.

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Uma das “casas” sob ordem de demolição em Umm El Kheir. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Na comunidade, fomos recebidos por Ihmeed, um garoto de 19 anos, que nos guiou entre as tendas, apontando aquelas sob risco de demolição. De uma delas, sai uma mulher se lamentando. Ela traz a ordem que lhe foi entregue por soldados israelenses e pede que a fotografemos. Em seguida, senta-se em frente à sua casa e chora. “Esta é a minha mãe”, diz Ihmeed. Já sentados, enquanto nos oferece chá, Ihmeed nos conta como as ordens de demolição são entregues com um prazo de alguns dias para ser cumprida. Isso daria a opção aos moradores de demolirem eles mesmos as próprias tendas, em grande medida, uma tortura psicológica. Quando questionado sobre o que fará quando os tratores voltarem, Ihmeed não hesita em dizer: “Morarei debaixo desta pedra [sobre a qual conversávamos]. Eu não deixarei esta terra.”

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Ihmeed, 19 anos, morador de Umm El Kheir, relata à acompanhante ecumênica Liss B.-H como é viver sob a constante ameaça de ter sua casa demolida. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Jibrim e Ihmeed, 52 e 19 anos, em pontos opostos da vida, mas atravessados pelo mesmo sofrimento de viver sob ocupação, são a imagem daquilo que o filósofo Michel Onfray chama de “pensadores da existência”. Praticam uma filosofia prática, de enfrentamento na dor, de liberação da angústia e do medo que vivem constantemente. Trazem na fala uma espécie de poesia que só um povo oprimido é capaz de produzir. Tecem uma rede invisível de dizeres que lhe fazem resistir. Mais que isso, eles mostram que a Palestina não precisa de interlocutores, pois já tem uma voz própria. Precisa apenas ser ouvida. Isto nos leva à questão: qual o papel dos acompanhantes ecumênicos nessa luta? Qual a voz que nos cabe aqui?[5]

Estranha combinação de palavras esta: presença protetiva. Mistura de fragilidade e força, mas também de uma fina ironia. Proteger pela presença – como pensar possível esta ação se ao chegar dos tratores, se ao cercar dos soldados de Israel, tudo o que podemos fazer, nós, “internacionais”, é observar, esperar, escrever? Quando vieram pela primeira vez à comunidade de Umm El Kheir, e puseram suas casas no chão, de que serviu estarmos aqui? Quando vierem da próxima vez, que poderemos senão assistir? Talvez na espessura histórica da palavra resida uma resposta. No latim, praesentia,ae significa “presença, aparição dos deuses”. Seu uso data dos séculos XIII e XIV, quando o mundo latinizado – ocidental – dava os primeiros sinais de esgotamento, a fome e a peste grassavam, e as pessoas pediam o auxílio divino.[6] “Estar presente”, então, traz esta herança distante que liga Deus aos homens; é descer ao mais fraco, fazer-se igual, na fragilidade do outro, é afirmar-se humano. Ihmeed entretanto, dá-nos uma outra alternativa. Para ele, está claro o que viemos fazer.  Afinal, ao escutá-lo dizer: “Obrigado por estar aqui, por ver e levar ao mundo a nossa história”, papel e caneta ganham outro sentido.

[1] “Os acordos de Oslo firmado entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina, em 1933, dividiu a Cisjordânia em zonas distintas: A, B e C, sob diferentes jurisdições e níveis de controles entre elas.  A área A está sob total controle da Autoridade Palestina e consiste em áreas urbanas. Área B está sob controle civil palestino, e quanto à segurança, está compartilhada com Israel, constituindo, em grande parte, áreas rurais. A área C está sob total controle do poder militar e da Administração Civil Israelense.” Disponível em: https://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_area_c_factsheet_january_2013_english.pdf>. Acesso em: 11/12/2016.

[2] Ver http://www.taayush.org/?p=4270. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[3] Sigla para United Nations Office of the High Commissioner for Human Rights (UN OHCHR) in the Occupied Terriories in Palestine (oPt), a UN OHCHR é a voz das Nações Unidas nas questões de direitos humanos na Palestina.

[4] http://www.btselem.org/planning_and_building/restrictions_on_palestinian_planning_and_building. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[5] ONFRAY, Michel. Michel Onfray: a libertação na filosofia. In: http://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-onfray-a-libertacao-na-filosofia. Acesso em 21 de janeiro de 2017.

[6] HOUAISS, Antonio. Grande dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 2291.

Leonardo V

EA do Grupo 63, Yatta, South Hebron Hills.

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

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A demolição pode vir a qualquer momento

Os Acompanhantes Ecumênicos na Palestina se dividem em seis times, em seis regiões diferentes da Cisjordânia ocupada. Cada região tem suas especificidades – alguns monitoram check points por onde passam os trabalhadores, outros acompanham crianças a caminho da escola, por exemplo. Mas há um tipo de incidente que tem se tornado cada vez mais comum em todas as regiões: as demolições levadas a cabo quase que diariamente pelas forças de segurança israelenses.

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Mapa Restricting Space in the OPT: Area C Map  UN/OCHA

Desde os Acordos de Oslo de 1993, o território da Cisjordânia ocupada foi dividido em três áreas: a Área A, que fica sob controle civil e securitário da Autoridade Palestina (AP); a área B, onde a AP lida com os assuntos civis mas os órgãos militares israelenses se encarregam da parte de segurança; e a área C, que fica totalmente sob controle do poder ocupante tanto em assuntos militares quanto civis, o que inclui planejamento urbano e concessão de permissões para qualquer tipo de construção. A área C corresponde a cerca de 60% do território da Cisjordânia, enquanto que 22,8% é área B (os centros dos vilarejos rurais) e apenas 17,2% é considerado área A (os centros urbanos) [1]. Como mostra o mapa do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA), a única área contígua da Cisjordânia é a C, enquanto que as áreas A e B são como ilhas de territórios mais ou menos autônomos. Toda a extensão das fronteiras, assim como as principais estradas, são controladas pelas forças israelenses.

Essa divisão deveria ser temporária e teoricamente tinha por objetivo facilitar a retirada gradual do exército israelense da Cisjordânia: dentro de cinco anos, a área C deveria ser considerada B e as áreas B deveriam virar A – mas isso nunca aconteceu.

Apesar de ser, hoje, irregular, essa divisão afeta a população palestina todos os dias, especialmente aqueles que vivem em área C. Eles são impedidos de construir novas casas ou abrigos para seus animais e até de reformar antigas estruturas sem antes conseguir permissão das autoridades israelenses. O processo para se candidatar a uma permissão é burocrático, demorado, caro, e mesmo assim é praticamente impossível que ela seja concedida [2]. Dessa forma, é muito comum que as famílias comecem a construir suas casas sem autorização. Nesses casos, as autoridades israelenses podem demolir as construções a qualquer momento.

Foi o que aconteceu com a comunidade beduína de Ein Ar-Rashash. Aqui, o alvo das demolições não eram nem sequer estruturas permanentes, mas tendas.

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Vilarejo beduíno de Ein Ar-Rashash, Nablus. EAPPI, EA Jade.

 

Todo o vilarejo foi demolido em fevereiro deste ano. Nos dias que se seguiram novas tendas foram providenciadas pela ONG Acted e em pouco tempo a comunidade se reergueu, mas desde então eles vivem sob constante ameaça de uma nova demolição. As 12 famílias que formam essa comunidade já tem um histórico de deslocamentos: antes da fundação do Estado de Israel em 1948, viviam no deserto do Negev; depois disso foram forçadas a se mudar para El-Khalil (Hebron), depois para os arredores de Jerusalém Oriental, para os arredores de Jericó e agora vivem aqui, em Ein Ar-Rashash, na região de Nablus, porção norte da Cisjordânia. Ao ser perguntado sobre o que espera do futuro, Ali Sahwahra responde:

“Que futuro? Estamos sitiados aqui. Não podemos ir a lugar nenhum porque cada vez mais terras na nossa volta viram assentamentos ou zonas de treinamento militar. Nem de noite temos descanso. Geralmente as pessoas dormem e descansam à noite, mas aqui, de noite ficamos ainda mais tensos. Dormimos ansiosos, de meia em meia hora, porque a qualquer momento o exército ou os colonos podem chegar e fazer o que quiserem conosco.”

O vilarejo beduíno de Al-Araqib oferece um exemplo extremo desse tipo de situação: no dia dois de novembro, a comunidade foi demolida pela 105ª vez desde 2010 – sendo que a penúltima demolição havia ocorrido menos de um mês antes, no dia 6 de outubro.  [veja as notícias aqui e aqui]

Segundo o artigo 53 da IV Convenção de Genebra, referente à proteção de civis em tempos de guerra e em territórios ocupados, é proibido ao poder ocupante destruir qualquer tipo de construção no território ocupado, exceto se absolutamente necessário para fins militares. Em casos como os dessas vilas beduínas, demolidas e reconstruídas incontáveis vezes, não fica claro que tipo de ameça as tendas, as famílias e os rebanhos representam à segurança do Estado de Israel. Mesmo assim, de tempos em tempos, as escavadeiras chegam e colocam tudo abaixo mais uma vez.

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Escombros de lojas demolidas em Beita. EAPPI, EA Jade.

 

Na verdade, nem é necessário que a construção seja considerada irregular para que seja demolida. A cidade de Beita, na região de Nablus, é majoritariamente área B, o que significa que é necessário apenas conseguir permissão das autoridades palestinas para construir. Na madrugada do dia três de novembro, três lojas foram demolidas pelas forças militares israelenses. Os terrenos são de propriedade privada e estavam sendo alugados com permissão da prefeitura de Beita. Mohammed A., dono de uma dessas lojas, trabalha com alguns familiares e a renda do negócio sustenta suas respectivas famílias, o que soma cerca de 60 pessoas. Mohammed nos conta que recebeu a ordem de demolição há um ano e meio, e desde então já havia tomado medidas legais por meio de um advogado, alegando que o terreno estava em área B e a construção estava regularizada – esforço em vão.

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Mohammed A., à esquerda, sobre um viga em meio aos escombros. EAPPI, EA Jade.

Apesar das dificuldades e do sentimento permanente de insegurança, a vida segue em frente sob a ocupação militar. No dia seguinte à demolição, Mohammed e alguns familiares já se empenhavam na reconstrução das estruturas que haviam sido destruídas.

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População atingida trabalha para reconstruir as lojas demolidas, Beita. EAPPI, EA Jade.

A política de demolições executada por Israel é ilegal do ponto de vista do direito internacional em mais de um aspecto, pois contraria a IV Convenção de Genebra e se baseia em um mecanismo criado para ser temporário, que deveria ter acabado em 1998. Para a população palestina, é um beco sem saída: não é possível construir na maior parte das terras, e, mesmo nos vilarejos onde deveria ser possível, as forças israelenses podem demolir sem restrições. A sensação de vulnerabilidade é permanente, mas a população resiste a cada vez que decide reerguer suas casas, suas lojas, os abrigos de seus animais. Por aqui, existir é resistir.

***

[1] Norwegian Refugee Council Training Manual (2015): Housing, Land and Property in the West Bank, Area C. pg. 18

[2] Norwegian Refugee Council Training Manual (2015): Housing, Land and Property in the West Bank, Area C. pg. 32-22

 

Jade

EA do Grupo 62, Yanoun

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Aprender sob ocupação militar: sobre mulheres e determinação

O acesso à educação de qualidade é um desafio em todos os países em desenvolvimento – é assim no Brasil, e aqui na Palestina não é diferente. Sob a ocupação militar, o maior obstáculo encontrado pelas crianças são os soldados que, diariamente, estão presentes em seu caminho para a escola. Muitas crianças enfrentam longas caminhadas perigosas ao longo das estradas, onde carros de colonos que moram em assentamentos ilegais aceleram, fingindo não ver os estudantes que estão tão vulneráveis a acidentes enquanto caminham. Mas o desafio de conseguir uma boa educação quando se trata de crianças com necessidades especiais é ainda maior.

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Ismael brinca de massinha. As crianças com deficiência são constantemente marginalizadas e privadas de seu direito à educação. Belém, EAPPI/Carolina B

Grande parte das crianças com deficiência não recebem a devida atenção e inclusão, sendo marginalizadas e impedidas de ter uma infância saudável. Em Belém, no campo de refugiados de ‘Aida, as mulheres têm um protagonismo importantíssimo em relação à isso: cansadas de esperar uma solução vinda da Autoridade Palestina ou da UNRWA (agência da ONU dedicada exclusivamente a atender os interesses de refugiados palestinos), um grupo de mães decidiu criar sua própria escola para crianças com deficiência.

Essas mães já sustentam um projeto de empoderamento feminino há seis anos, dando aulas de culinária tradicional palestina e abrigando estrangeiros em suas próprias casas. O grupo de empoderamento feminino Noor (que em árabe significa “luz”) foi idealizado por mulheres dos campos de ‘Aida e Al-Azza que têm filhos e filhas com necessidades especiais, juntamente com duas voluntárias estrangeiras. Atualmente, o projeto é mantido apenas pelas mulheres refugiadas, que surpreendem os turistas com pratos deliciosos, hospitalidade e histórias difíceis de serem digeridas.

Eu visitei a escola algumas vezes desde que cheguei aqui, e o aroma da cozinha invade a sala de aula, deixando uma atmosfera de risadas e fome.

Islam, uma das criadoras do projeto, tem seis filhos – e um deles, Mohamed, precisa de atenção e cuidado em tempo integral. “Muitas famílias têm vergonha de ter um filho deficiente, e o escondem dos outros. Eu e meus filhos sabemos que Mohamed é uma criança como qualquer outra, e meus filhos me ajudam a cuidar dele.” Islam narra como a ideia de inaugurar uma escola para as crianças dentro do campo de ‘Aida surgiu.

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Faixada da escola após a pintura. Belém, EAPPI/ Carolina B

Os centros para crianças com deficiência ficam muito longe do campo, são pagos e não fornecem transporte gratuito. As famílias precisam arcar com todos os custos, e nem sempre isso é possível. Além disso, os centros não têm capacidade para receber todas as crianças, alegando que não têm estrutura para cuidar de alguns casos mais graves. Há alguns meses, Islam decidiu, juntamente com outras mulheres, resolver o problema com seus próprios meios: ela cedeu um andar inteiro de sua casa para abrigar a escola recém-nascida. Porém, essa é uma medida temporária, pois o local não é acessível e adequado para ser uma escola que recebe cadeirantes. As ruas estreitas e esburacadas do campo não são muito diferentes das ruas do meu bairro em São Paulo, e as crianças precisam atravessá-las com cuidado, ou precisam de ajuda para cruzar o campo de cadeira de rodas.

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O campo de refugiados não é um lugar com acessibilidade adequada para pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção. EAPPI/ Carolina B

Eu fui convidada para participar de uma reunião entre as mulheres do Noor, juntamente com mães vindas de Hebron para ouvir as histórias das mães de ‘Aida e Al-Azza. Mais de 40 mulheres estavam reunidas, tomando café e compartilhando suas trajetórias e percepções de como é ter uma criança com deficiência sob a ocupação militar israelense.

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Reunião de mulheres de Hebron, ‘Aida e Al-Azza reuniu mais de 40 mães num emocionante encontro. Belém, EAPPI/ Carolina B

O protagonismo das mulheres transbordava nessa reunião, e eu senti algumas vezes um arrepio por estar presenciando algo tão especial. Sentir que nada irá impedir essas mulheres de realizar os sonhos que elas têm para a educação dos filhos, mesmo com todas as dificuldades de morar em um campo de refugiados, levou-me a refletir sobre a visão que muitas pessoas ainda têm das mulheres daqui. Independentemente da sua religião, já que são muçulmanas e cristãs, a inciativa delas para mudar a realidade atual está além das barreiras de nossos pré-conceitos em relação às mulheres palestinas.

Eu acompanhei uma manhã de aulas – a professora de árabe para crianças especiais, também chamada Islam, ensinava para seus alunos e alunas algumas palavras básicas, como papai, mamãe, irmão e irmã. Enquanto aprendiam, alguns deles desenhavam.

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Crianças desenham seus familiares entre muitas risadas e novas palavras. Belém, EAPPI/ Carolina B

Depois, com Saja, a fisioterapeuta, as crianças brincaram de massinha, modelando seus familiares com toda a criatividade do mundo.

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Após a aula de árabe, as crianças brincam de massinha, assitidas por Saja. Belém, EAPPI/Carolina B

Porém, ainda há outros desafios: além do salário das professoras, é preciso encontrar outro local para abrigar a escola, uma vez que a família de Islam cedeu a casa temporariamente. Além disso, o ideal seria encontrar um espaço com acessibilidade adequada, e não há verba para alugar um imóvel e reformá-lo. Os equipamentos para fisioterapia também ainda precisam ser comprados. O projeto agora está buscando financiamento estrangeiro para transformar essa inciativa numa escola que atenda todas as necessidades das crianças.

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No momento, a escola está funcionando na casa de Islam. As sessões de fisioterapia e as brincadeiras acontecem onde antes era a sala de estar, e as aulas de árabe são lecionadas em um dos antigos quartos. Belém, EAPPI/Carolina B

A iniciativa individual é necessária porque o direito das crianças especiais à educação não está sendo cumprido, mas a comunidade internacional não pode fechar os olhos frente a esse problema. Não fornecer educação adequada é uma violação grave aos direitos das crianças e pressionar as autoridades palestinas, assim como organizações internacionais, é essencial para mudar essa realidade.

Carolina B

EA do Grupo 62, Belém

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As raízes arrancadas de Wadi Fukin

Eu estava na estrada indo para Al Walaja quando um celular dentro do carro tocou. Era apenas 9h30 da manhã e, do outro lado da linha, uma voz decepcionada relatou um incidente no vilarejo de Wadi Fukin. Soldados das Forças de Defesa Israelenses, juntamente com funcionários da Administração Civil, haviam invadido uma área ao norte da vila, cortando cerca de 17 oliveiras centenárias e destruindo 0,02 km² de terra cultivável. De acordo com as autoridades israelenses, essa região é considerada como reserva natural e deve ser protegida. Mas talvez, para eles, as árvores cultivadas pelas famílias palestinas não se enquadrem sob essa proteção.

O vilarejo de Wadi Fukin está localizado no distrito de Belém, na Cisjordânia. Com aproximadamente 1300 habitantes, esta vila fica num vale com terras férteis, onde diariamente os moradores trabalham em suas plantações. Praticamente todas as famílias que aqui moram são de agricultores, que dependem da venda dos produtos para sua sobrevivência.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Agricultor trabalha em sua propriedade, ao sol do meio dia. – EAPPI/ Carolina B.

Na sua porção norte, está a fronteira entre Israel e Palestina, definida pelo armistício de 1949 (também conhecida como Linha Verde ou Green Line). A comunidade israelense Zur Hadassa está localizada após a fronteira, e o vilarejo costumava ter relações positivas com os moradores dessa cidade. Apesar de haver um trecho de muro de separação planejado para a região, até o momento não há uma barreira física entre terras palestinas e israelenses. Ao sul de Wadi Fukin, está o assentamento ilegal Beitar Illit. O impacto da presença de Beitar Illit vai muito além do que podemos imaginar à primeira vista. Ahmad Sokar, o prefeito, contou-me como a vida naquele vale silencioso mudou desde que a colônia foi construída sobre terras confiscadas do vilarejo. “Wadi Fukin sempre foi famoso pela produção agrícola mas, nos últimos 15 anos, Beitar Illit começou a despejar seu esgoto em canos que levam diretamente a nossas plantações. Isso comprometeu a reputação dos nossos produtos.” Com o solo contaminado pelo esgoto, a subsistência dos moradores ficou comprometida.

Ahmad também falou sobre as frequentes invasões que os colonos de Beitar Illit fazem na vila. “Às vezes, eles vêm apenas para nos intimidar com suas armas. Outras vezes, eles colocam fogo na terra, nadam em nossas piscinas agrícolas (tanques de água que são usados para irrigação), roubam coisas de nossas hortas ou destroem parte da plantação.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Parquinho do vilarejo, que tem uma ordem de demolição pelas autoridades israelenses. EAPPI/ Carolina B.

O único parquinho disponível para as crianças do vilarejo, que foi construído há 5 anos, tem uma ordem de demolição. Adel Hroub, ex-membro do conselho municipal, segura seu filho no colo e afirma que “em Beitar Illit, há cerca de 60 parquinhos, onde as crianças podem brincar. Aqui, temos apenas um, e não sabemos quanto tempo ele ainda vai durar.” Adel me levou para andar pelo vilarejo e ver algumas das obras para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, mas quase todas as obras receberam ordens para serem interrompidas, vindas da Administração Civil israelense. O motivo? A maior parte de Wadi Fukin está em território classificado como área C,na qual Israel detém o controle civil e militar. Os Acordos de Oslo, nos anos 90, dividiram a Cisjordânia em três tipos de área, de acordo com quem tem o controle de cada uma. A área A está sob controle da Autoridade Palestina, enquanto a área B está sob controle civil palestino e militar israelense. Atualmente, mais de 60% do território palestino na Cisjordânia é classificado como área C, o que impede que palestinos e palestinas façam uso de suas próprias terras sem antes conseguir uma permissão de Israel. Conseguir uma permissão para qualquer tipo de obra requer muita paciência, dinheiro – e quase sempre gera frustração, já que apenas 1% dos pedidos de permissão são aceitos. Sem opções, as famílias arriscam construir sem a permissão legal, correndo o risco de ter sua obra demolida a qualquer momento.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Campo de futebol quase finalizado, com uma ordem de demolição emitida recentemente. EAPPI/ Carolina B.

Andando pelos campos de oliveiras em direção ao sul da vila, há um campo de futebol quase finalizado. Adel disse que logo irão colocar a grama e o campo poderá ser utilizado pelos jovens e adultos, e que todos estão empolgados para jogar bola ali antes que o exército venha destruir a quadra. O campo de futebol também recebeu uma ordem de demolição antes mesmo de ser finalizado.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – A comunidade israelense Zur Hadassa se expande e avança a Linha Verde, ameaçando tomar mais terras do vilarejo.  EAPPI/ Carolina B.

Esta é minha segunda visita à Palestina ocupada, mas algumas cenas não deixam de impressionar. Vimos as oliveiras que foram arrancadas pelos tratores na manhã anterior, as raízes expostas ao ar. Ahmad me mostrou o vídeo da destruição das árvores e no rosto dos agricultores o olhar de perda. De certa forma, aquelas árvores eram uma parte da família deles, cuidadas ao longo de gerações, anualmente fornecendo milhares de azeitonas. Ao arrancar as raízes das oliveiras, um recado foi passado: são também as raízes que palestinos e palestinas têm naquela terra que estão sendo rompidas. Ao ver os campos queimados pelos colonos que invadem o vilarejo, eu enxerguei a tentativa de apagar as memórias daquelas famílias.

Enquanto estávamos em seu escritório, Ahmad me mostrou um mapa de planejamento para a região, elaborado pelas autoridades israelenses. Onde antes estavam as oliveiras, seria construída uma zona industrial e uma estrada para ligar Beitar Illit a Zur Hadassa.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Terras agrícolas queimadas pelos colonos durante invasões ao vilarejo. Ao fundo, o assentamento ilegal de Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ahmad não conseguiu esconder sua preocupação com o futuro do vilarejo enquanto me mostrava a expansão de Beitar Illit e de Zur Hadassa. “Não sabemos ainda se a única entrada para a vila será fechada quando a expansão da colônia e da comunidade e a construção da zona industrial forem finalizadas.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Expansão do assentamento ilegal Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ao deixar aquele vale encurralado por ocupantes ilegais, eu me perguntei se na minha próxima visita ainda existirá Wadi Fukin – ou se mais um vilarejo palestino será anexado a Israel e todas as raízes palestinas dali estarão expostas ao ar, como as oliveiras arrancadas.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Na prefeitura do vilarejo, algumas fotos mostram a luta dos moradores para salvar o futuro de Wadi Fukin – EAPPI/ Carolina B.

Mais informações:

https://electronicintifada.net/content/video-without-land-we-are-nothing/14774

http://english.wafa.ps/page.aspx?id=EUdHELa47753255022aEUdHEL

https://www.ochaopt.org/documents/opt_arij_vp_wadifukin.pdf

http://mondoweiss.net/2014/09/village-largest-israeli/

Referências:

www.ochaopt.org/location/area-c

http://data.ochaopt.org/vpp.aspx

Carolina B

EA do Grupo 62, Belém

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Narrativas únicas sobre a Palestina

Como narra a escritora Nigeriana Chimamanda Adichie, é muito comum que tenhamos histórias únicas sobre pessoas de outras culturas e sobre as situações que estas pessoas vivem. A escritora define o conceito de história única da melhor forma: “Show people as one thing over and over again, and that’s what they become” (Mostre as pessoas como uma única coisa repetidas vezes e elas se tornarão isso. Tradução livre). Essas histórias únicas limitam nossa compreensão crítica sobre a complexidade da experiência humana. Podem, inclusive, ser perigosas, na medida em que as utilizamos para justificar sentimentos como indiferença ou violência contra outras pessoas. A narrativa única que mais encontro sobre palestinos é a que mais é utilizada por muitas pessoas para que possam se manter indiferentes ao que acontece sob ocupação militar na Palestina: palestinos seriam muçulmanos fundamentalistas que não aceitam a presença de judeus e cristãos em suas terras e, em virtude de sua religião e intolerância, cometem ataques terroristas contra civis em Israel. Sob este pretexto, aceitam-se todas as violações de direitos humanos que acontecem nesse pequeno pedaço de terra do Oriente Médio. Esse discurso sobre a identidade dos palestinos é o que mais tenta-se combater dentro da Palestina. Desde que cheguei aqui, com muito humor e paciência, homens e mulheres palestinos se esforçam para desafiar esse conceito orientalista, como define Edward Said, trazido de fora e sustentado pela mídia tradicional.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Como Acompanhantes Ecumênicos na Palestina e Israel tivemos a oportunidade de encontrar diversas faces da complexa história de opressão e resistência que aqui se desenrola. A ocupação afeta as pessoas de formas diferentes e desiguais, provocando igualmente variadas reações aos traumas aqui sofridos. Encontrei palestinos que acreditam que “existir é resistir”, ou seja, que se manter aqui e tentar viver normalmente apesar da ocupação é uma forma de resistência a ela. Afinal, em suas opiniões sustentadas por todas as violações sistemáticas que sofrem, o objetivo final da ocupação seria expulsá-los de suas terras. Essas pessoas, através de organizações ou não, encontram formas de facilitar ao máximo a vida dos palestinos que acreditam nesta forma de resistência. Nunca deixarão suas terras, resistem. São guerreiros pacíficos e acreditam nesta forma de luta.

Encontramos também palestinos ativistas que atuam das mais variadas formas. Fazem protestos pacíficos nas ruas, auxiliam outros palestinos a trabalharem em suas terras mesmo contra a vontade dos colonos judeus e do governo israelense. Atiram pedras todas as sextas-feiras contra o muro de separação, bloqueiam estradas e fazem o máximo para dificultar a vida dos colonos ilegais quem vem roubar suas terras.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Encontramos pessoas que acham que a ocupação hoje em dia nem é um mal tão grande assim, que se pode viver normalmente com ela. Pessoas que, ao ouvirem histórias de estrangeiros sobre as dificuldades em outros países ou ao observarem a difícil situação que outros países árabes vivem, passam a acreditar que a ocupação os protege. Encontramos pessoas que têm orgulho de ter esta luta como objetivo de vida, pois estava previsto em algum lugar em suas escrituras sagradas. Encontramos também pessoas tão desesperadas e afetadas pela violência da ocupação que acabam reagindo também com violência.

E vidas se perdem. Contudo, poucas pessoas se perguntam por que a violência se perpetua. A história única que possuem já lhes dá a resposta pronta: são terroristas, são fundamentalistas, são violentos.

Outra história única que comumente ouço diz respeito à mulher palestina. É comum que feministas brasileiras digam que a luta das mulheres árabes contra o patriarcado é muito mais difícil que a nossa, em nossa sociedade ocidental tão mais desenvolvida – alto nível de ironia aqui. É muito comum que se associe o hijab à submissão, à fraqueza, quando comparada à liberdade da mulher brasileira em poder vestir-se da forma que quiser. Nenhum destes discursos aborda a complexidade de ser uma mulher vivendo em uma zona de conflito, vivendo sob ocupação militar. O discurso não atinge a dupla resistência diária dessas mulheres: contra a opressão de sua própria sociedade e a opressão que vem de fora.

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Belém EAPPI/Maira Peres

A noção de que as mulheres seriam as reprodutoras da nação, enquanto os homens seriam os protetores, acarreta a ideia de que as mulheres estão subordinadas ao heroísmo masculino. Na Palestina, existe a lenda de que a mulher também pode se tornar uma heroína ao dar o exemplo de coragem nas formas de reagir em momentos de caos ou de grande estresse, quando pessoas mais fracas sentem-se derrotadas e sem esperança. O papel da mulher na sociedade palestina sob ocupação está principalmente associado à manutenção da família, à criação de crianças fortes, à integração da comunidade. Mas na prática está relacionado à convivência diária com a violência proveniente da presença dos colonos judeus e dos militares israelenses nas mínimas ações do dia a dia, mas também na política interna e na economia. Sua existência e luta têm como base a afirmação da identidade palestina e de suas religiões, de suas práticas culturais, ao mesmo tempo em que se resiste a opressões internas  inerentes ao patriarcado.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Além disso, as mulheres palestinas sempre foram importantes no movimento de liberação da Palestina, como mostram histórias famosas como a de Leila Khaled. Somente em 2015, 291 mulheres de diferentes idades foram presas ou detidas por manifestações políticas, violentas ou não, contra a ocupação militar israelense (The Palestinian Center for Prisioner Studies – PCPS). Mulheres organizam protestos contra a ocupação, contra o próprio governo, lutam por seus direitos, criam organizações para dar suporte umas as outras, resistem.

Eu tinha uma história única sobre o que eu viria a viver aqui durante estes três meses do programa. Pensava que encontraria pessoas tristes e cansadas de uma ocupação que dura mais de 60 anos, fazendo com que já a terceira geração tenha nascido e crescido sob ela. Pensava que a única coisa que essas pessoas poderiam me ensinar era como existem sofrimentos maiores do que os meus próprios e o quão fúteis meus próprios problemas poderiam ser comparado aos deles. O que aprendi, na verdade, é que existe vida e amor sob ocupação. Existe luta e esperança, principalmente. Encontrei pessoas que cantam, apesar de ter que enfrentar as filas do checkpoint (postos de controle) todos os dias de manhã. Aprendi que não é preciso ser triste para lutar.

 Fonte: http://english.palinfo.com/site/pages/details.aspx?itemid=75941

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Maira Peres

EA do Grupo 59 em Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

Nabi Samwil

A comunidade de Nabi Samwil é uma pequena vila palestina que cresceu ao redor da tumba do Profeta Samuel. A tumba, uma mesquita e a vila dividiam o espaço do alto da montanha, nas cercanias de Jerusalém. Antes de 1967, cerca de 1.500 pessoas viviam na vila; até 2008, eram aproximadamente 3.000 moradores.

Com a criação do Estado de Israel, a região passou a ser cobiçada pelos judeus, para quem a figura do Profeta Samuel também é importante. Não demorou muito até que o exército israelense demolisse todas as casas ao redor da mesquita, que agora também é uma sinagoga.

A alegação do exército, segundo contam os moradores, foi de que as casas eram muito velhas e ofereciam riscos. No entanto, após a demolição, Israel não concedeu autorizações para que os palestinos pudessem construir, reformar, plantar ou criar animais na região. Ao contrário, deixou a área isolada, construiu um parque arqueológico, explorou turisticamente, usou parte do espaço da mesquita como sinagoga (inclusive a tumba do Profeta Samuel) e construiu um assentamento para israelenses no local.

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Nabi Samwil ©PAEPI/Mayara de Carvalho

Com a destruição da vila, parte considerável dos moradores migraram, a maioria deles para a Jordânia. Outra parte negou-se a abandonar o lar e construiu uma nova vila, sem permissão, no topo da mesma montanha, há poucos metros do local original, ao lado de onde hoje há o assentamento israelense.

A vida dos moradores é extremamente difícil. Eles vivem numa região de lama, em casas precárias, a maioria feita de estruturas metálicas, sem possibilidade de reforma-las e sem autorização para plantar, criar animais ou comercializar.

Além disso, com a construção dos muros em Jerusalém, a vila ficou sitiada. Os moradores não têm permissão de andar nas ruas do lado direito da montanha, que possuem livre e rápido acesso para o centro Jerusalém. Se são vistos andando do lado direito, os palestinos podem ser presos administrativamente, sem necessidade de processo judicial ou investigação criminal.

Ao andar do lado esquerdo da montanha, os moradores necessitam passar por checkpoints e não tem permissão para ir a Jerusalém. As pessoas da vila são numeradas e seu controle de identidade por Israel é feito através desses números. Caso queiram comprar algum bem ou comida, necessitam pedir autorização específica a Israel, informando a qualidade e quantidade do produto e provando que se trata de consumo pessoal. Essa permissão deve ser requisitada previamente e costuma demorar horas para se obter resposta.

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Nabi Samwil ©PAEPI/Mayara de Carvalho

A comunidade contou com doações de contêineres pela embaixada italiana e, neles, construiu uma escola para as crianças. Embora a escola tenha três diferentes séries, até 2014 todas as aulas dividiam o espaço de um só contêiner e aconteciam ao mesmo tempo. Com as novas doações, houve ampliação da escola e, hoje, as crianças tem salas diferentes.

A comunidade enfrenta alguns problemas de violência e intolerância por parte dos colonos israelenses que vivem na região, que algumas vezes chegam a atrapalhar as aulas ou invadir o espaço da escola. Atualmente, os contêineres da escola estão arrodeados por cercas com a finalidade de proteger as crianças.

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ProcessNabi Samwil ©PAEPI/Mayara de Carvalho

Apesar disso, nem todos os israelenses são hostis a essas famílias palestinas. Os moradores de Nabi Samwil costumam ter boa relação com os judeus ortodoxos que vivem em Jerusalém e que frequentam a vila para orar no espaço sagrado.

Com a guetificação e o apoio oferecido pelo Judiciário israelense à ocupação e destruição da vila, apenas 30 famílias resistem vivendo na região. Ainda assim, não sobrevivem apenas. Um bom exemplo disso foi a criação, pelas mulheres da comunidade, da Associação Feminista do Profeta Samuel, que oferece cursos, palestras, formações e espaços de convivência para as mulheres da vila.

Elas aprendem novas habilidades e criam oportunidades de arrecadar dinheiro para a vila. Dentre as iniciativas, as mulheres de Nabi Samwil fizeram formação em culinária e, desde então, oferecem jantares tipicamente palestinos para grupos de internacionais. Com isso, adquirem autonomia, valorizam a cultura e o desenvolvimento local e tentam contribuir para melhores perspectivas para o futuro da vila.

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EAPPI Team ©PAEPI/Mayara de Carvalho

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Mayara de Carvalho

EA do Grupo 59 em Jerusalém

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Jesus nasce em Hebron neste Natal, pelo EA Manoel

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Jesus nasceu e isso é simbolicamente forte para os cristãos. O nascimento de Jesus significa o nascimento do salvador, do redentor, aliás, poderia se afirmar que não há cristianismo sem Cristo e só há Cristo porque houve Jesus. Mas paradoxalmente esse nascimento acontece num contexto de deslocamento, de exílio. Conta a narrativa bíblica que José teve que voltar a Belém para o recenseamento (Luc, 2,4). Segundo o historiador Flavio Joséfo, o recenseamento era algo comum feito pelo império romano com diferentes finalidades: contar os homens, cobrar taxas e/ou jurar lealdade ao imperador. De qualquer forma era uma maneira de controlar o povo e a terra.  Isto é, José, o pai de Jesus foi obrigado a se locomover por causa de um programa de controle do império romano. E assim, o verbo se fez carne no filho de um refugiado que não tinha onde nascer e ao nascer teve que ser escondido no exílio. Que salvador é esse?

Maria foi uma das raras mães que não chorou a morte de seu filho pois o escondeu no exílio no Egito, Herodes mandou matar todos (Mat. 2.16). É natal na palestina e muitas mães têm que esconder seus filhos e filhas, outras choram a morte, enquanto outras ainda hoje pedem os corpos dos filhos/as mortos/as para lhes dar um último adeus, elas querem simplesmente o direito de chorar a morte dos seus filhos e sepultá-los como corresponde. Israel detém 23 corpos de palestinos mortos por eles mesmos. Quem tem o direito de tirar a vida de alguém? E ainda de não devolver os corpos as famílias?

Interior da tenda em que se reunem os familiares

Interior da tenda em que se reúnem os familiares ©PAEPI/Manoel Botelho

Entrada da tenda onde se reunem os familiares dos mortos que esperam os corposo

Entrada da tenda onde se reúnem os familiares dos mortos que esperam os corpos ©PAEPI/Manoel Botelho

Para as/os cristãs/cristãos o nascimento de Jesus tem sentido por causa da sua vida e morte, mas sua vida só foi possível enquanto filho de exilado. Nancy Cardoso disse: “Vou correr e chorar com eles, porque é lá, na periferia da ocupação do império e dos seus soldados que Deus vai escolher novamente a tornar-se humana e habitar entre nós.”[1] Não é no império, nem no poder que Jesus tem espaço, mas é na periferia, é entre os refugiados e exilados que ele se encontra. Aqueles que ocupam a terra são contrários a esse Jesus nascido em situação de exílio, aqueles que ocupam a terra não querem perder seu poder e para tanto precisam matar, inclusive matar as crianças. Nessa lógica, não importa nada além do poder, da autoridade, do controle. E pra a manutenção desse poder é necessário assumir que algumas vidas valem mais do que outras, pior do que isso, que algumas vidas não têm nenhum valor. E o anterior justifica e legitima os abusos e as mortes cometidas.

Depois de adulto, Jesus também mostrou uma clara opção pelo lado oposto do império. Ele era um sinal de constante contradição, a qual já tinha sido anunciada (Luc 2, 34). Durante sua vida chamou um samaritano –“estrangeiro impuro”– de próximo, conversou com mulheres consideradas “impuras”, trabalhou no sábado – porque se importou com a vida e não com as regras –, não julgou uma adúltera, e tantos outros gestos que mostram que Jesus nunca serviu aos interesses do império e nem quis satisfazer os anseios imperiais da sua própria religião. Esta postura de contestação e contradição lhe causaria perseguição e sua morte.

O nascimento e a vida de Jesus nos mostram que o império não se importa com as pessoas, sejam crianças, mulheres, jovens ou adultos, isto é, não lhe interessa a vida e sim manter o poder a qualquer preço. Por isto, há e sempre haverá duas opções no natal, ceder ao império e suas forças (às vezes é o caminho mais curto e fácil) mantendo assim alguns privilégios, ou se juntar a Jesus e seu caminho aparentemente contraditório de quebrar algumas regras imperiais em prol da vida.

Em qualquer lugar do mundo estamos diante dessas duas opções, o império ou a vida, e  principalmente a vida das vitimas do império. Aqui em Hebron não é muito diferente. As mães aqui choram não só a morte de seus filhos e filhas, mas cessam de chorar, pois não tem nem seus corpos para o funeral. Elas não podem enterrar seus filhos porque o império não quer devolver os corpos. Em Hebron o império dita as regras e as executa com seu poder, diz onde se pode andar, fecha casas, demole outras, controla o cotidiano e tira a paz.

professoras e criancas sendo revistadas para irem a escola

Professoras e crianças sendo revistadas para irem a escola ©PAEPI/Manoel Botelho

Diante disso, minha esperança é que nesse natal prevaleça a vida, que nesse natal Jesus nasça pra essas famílias, pra essas mães, irmãs, esposas, assim como pra esses pais, irmãos, amigos e amigas. Enfim, que Jesus nasça pra esse povo que sofre com os abusos do império, que o verbo se faça carne e habite de novo alí, no território ocupado, pois certamente Jesus não está com o Império, Jesus nasce em Hebron, em Belém, em Ramalah… Jesus nasce na Palestina.

[1]CARDOSO. Nancy ChristmasAlert 2015, Belém, Palestina: KairosPalestine. Tradução livre

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EA do Grupo 59 em Hebron

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