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Coordenação Nacional do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e Israel

VOZES QUE SE CRUZAM: uma poética da resistência nos territórios ocupados da Palestina

Quando se ouve a voz de Jibrin Al Baram, sabe-se instantaneamente que algo especial está sendo dito. Pastor de ovelhas de 52 anos, Jibrin vive na comunidade de Qawawis, incrustada em um dos morros de South Hebron Hills, região ao sul de Hebron, Palestina. Localizada na Área C[1] dos Territórios Ocupados Palestinos, portanto, sob o controle militar e administrativo de Israel, Qawawis é um dos motivos da presença do time de acompanhantes ecumênicos do EAPPI naquela região. A comunidade está circundada por colonatos judeus e são inúmeros os relatos de violência contra os palestinos. Este é, sem dúvida, o motivo da maioria das ligações recebidas pelo grupo 63, instalado na cidade de Yatta, província de Hebron. Mas existem outros: demolições, prisões, bloqueio de estradas pelo exército… Para Jibrin, entretanto, o perigo é maior. Sua tenda está isolada em um morro vizinho ao dos demais moradores, instalada em um declive há poucos metros da estrada que conduz ao colonato de Mitzpe Yair. Talvez por isso, sua fala esteja na fronteira entre o medo e a coragem.

“Aquele que luta pela humanidade vencerá sempre.” Assim ele nos recebe em sua tenda para um chá, e assim inicia sua fala. “Nunca vi um crime como esse, que nos tira dinheiro, tempo, ovelhas, que nos tira tudo.” Jibrin se refere aos ataques dos colonos. Devido à sua localização, ele sofre constantes ameaças enquanto pastoreia nas terras próximas ao colonato. Além disso, coleciona histórias de outros pastores e agricultores locais. Conta-nos de como Nael Khaled Abu Aram, outro pastor local, fora atacado e jogado ao chão, espancado a pau por dois colonos judeus enquanto pastorava suas ovelhas. Nael ficou gravemente ferido no braço, ombro e perna, e precisou passar sete meses em recuperação. Fez uma queixa e chegou a reconhecer um dos agressores dentre fotos de colonos mostradas pela polícia israelense, mas o processo não andou. Como a autoridade nesta área pertence a Israel, tudo flui em prejuízo dos palestinos.

Jibrin nasceu em uma caverna próxima à tenda onde mora hoje, a mesma caverna em que nascera seu pai. Nunca deixou sua terra, e nunca deixará, segundo afirma: “Para onde eu iria, para a Síria? Todos os palestinos lá estão morrendo”. Ele viu o primeiro colonato próximo a Qawawis ser fundado em 1983 (colonato de Susya), e os seguintes em 1998 (Mitzpe Yair) e 2001 (Avigayil). Em 2017 completa trinta e quatro anos, mais da metade de sua vida, de uma forçada convivência com judeus ortodoxos, em sua maioria, fundamentalistas que acreditam estarem tomando terras que lhe são suas por determinação divina. Na verdade, palestinos como os habitantes de Qawawis são os donos legais da terra e possuem os documentos de posse. Isso, entretanto, não impede a ação dos colonos, considerados ilegais pela Organização das Nações Unidas, mas encorajados pelo governo de Israel. Acostumado a viver e contar essas histórias aos acompanhantes ecumênicos e outras organizações internacionais, Jibrin desenvolveu uma maneira única de narrá-las e interpretá-las, uma espécie de abrigo pessoal para pensar a violência que presencia quase diariamente: “Imagine que alguém corta a minha garganta. Isso é uma coisa má. Mas se ao menos você contar [a minha história], em seus lábios, em seu coração, ela significará algo, será melhor que nada.” Essa é a sua forma de agradecer a nossa presença e pedir que espalhemos as suas palavras ao resto do mundo.

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Jibrin Al Baram, inconfundível com seu cachimbo enquanto pastoreia seu rebanho de ovelhas. Ao fundo, o colonato de Avigayil, um dos três próximos a Qwawis. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Ameaças semelhantes são as que nos levam à comunidade de Umm El Kheir. Esta se encontra lado a lado com o colonato de Karmel, do qual está separada apenas por uma cerca. Aqui, o problema mais frequente são as ordens de demolição. A comunidade já foi vítima de várias demolições, tendo a mais recente ocorrida há pouco mais de dois meses.[2] Recentemente, o grupo 63 atendeu a um chamado de Hamed Qasameh, o responsável pelas operações de campo da UN OHCHR na região sul da Palestina[3], para verificação, em Um El Kheir, do recebimento de doze stop work orders que proíbem obras de qualquer tipo em residências palestinas. Essas ordens são emitidas pela Administração Civil, sob comando de Israel. Segundo dados apresentados no site da organização B’Tselem, os palestinos estão proibidos de construir em cerca de 70% do território da área C.[4] Em Umm El Kheir,  apenas uma das ordens entregues abrange nove residências, entre tendas e casas da comunidade, sendo uma delas datada de vinte anos atrás, forçando uma família a viver por duas décadas sem manutenção em uma construção que já é extremamente precária. Na prática, essas ordens são um prenúncio de novas ordens de demolição que os moradores esperam receber em breve.

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Uma das “casas” sob ordem de demolição em Umm El Kheir. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Na comunidade, fomos recebidos por Ihmeed, um garoto de 19 anos, que nos guiou entre as tendas, apontando aquelas sob risco de demolição. De uma delas, sai uma mulher se lamentando. Ela traz a ordem que lhe foi entregue por soldados israelenses e pede que a fotografemos. Em seguida, senta-se em frente à sua casa e chora. “Esta é a minha mãe”, diz Ihmeed. Já sentados, enquanto nos oferece chá, Ihmeed nos conta como as ordens de demolição são entregues com um prazo de alguns dias para ser cumprida. Isso daria a opção aos moradores de demolirem eles mesmos as próprias tendas, em grande medida, uma tortura psicológica. Quando questionado sobre o que fará quando os tratores voltarem, Ihmeed não hesita em dizer: “Morarei debaixo desta pedra [sobre a qual conversávamos]. Eu não deixarei esta terra.”

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Ihmeed, 19 anos, morador de Umm El Kheir, relata à acompanhante ecumênica Liss B.-H como é viver sob a constante ameaça de ter sua casa demolida. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Jibrim e Ihmeed, 52 e 19 anos, em pontos opostos da vida, mas atravessados pelo mesmo sofrimento de viver sob ocupação, são a imagem daquilo que o filósofo Michel Onfray chama de “pensadores da existência”. Praticam uma filosofia prática, de enfrentamento na dor, de liberação da angústia e do medo que vivem constantemente. Trazem na fala uma espécie de poesia que só um povo oprimido é capaz de produzir. Tecem uma rede invisível de dizeres que lhe fazem resistir. Mais que isso, eles mostram que a Palestina não precisa de interlocutores, pois já tem uma voz própria. Precisa apenas ser ouvida. Isto nos leva à questão: qual o papel dos acompanhantes ecumênicos nessa luta? Qual a voz que nos cabe aqui?[5]

Estranha combinação de palavras esta: presença protetiva. Mistura de fragilidade e força, mas também de uma fina ironia. Proteger pela presença – como pensar possível esta ação se ao chegar dos tratores, se ao cercar dos soldados de Israel, tudo o que podemos fazer, nós, “internacionais”, é observar, esperar, escrever? Quando vieram pela primeira vez à comunidade de Umm El Kheir, e puseram suas casas no chão, de que serviu estarmos aqui? Quando vierem da próxima vez, que poderemos senão assistir? Talvez na espessura histórica da palavra resida uma resposta. No latim, praesentia,ae significa “presença, aparição dos deuses”. Seu uso data dos séculos XIII e XIV, quando o mundo latinizado – ocidental – dava os primeiros sinais de esgotamento, a fome e a peste grassavam, e as pessoas pediam o auxílio divino.[6] “Estar presente”, então, traz esta herança distante que liga Deus aos homens; é descer ao mais fraco, fazer-se igual, na fragilidade do outro, é afirmar-se humano. Ihmeed entretanto, dá-nos uma outra alternativa. Para ele, está claro o que viemos fazer.  Afinal, ao escutá-lo dizer: “Obrigado por estar aqui, por ver e levar ao mundo a nossa história”, papel e caneta ganham outro sentido.

[1] “Os acordos de Oslo firmado entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina, em 1933, dividiu a Cisjordânia em zonas distintas: A, B e C, sob diferentes jurisdições e níveis de controles entre elas.  A área A está sob total controle da Autoridade Palestina e consiste em áreas urbanas. Área B está sob controle civil palestino, e quanto à segurança, está compartilhada com Israel, constituindo, em grande parte, áreas rurais. A área C está sob total controle do poder militar e da Administração Civil Israelense.” Disponível em: https://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_area_c_factsheet_january_2013_english.pdf>. Acesso em: 11/12/2016.

[2] Ver http://www.taayush.org/?p=4270. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[3] Sigla para United Nations Office of the High Commissioner for Human Rights (UN OHCHR) in the Occupied Terriories in Palestine (oPt), a UN OHCHR é a voz das Nações Unidas nas questões de direitos humanos na Palestina.

[4] http://www.btselem.org/planning_and_building/restrictions_on_palestinian_planning_and_building. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[5] ONFRAY, Michel. Michel Onfray: a libertação na filosofia. In: http://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-onfray-a-libertacao-na-filosofia. Acesso em 21 de janeiro de 2017.

[6] HOUAISS, Antonio. Grande dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 2291.

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EA do Grupo 63, Yatta, South Hebron Hills.

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

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DEMOLINDO CASAS, ENGENHANDO SONHOS: famílias em cerco em Shi’B Al Butum

Quando amanhece na comunidade de Shi’B Al Butum, Sheadi, 5 anos, já está de pé ajudando os pais em tarefas como alimentar as ovelhas e acender o fogo para o chá. Ele e seus seis irmãos moram em uma tenda improvisada e isolada nas montanhas de South Hebron Hills. Em regiões como essa, dentro da área C dos territórios palestinos ocupados[1], sob o controle das forças israelenses, menos de 1% dos palestinos conseguem autorização para construir, e mesmo as tendas como a que abriga a família de Sheadi estão sob ordem de demolição.[2] Também condenadas estão as instalações em cavernas, pois nem todas as famílias das redondezas podem arcar com os custos de uma tenda ao ar livre, e abrigam-se debaixo da terra, dividindo grutas com seus rebanhos de ovelhas. Assim, quando entramos na caverna do tio de Sheadi, convidados para uma xícara de café, a gargalhada foi geral ao desejarmos boa noite – Masa ikher! – às ovelhas da casa.

Uma das tarefas do time de acompanhantes ecumênicos (AE) de South Hebron Hills, instalados em Yatta, Hebron, é fazer presença protetiva durante a noite quando requisitada – os sleep-overs. A grande maioria dos chamados se deve aos ataques dos colonos judeus. Desde 1967, os colonatos israelenses já somam quase 250 em todo o West Bank.[3] Considerados ilegais pela legislação internacional, essas pequenas vilas chegam a abrigar, apenas um deles, dezenas de milhares de judeus ortodoxos fundamentalistas, que se apossam de terras em território palestino, e passam a tornar impossível a vida de comunidades próximas, promovendo ataques – muitos andam armados e são protegidos pelo exército de Israel – e impedindo o acesso dos palestinos aos recursos naturais. Nos últimos meses, um caso especial vem sendo acompanhado pelo time de SHH: o de Mohammed Itzaq al Jabareen e sua família, residente em Shi’B Al Butum.

Mohammed afirma vir sofrendo assédio por parte de colonos e das forças de segurança israelenses. Em seu último telefonema, relatou a abordagem noturna efetuada por soldados, que revistaram sua tenda em busca de supostos “invasores” de um colonato próximo. Em outra ocasião, havia notado um grupo de colonos rondando sua tenda, armados e com um mapa em mãos, fazendo medições em seu terreno. E por aí vão outras formas de pressão psicológica. Seus efeitos são visíveis em seus filhos, incluindo Sheadi.

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A tenda de Mohammed e sua família ao anoitecer em Shi’B Al Butum. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

A única menina, Ahlean, 4 anos, traz os olhos quase sempre assustados, como carregasse neles a sombra de um fantasma. É preciso paciência para ver um sorriso romper sua face e lembrar que há ali uma criança – e cada minuto de espera vale a pena. Feadi, 6, é o mais adulto. Seu rosto é a cópia do pai, não apenas na aparência, mas em uma seriedade   precoce, uma gravidade nos olhos difícil de decifrar. Ahmmed, 3, o mais tímido. Sempre que possível, está perto do pai ou da mãe, buscando algum pedaço de abrigo. Há ainda os pequenos Iúsaf, 2, que ensaia os primeiros passos, tropeçando nos desvãos da caverna, e Teerek, pouco mais de 1 ano, quase sempre chorando nos braços de Arlean, ou embalado no berço por algum de seus irmãos. Sheadi é sem dúvida o mais inquieto, o primeiro a revistar as mochilas dos visitantes, testar seus óculos e perguntar os seus nomes. Nenhum lugar lhe basta, nenhuma resposta o silencia. Parece trazer no sangue o nomadismo dos beduínos traduzido em pequenos gestos de revolta, como fugir da escola quando há visita de médicos, ou tomar emprestada nossa lanterna para um passeio noturno fora da tenda.

Ensaf, sua mãe, consegue reunir todos em torno de si, e manter uma família onde poucos veriam possível um lar. É capaz de transformar um pequeno ato, como retirar o espinho preso no pé do pequeno Teerek, em uma grande operação que mobiliza todos ao redor: alguém traz a água para limpeza, outro segura lhe as pernas, um outro, os braços, enquanto mais um o distrai da dor fazendo caretas. Seu cuidado se estende para fora dos filhos, e, quando já estamos deitados para dormir, ela nos cobre, a cada um dos AE’s, com um cobertor extra, como fôssemos mais um dos seus. Termina por ser uma grande companheira para Mohammed, cujo semblante ao deixarmos sua tenda pela manhã revela a angústia de um pai que precisa trazer estranhos para dentro de casa para proteger a própria família.

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Mohammed, 27 anos, aquecendo-se ao fogo para o chá matinal. ©EAPPI/Leonardo V.

Antes de retornar à nossa base em Yatta, peço a Mohammed para tirar uma fotografia dele com os filhos. No momento da foto, um dos garotos sai rapidamente do quadro, enquanto um de seus filhos que passava perto corre para sentar-se ao seu lado. Só depois fico sabendo que o garoto desertor é na verdade filho de um outro morador local, e não queria aparecer na imagem de uma família que não é a sua. Não é possível compreender a resistência palestina sem ter em mente esse instinto de pertencimento, de saber qual o seu lugar.

Neste momento, Sheadi me flagra com a câmera em punho. Puxa-me pelo braço, busca algumas pedras, rearranja-as em torno de um objeto que encontra no chão e pede-me para fotografar, orgulhoso de sua obra. Por alguma magia de que só as crianças são capazes, ele parece perceber que na Palestina cada imagem pode ser a última. As paisagens aqui são atravessadas por múltiplas temporalidades. As montanhas revelam o peso de uma duração geológica, e sugerem o papel do olhar no despertar do desejo pela posse da terra, que está no centro de uma disputa milenar entre os povos desta região.

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A “Fortaleza de Sheadi”. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Por outro lado, nada está seguro do amanhã – veja-se o fato: apenas na área C, atualmente, há 1.134 ordens de demolição contra tendas, casas, cavernas e quaisquer outras instalações palestinas.[4] Dividindo a existência entre o eterno e o efêmero, os palestinos carregam o peso de um anacronismo particular. Disso, provém uma espessura política difícil de mensurar. Pois cada uma daquelas ordens judiciais traz em si a possibilidade de um novo enfrentamento entre os cidadãos palestinos e as forças israelenses, entre o passado e o presente.[5]

Na Escola de Shi’B al Butum, construída com a ajuda da União Europeia, o diretor Mohammed Jaber al Nawajah explica que Sheadi e seus irmãos têm dificuldades nos estudos. “São de uma família pobre, sofrem com os ataques dos colonos judeus, estão muito assustados.”[6] (À medida que fala, a obra de Sheadi começa a fazer sentido: uma fortaleza de pedra entorno do peito.) Nawajah mostra então uma carta redigida pelos alunos do quinto e sexto graus do ensino básico, na qual, entre outras coisas, falam do medo constante em viver sob ocupação, do desejo de viverem em segurança, com liberdade, e de terem uma profissão, e me aponta Sheadi como exemplo, dizendo: “Ele quer ser engenheiro – quer aprender a construir casas”. Nunca um sonho me pareceu tão justo.

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O futuro engenheiro Sheadi, e a serenidade no olhar de quem, contra todas as apostas, ainda não desaprendeu a sonhar. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

 

[1] “Os acordos de Oslo firmado entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina, em 1933, dividiu a Cisjordânia em zonas distintas: A, B e C, sob diferentes jurisdições e níveis de controles entre elas.  A área A está sob total controle da Autoridade Palestina e consiste em áreas urbanas. Área B está sob controle civil palestino, e quanto à segurança, está compartilhada com Israel, constituindo, em grande parte, áreas rurais. A área C está sob total controle do poder militar e da Administração Civil Israelense.” Disponível em: https://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_area_c_factsheet_january_2013_english.pdf>. Acesso em: 11/12/2016.

[2] Ver o relatório sobre as ordens de demolição na área C produzido pela OCHA – Office for the Coordination of Humanitarian Affairs, pertencente à ONU. Disponível em: http://www.ochaopt.org/content/under-threat-demolition-orders-area-c-west-bank.

[3] Dados disponíveis em: http://www.btselem.org/settlements/statistics. Acesso em 10/12/2016.

[4] Idem.

[5] Sobre anacronismo das imagens, ver DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.

[6] Entrevista com Mohammed Jaber al Nawajah diretor da Escola Básica de Shi’B Al Butum.

Leonardo V

EA do Grupo 63, Yatta, South Hebron Hills.

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

 Obrigada(o).

Entre concreto, choro e chá: demolição em Silwan – Jerusalém Oriental

Este artigo teve vários inícios. Um dos esboços contava como a estratégia política do Estado de Israel para seguir apropriando-se das terras dos/as palestinos/as se sustenta em um conjunto de técnicas operada por uma burocracia eficiente e por um dos exércitos mais poderosos do mundo. Entre estas políticas destaca-se: a construção dos muros, a restrição para se conseguir a autorização para a construção, o controle pelo exército da mobilidade dos/as palestinos/as em suas próprias terras, as prisões de crianças e adultos palestinos sem uma acusação formal, construção de assentamentos em terras palestinas.  No entanto, tudo que escrevi ficou sem sentido, sem alma, depois que conheci a família do senhor  Asma Shuikhe.

Ali, entre ferro, concreto e outros escombros estava a materialização, na esfera micro, da política tentacular do Estado de Israel. Com sua voz cansada e pausada, contou que às 3 da manhã, centenas de soldados da Forças de Defesa de Israel (IDF – Israel Defense Forces) fecharam a rua e, em pouco tempo, os 35 metros (uma expansão da casa original) foi destruída. A reforma tinha como objetivo dar mais conforto à sua família de 13 membros.

“Depois que eles terminaram a demolição, soldados entraram na minha casa [refere-se à parte da casa original, não demolida] com cachorros. Eu perguntei o que eles queriam. Um soldado respondeu: Eu faço o que eu quero!”

A família e vizinhos olhavam para os escombros como se estivessem velando um corpo de uma criatura amada. Não sobrou nada. A casa morreu. Algumas pessoas estavam em silêncio, outras evocam palavras e jogavam suas mãos para seus céus em um claro diálogo com Deus.

Enquanto conversávamos, um dos seus filhos nos oferecia chá.  O funeral de uma casa sonhada. De um lado os escombros, do outro, os poucos e pobres móveis que foram retiradas às pressas. Qual o motivo da demolição? A falta de autorização para a realização da obra.

A demolição desta casa não é “apenas” a demolição de uma casa. Conforme dito, há um conjunto de políticas eficazmente planejada para retirar as terras dos/as palestinos/as. O controle das construções é uma delas. Para se conseguir a autorização deve-se submeter um pedido a vários órgãos, nos termos de lei de planejamento e construção (Planning and Building, de 1965), que regula inteiramente o planejamento e construção em Israel, incluindo a Jerusalém Oriental[1]. Raramente uma família palestina consegue esta autorização, o processo pode levar anos e custa somas consideráveis.

De acordo com esta lei há, principalmente, três categorias de demolição realizada contra a casa ou outra estrutura: 1) punitiva; 2) necessidade militar; 3) judicial ou administrativa.[2]

As demolições por punição são realizadas nos termos do artigo 119 da Emergency Defense Regulations de 1945, em situações onde um ocupante da casa foi encontrado envolvido ou com suspeita de envolvimento em atos de violência contra o Estado de Israel. As autoridades militares também podem autorizar demolições, uma medida que, em certas circunstâncias, é permitida sob a internacional lei, mas é estritamente limitada nos casos de absoluta necessidade militar. De acordo com a lei de planejamento e construção, as demolições judiciais ou administrativas (as que acontecem com maior frequência), são realizadas nos casos onde a casa ou outra estrutura é construída sem a permissão. A demolição da casa daquela família que conheci naquela manhã, insere-se nesta categoria. Mas seria “apenas” a casa dele?

A família vive em Silwan Valley, na Jerusalém Oriental[3], área com aproximadamente 55.000 palestinos/as e 400 judeus/judias espalhados/as em vários assentamentos.[4] Cerca de 99% dos pedidos de permissão para construir ou reformar feitos por palestinos são negados. Ainda naquela manhã visitei outras duas construções que foram demolidas (um abrigo para animais – com o confisco do cavalo pelo Estado – e uma outra casa que abrigava 09 pessoas), todas na mesma área.[5]

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Jerusalém Oriental – Demolição em Silwan. ©EAPPI/Berenice B

Como em toda a Jerusalém Oriental, a infraestrutura nesta área é pobre, embora os/as palestinos/as sejam obrigados/as a pagar todos os impostos ao Estado de Israel. As ruas não têm asfalto de qualidade, a iluminação pública é precária e o lixo espalha-se por todas as partes.

Enquanto conversávamos, Sr. Asma Shuikhe me mostrava a incoerência da lei.

“Você está vendo aquela casa? A que tem uma bandeira de Israel? Ele é uma casa de um colono judeu. ” [Era uma casa de três andares que se destacava pela ostentação das outras da mesma rua.]

Continuou:

“Nós, palestinos, nunca conseguimos permissão para fazer nada em nossas casas. Gastamos muito dinheiro e nunca conseguimos. Israel quer expulsar todos nós. Como conseguir uma autorização para fazer reformas ou construir uma nova casa?”

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Jerusalém Oriental – Escombros da casa. ©EAPPI/Berenice B

Jerusalém Oriental é considerada território ocupado. Desta forma, a transferência de civis é proibida de acordo com o direito internacional humanitário.[6] Ainda de acordo com a internacional lei humanitária, uma ordem para expropriação de terra para ser legal, deve beneficiar a população local que está sob ocupação. No caso de Jerusalém Oriental, contudo, a vasta maioria de terras expropriadas, anteriormente propriedade de palestinos, foram para beneficiar os judeus israelenses.

Quando Sr. Asma Shuikhe afirma que o Estado de Israel quer expulsar os/as palestinos/as de suas terras, a demolição de sua casa passa a ter um sentido mais amplo e conecta-se com o projeto política mais amplo e tentacular. A aparente fragmentação desaparece e o que poderia ser interpretado apenas como uma questão de uma burocracia estatal perversa e eficiente, passa a ter outros sentidos.

[1] Todos os documentos para requerer autorização devem ser submetidos em hebraico. Para entender os mecanismos burocráticos necessários, ver: Fact sheet: applying for a building permit in East Jerusalem.  Norwegian Refugee Council (NRC), May, 2013.

[2] In: Information, counselling and legal assistence programme in the occupied Palestinian territory. Fact sheet: FAQS on mainn legal issues in East Jerusalem, May, 2013.

[3] Durante a guerra de 1948, Israel apoderou-se da área ocidental de Jerusalém. Em  junho de 1967,  Israel ocupou a Cisjordânia, incluindo a parte oriental de Jerusalém. De acordo com a lei de Israel, os palestinos de Jerusalém Oriental são considerados “residentes permanentes” e não cidadãos.

[4] Para acompanhar as demolições e prisões dos/as palestinos/as moradores/as desta área, ver: http://silwanic.net/?p=53269;

http://alt-arch.org/en/about-us/

[6] De acordo com o Statute of the International Criminal Court, esta prática também constitui um  crime de guerra em conflitos armados internacionais. Os assentamentos estabelecidos e expandidos em todo o território ocupado da Palestina, incluindo Jerusalém Oriental, tem sido repetidamente confirmado pelo Conselho de Segurança da UNO como ilegais.

 

Berenice B

EA do Grupo 63, Jerusalém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

 Obrigada(o).

A demolição pode vir a qualquer momento

Os Acompanhantes Ecumênicos na Palestina se dividem em seis times, em seis regiões diferentes da Cisjordânia ocupada. Cada região tem suas especificidades – alguns monitoram check points por onde passam os trabalhadores, outros acompanham crianças a caminho da escola, por exemplo. Mas há um tipo de incidente que tem se tornado cada vez mais comum em todas as regiões: as demolições levadas a cabo quase que diariamente pelas forças de segurança israelenses.

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Mapa Restricting Space in the OPT: Area C Map  UN/OCHA

Desde os Acordos de Oslo de 1993, o território da Cisjordânia ocupada foi dividido em três áreas: a Área A, que fica sob controle civil e securitário da Autoridade Palestina (AP); a área B, onde a AP lida com os assuntos civis mas os órgãos militares israelenses se encarregam da parte de segurança; e a área C, que fica totalmente sob controle do poder ocupante tanto em assuntos militares quanto civis, o que inclui planejamento urbano e concessão de permissões para qualquer tipo de construção. A área C corresponde a cerca de 60% do território da Cisjordânia, enquanto que 22,8% é área B (os centros dos vilarejos rurais) e apenas 17,2% é considerado área A (os centros urbanos) [1]. Como mostra o mapa do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA), a única área contígua da Cisjordânia é a C, enquanto que as áreas A e B são como ilhas de territórios mais ou menos autônomos. Toda a extensão das fronteiras, assim como as principais estradas, são controladas pelas forças israelenses.

Essa divisão deveria ser temporária e teoricamente tinha por objetivo facilitar a retirada gradual do exército israelense da Cisjordânia: dentro de cinco anos, a área C deveria ser considerada B e as áreas B deveriam virar A – mas isso nunca aconteceu.

Apesar de ser, hoje, irregular, essa divisão afeta a população palestina todos os dias, especialmente aqueles que vivem em área C. Eles são impedidos de construir novas casas ou abrigos para seus animais e até de reformar antigas estruturas sem antes conseguir permissão das autoridades israelenses. O processo para se candidatar a uma permissão é burocrático, demorado, caro, e mesmo assim é praticamente impossível que ela seja concedida [2]. Dessa forma, é muito comum que as famílias comecem a construir suas casas sem autorização. Nesses casos, as autoridades israelenses podem demolir as construções a qualquer momento.

Foi o que aconteceu com a comunidade beduína de Ein Ar-Rashash. Aqui, o alvo das demolições não eram nem sequer estruturas permanentes, mas tendas.

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Vilarejo beduíno de Ein Ar-Rashash, Nablus. EAPPI, EA Jade.

 

Todo o vilarejo foi demolido em fevereiro deste ano. Nos dias que se seguiram novas tendas foram providenciadas pela ONG Acted e em pouco tempo a comunidade se reergueu, mas desde então eles vivem sob constante ameaça de uma nova demolição. As 12 famílias que formam essa comunidade já tem um histórico de deslocamentos: antes da fundação do Estado de Israel em 1948, viviam no deserto do Negev; depois disso foram forçadas a se mudar para El-Khalil (Hebron), depois para os arredores de Jerusalém Oriental, para os arredores de Jericó e agora vivem aqui, em Ein Ar-Rashash, na região de Nablus, porção norte da Cisjordânia. Ao ser perguntado sobre o que espera do futuro, Ali Sahwahra responde:

“Que futuro? Estamos sitiados aqui. Não podemos ir a lugar nenhum porque cada vez mais terras na nossa volta viram assentamentos ou zonas de treinamento militar. Nem de noite temos descanso. Geralmente as pessoas dormem e descansam à noite, mas aqui, de noite ficamos ainda mais tensos. Dormimos ansiosos, de meia em meia hora, porque a qualquer momento o exército ou os colonos podem chegar e fazer o que quiserem conosco.”

O vilarejo beduíno de Al-Araqib oferece um exemplo extremo desse tipo de situação: no dia dois de novembro, a comunidade foi demolida pela 105ª vez desde 2010 – sendo que a penúltima demolição havia ocorrido menos de um mês antes, no dia 6 de outubro.  [veja as notícias aqui e aqui]

Segundo o artigo 53 da IV Convenção de Genebra, referente à proteção de civis em tempos de guerra e em territórios ocupados, é proibido ao poder ocupante destruir qualquer tipo de construção no território ocupado, exceto se absolutamente necessário para fins militares. Em casos como os dessas vilas beduínas, demolidas e reconstruídas incontáveis vezes, não fica claro que tipo de ameça as tendas, as famílias e os rebanhos representam à segurança do Estado de Israel. Mesmo assim, de tempos em tempos, as escavadeiras chegam e colocam tudo abaixo mais uma vez.

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Escombros de lojas demolidas em Beita. EAPPI, EA Jade.

 

Na verdade, nem é necessário que a construção seja considerada irregular para que seja demolida. A cidade de Beita, na região de Nablus, é majoritariamente área B, o que significa que é necessário apenas conseguir permissão das autoridades palestinas para construir. Na madrugada do dia três de novembro, três lojas foram demolidas pelas forças militares israelenses. Os terrenos são de propriedade privada e estavam sendo alugados com permissão da prefeitura de Beita. Mohammed A., dono de uma dessas lojas, trabalha com alguns familiares e a renda do negócio sustenta suas respectivas famílias, o que soma cerca de 60 pessoas. Mohammed nos conta que recebeu a ordem de demolição há um ano e meio, e desde então já havia tomado medidas legais por meio de um advogado, alegando que o terreno estava em área B e a construção estava regularizada – esforço em vão.

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Mohammed A., à esquerda, sobre um viga em meio aos escombros. EAPPI, EA Jade.

Apesar das dificuldades e do sentimento permanente de insegurança, a vida segue em frente sob a ocupação militar. No dia seguinte à demolição, Mohammed e alguns familiares já se empenhavam na reconstrução das estruturas que haviam sido destruídas.

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População atingida trabalha para reconstruir as lojas demolidas, Beita. EAPPI, EA Jade.

A política de demolições executada por Israel é ilegal do ponto de vista do direito internacional em mais de um aspecto, pois contraria a IV Convenção de Genebra e se baseia em um mecanismo criado para ser temporário, que deveria ter acabado em 1998. Para a população palestina, é um beco sem saída: não é possível construir na maior parte das terras, e, mesmo nos vilarejos onde deveria ser possível, as forças israelenses podem demolir sem restrições. A sensação de vulnerabilidade é permanente, mas a população resiste a cada vez que decide reerguer suas casas, suas lojas, os abrigos de seus animais. Por aqui, existir é resistir.

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[1] Norwegian Refugee Council Training Manual (2015): Housing, Land and Property in the West Bank, Area C. pg. 18

[2] Norwegian Refugee Council Training Manual (2015): Housing, Land and Property in the West Bank, Area C. pg. 32-22

 

Jade

EA do Grupo 62, Yanoun

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com

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Assentamentos, Muro e invasões do exército afetam Tulkarm e Qalqiliya

Ao norte da Cisjordânia, próximas do Mar Mediterrâneo, cidades palestinas sofrem com a construção do Muro de Separação e cotidianas violações de direitos humanos

 

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Mapa da Cisjordânia ocupada

Tulkarm é uma cidade palestina localizada ao norte da Cisjordânia ocupada e está apenas 14km distante do mar Mediterrâneo. Em dias de céu limpo, é possível ver o mar a oeste, na direção da cidade de Netanya, em Israel. Hoje, para ir até a praia, os palestinos sob ocupação precisam de autorização prévia do governo israelense. “Antes, eram 10 minutos para ir ao mar. Agora, todo mundo em Tulkarm está triste. Podemos ver o mar, mas não podemos ir. Temos as montanhas agora”, diz um palestino.

Após a guerra de 1948 e a criação do Estado de Israel,muitos dos refugiados expulsos das áreas de Jaffa e Haifa, por exemplo, foram morar no campo de Tulkarm, o terceiro mais populoso da Cisjordânia. Lá, 21.500 pessoas vivem em uma área menor que 1km². Outro campo é o Nur Shams, com 10.500 habitantes. Contando com os dois campos de refugiados, a população de Tulkarm chega a 161.000 pessoas.

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Acompanhantes visitam campo de Nur Shams, Tulkarm. EAPPI, Danielle.

Mesmo situada em área A, com controle militar e civil palestino, o exército israelense faz incursões frequentes na cidade de Tulkarm. A barreira de separação construída por Israel tem 38 quilômetros e afetou a economia da cidade devido à drástica redução de tráfego de pessoas e mercadorias entre a cidade e o território israelense.

Majoritariamente agrícola, a cidade também sofre com a restrição de acesso dos fazendeiros às terras que estão do outro lado do muro. Alguns perderam terrenos com a construção da barreira, enquanto outros têm dificuldade para obter a autorização necessária para acessar suas propriedades. Entretanto, aqueles que têm os documentos enfrentam sérias questões, como o horário restrito de abertura dos portões agrícolas, sua mudança repentina sem aviso prévio e conduta individual dos soldados, bastante instável.

Alguns portões, por exemplo, ficam abertos por apenas 30 minutos. Quando os soldados se atrasam, por vezes não incluem tempo adicional para deixar o portão aberto. No portão agrícola chamado Far’un, por exemplo, o horário de abertura é das 6h até 6h30. Certa manhã, os soldados chegaram às 6h15 e fecharam o portão às 6h30, deixando apenas 15 minutos para a travessia de trabalhadores e veículos.

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Muro de separação, Qalqiliya. EAPPI, Danielle.

 

Outra questão importante na área de Tulkarm são as fábricas de produtos químicos e seu impacto ambiental. O caso mais evidente é o da fábrica Geshuri, que foi fechada em Israel em 1984 devido à poluição que causava e simplesmente reaberta em território palestino. Fayez Taneeb tem sua fazenda ao lado da fábrica e viu sua propriedade ser modificada nos últimos anos com a indústria e a construção do muro. Ele perdeu mais da metade de suas terras com a implantação da barreira israelense, que cerca três lados de sua fazenda.

Outro efeito da fábrica é a poluição do ar, que causa diversos problemas de saúde na população de Tulkarm, conforme aponta um estudo feito em 2013. Segundo a revista científica Lancet, há mais casos de câncer, asma e doenças respiratórias entre residentes de Tulkarm do que em outros distritos.

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Qalqiliya, uma cidade ao sul de Tulkarm,  tambem será profundamente afetada com a construção de 93 quilômetros de barreira de separação, já anunciados por Israel, de forma a incorporar e “proteger” os diversos assentamentos construídos em território palestino. Além disso, a companhia multinacional de água do país ocupante, Mekorot, explora vários poços da região, que compõem os aquíferos da Cisjordânia.

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Cidade de Qalqiliya, murada.

A construção do Muro de Separação em Qalqiliya deixou algumas vilas na então chamada “seam zone“,  um dos vários tipos de “closed military zones”[1] impostas na Cisjordânia, localizada entre a Linha Verde (armistício de 49) e a barreira em si [2]. Comunidades beduínas como Arab Abu Farda e Arab ar Ramadin Al Janubi se encontram hoje cercadas por assentamentos e pelo muro. Diariamente, as crianças que estudam em uma escola em Habla (veja o mapa abaixo) têm que cruzar um portão agrícola de mesmo nome. Este é um dos lugares mais problemáticos monitorados pelos Acompanhantes Ecumênicos internacionais, que trabalham tentando garantir o direito dos palestinos à educação e ao acesso a sua própria terra, posto diariamente em cheque.

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A construção de assentamentos na região aumenta a presença dos militares israelenses em várias vilas de Qalqiliya. Azzun, por exemplo, sofre com frequentes incursões noturnas do exército. “Isso é normal aqui. Acontece quase todo dia”, disse uma jovem de 17 anos.

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Casa invadida pelo exército de Israel, Azzun. EAPPI, Isabelle.

Na madrugada de 27 de outubro, por exemplo, 15 casas foram invadidas por militares e cinco jovens entre 19 e 26 anos foram presos. As ações foram semelhantes: ao entrar, os soldados reúnem a família em um cômodo, com exceção do suspeito, enquanto vasculham o resto da casa. Em quatro das cinco casas visitadas por EA’s, o cenário era de destruição. E duas das famílias disseram ouvir os gritos de seus filhos sendo espancados. “Eu chorei e gritei para ajudar o meu filho, mas eles me empurraram de volta para o quarto”, afirma a mãe de um dos detidos. Em uma das casas, os soldados simplesmente perguntaram se a família tinha um filho, sem ao menos saber o nome de quem supostamente procuravam.

Nesta incursão especificamente, segundo relatos, os militares estavam particularmente interessados em obter informações sobre as mulheres e crianças. Em uma das famílias, a irmã do detido foi submetida a revista conduzida por soldadas mulheres. Outra família relatou que as três filhas foram levadas sozinhas a um dos quartos para serem revistadas por mulheres. As meninas de 9 e 12 anos foram obrigadas a tirar a camiseta e calça, e a filha mais velha, de 18 anos, teve que se despir completamente. Elas também disseram que as militares colocaram um cachorro dentro do quarto, levando o animal pra fora apenas porque elas choraram muito.

Dias depois da detenção, a família de um dos jovens levados ainda não tem informação sobre seu paradeiro. Na semana seguinte a esta incursão, o exército voltou a Azzun, fechando a entrada da cidade e utilizando bombas de som e de gás lacrimogêneo.

É esse o cotidiano por aqui.

 

[1] Para mais informações sobre as restrições impostas aos moradores que vivem em terras declaradas “seam zones“, ver relatório de HAMOKED – Center for the Defence of Individual (março, 2003): The Permit Regime Human Rights Violations in West Bank Areas Known as the “Seam Zone”.
[2] Seam zone, ou “zona de costura“, consiste na área localizada entre a chamada “Green Line”, que é a linha de armistício estabelecida em 1949, após o fim da guerra que levou à criação do Estado de Israel e o deslocamento de cerca de 700 mil palestinos. Em muitas regiões, Israel desenhou a rota da barreira de separação de forma que ela adentrasse território palestino, alegando motivos de “segurança”. A organização não-governamental israelense B’Tselem, em relatório que pode ser lido neste link , contesta tal justificativa e afirma que “uma das razões prioritárias para a escolha de algumas das seções da rota da Barreira é estabelecer certas áreas para expansão de assentamento no lado “israelense” da Barreira”. Quando concluída, a barreira de separação terá 712km, mais que o dobro da linha estabelecida em 1949.

Danielle

EA do Grupo 62, Tulkarm

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com

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Aprender sob ocupação militar: sobre mulheres e determinação

O acesso à educação de qualidade é um desafio em todos os países em desenvolvimento – é assim no Brasil, e aqui na Palestina não é diferente. Sob a ocupação militar, o maior obstáculo encontrado pelas crianças são os soldados que, diariamente, estão presentes em seu caminho para a escola. Muitas crianças enfrentam longas caminhadas perigosas ao longo das estradas, onde carros de colonos que moram em assentamentos ilegais aceleram, fingindo não ver os estudantes que estão tão vulneráveis a acidentes enquanto caminham. Mas o desafio de conseguir uma boa educação quando se trata de crianças com necessidades especiais é ainda maior.

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Ismael brinca de massinha. As crianças com deficiência são constantemente marginalizadas e privadas de seu direito à educação. Belém, EAPPI/Carolina B

Grande parte das crianças com deficiência não recebem a devida atenção e inclusão, sendo marginalizadas e impedidas de ter uma infância saudável. Em Belém, no campo de refugiados de ‘Aida, as mulheres têm um protagonismo importantíssimo em relação à isso: cansadas de esperar uma solução vinda da Autoridade Palestina ou da UNRWA (agência da ONU dedicada exclusivamente a atender os interesses de refugiados palestinos), um grupo de mães decidiu criar sua própria escola para crianças com deficiência.

Essas mães já sustentam um projeto de empoderamento feminino há seis anos, dando aulas de culinária tradicional palestina e abrigando estrangeiros em suas próprias casas. O grupo de empoderamento feminino Noor (que em árabe significa “luz”) foi idealizado por mulheres dos campos de ‘Aida e Al-Azza que têm filhos e filhas com necessidades especiais, juntamente com duas voluntárias estrangeiras. Atualmente, o projeto é mantido apenas pelas mulheres refugiadas, que surpreendem os turistas com pratos deliciosos, hospitalidade e histórias difíceis de serem digeridas.

Eu visitei a escola algumas vezes desde que cheguei aqui, e o aroma da cozinha invade a sala de aula, deixando uma atmosfera de risadas e fome.

Islam, uma das criadoras do projeto, tem seis filhos – e um deles, Mohamed, precisa de atenção e cuidado em tempo integral. “Muitas famílias têm vergonha de ter um filho deficiente, e o escondem dos outros. Eu e meus filhos sabemos que Mohamed é uma criança como qualquer outra, e meus filhos me ajudam a cuidar dele.” Islam narra como a ideia de inaugurar uma escola para as crianças dentro do campo de ‘Aida surgiu.

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Faixada da escola após a pintura. Belém, EAPPI/ Carolina B

Os centros para crianças com deficiência ficam muito longe do campo, são pagos e não fornecem transporte gratuito. As famílias precisam arcar com todos os custos, e nem sempre isso é possível. Além disso, os centros não têm capacidade para receber todas as crianças, alegando que não têm estrutura para cuidar de alguns casos mais graves. Há alguns meses, Islam decidiu, juntamente com outras mulheres, resolver o problema com seus próprios meios: ela cedeu um andar inteiro de sua casa para abrigar a escola recém-nascida. Porém, essa é uma medida temporária, pois o local não é acessível e adequado para ser uma escola que recebe cadeirantes. As ruas estreitas e esburacadas do campo não são muito diferentes das ruas do meu bairro em São Paulo, e as crianças precisam atravessá-las com cuidado, ou precisam de ajuda para cruzar o campo de cadeira de rodas.

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O campo de refugiados não é um lugar com acessibilidade adequada para pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção. EAPPI/ Carolina B

Eu fui convidada para participar de uma reunião entre as mulheres do Noor, juntamente com mães vindas de Hebron para ouvir as histórias das mães de ‘Aida e Al-Azza. Mais de 40 mulheres estavam reunidas, tomando café e compartilhando suas trajetórias e percepções de como é ter uma criança com deficiência sob a ocupação militar israelense.

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Reunião de mulheres de Hebron, ‘Aida e Al-Azza reuniu mais de 40 mães num emocionante encontro. Belém, EAPPI/ Carolina B

O protagonismo das mulheres transbordava nessa reunião, e eu senti algumas vezes um arrepio por estar presenciando algo tão especial. Sentir que nada irá impedir essas mulheres de realizar os sonhos que elas têm para a educação dos filhos, mesmo com todas as dificuldades de morar em um campo de refugiados, levou-me a refletir sobre a visão que muitas pessoas ainda têm das mulheres daqui. Independentemente da sua religião, já que são muçulmanas e cristãs, a inciativa delas para mudar a realidade atual está além das barreiras de nossos pré-conceitos em relação às mulheres palestinas.

Eu acompanhei uma manhã de aulas – a professora de árabe para crianças especiais, também chamada Islam, ensinava para seus alunos e alunas algumas palavras básicas, como papai, mamãe, irmão e irmã. Enquanto aprendiam, alguns deles desenhavam.

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Crianças desenham seus familiares entre muitas risadas e novas palavras. Belém, EAPPI/ Carolina B

Depois, com Saja, a fisioterapeuta, as crianças brincaram de massinha, modelando seus familiares com toda a criatividade do mundo.

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Após a aula de árabe, as crianças brincam de massinha, assitidas por Saja. Belém, EAPPI/Carolina B

Porém, ainda há outros desafios: além do salário das professoras, é preciso encontrar outro local para abrigar a escola, uma vez que a família de Islam cedeu a casa temporariamente. Além disso, o ideal seria encontrar um espaço com acessibilidade adequada, e não há verba para alugar um imóvel e reformá-lo. Os equipamentos para fisioterapia também ainda precisam ser comprados. O projeto agora está buscando financiamento estrangeiro para transformar essa inciativa numa escola que atenda todas as necessidades das crianças.

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No momento, a escola está funcionando na casa de Islam. As sessões de fisioterapia e as brincadeiras acontecem onde antes era a sala de estar, e as aulas de árabe são lecionadas em um dos antigos quartos. Belém, EAPPI/Carolina B

A iniciativa individual é necessária porque o direito das crianças especiais à educação não está sendo cumprido, mas a comunidade internacional não pode fechar os olhos frente a esse problema. Não fornecer educação adequada é uma violação grave aos direitos das crianças e pressionar as autoridades palestinas, assim como organizações internacionais, é essencial para mudar essa realidade.

Carolina B

EA do Grupo 62, Belém

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Documentos palestinos não são garantia de acesso às suas terras

Por volta das seis horas, o pastor Ibrahim aguarda pacientemente com seu rebanho do lado de fora da longa cerca de arame farpado em Akkaba, uma pequena vila na região de Tulkarm, no norte da Cisjordânia. Ao levar suas ovelhas para pastar do outro lado da cerca, ele deve atravessar um portão controlado por soldados israelenses, que irão checar sua identidade e o documento que lhe permite a travessia. Mesmo tendo uma autorização válida para a semana toda, Ibrahim pode acessar sua terra apenas nos dias e horários em que as autoridades israelenses abrem o portão agrícola.

Os portões agrícolas são parte da paisagem desta área e apenas um dentre os resultados da barreira de separação entre Israel e a Cisjordânia. Segundo estimativa da Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas, ao terem seus 712 km finalizados, os muros e cercas colocarão cerca de 9,4% de território palestino no lado israelense da divisão. Por isso, os donos dessas terras precisam de autorização para acessá-las, sempre sob a vigilância de soldados ou policiais.

O esquema de segurança estabelecido transforma o acesso às propriedades e fonte de renda de muitos palestinos em algo complexo e restrito. Em Akkaba, por exemplo, o portão agrícola fica aberto entre 6h e 6h30, quando os soldados o fecham novamente. Durante à tarde, eles retornam para abri-la e permitir que os trabalhadores voltem para o lado palestino. Há relatos de horas de atrasos na abertura das portas, e não há nada que as pessoas possam fazer, a não ser esperar, como fez Ibrahim.

20-10-2016-_tulkarm-qalqiliya-shephard-goes-to-the-akkaba-gate-eappi_l-jensen– Tulkarm-Qalqiliya, Pastor caminha em direção ao portão de Akkaba. EAPPI/L. Jensen

A temporada da colheita das oliveiras começou e o movimento na porta agrícola é maior. Assim, ele aguardou que todos atravessassem primeiro para que pudesse passar com seu rebanho facilmente, sem tratores ou carroças no caminho dos animais. Eram 6h29 quando se dirigiu ao portão, em uma caminhada de cerca de 20 metros. Ao chegar, um dos soldados não permitiu sua entrada, dizendo que ele estava um minuto atrasado. Rindo, fechou o portão sem ouvir o que o pastor argumentava. Ibrahim retornou desolado – a posse de documentação não é garantia absoluta de acesso à terra do outro lado da barreira, já que a permissão pode depender do comportamento e humor do soldado que está no comando. Infelizmente, não é incomum que soldados apresentem razões variadas para negar o acesso de palestinos às suas terras.

20-10-2016-_tulkarm-qalqiliya-shephard-is-refused-at-the-akkaba-gate-eappi_l-jensenTulkarm-Qalqiliya, Pastor de ovelha tem sua entrada negada no portão Akkaba – EAPPI/L. Jensen

Alguns dos portões agrícolas também são ponto de passagem para palestinos que vão trabalhar em Israel. Por terem que iniciar a jornada de trabalho muito cedo, muitos chegam aos portões agrícolas horas antes de sua abertura para garantir que sejam os primeiros da fila. Em Sal’it, porta agrícola localizada muito próxima de um assentamento, várias pessoas chegam por volta das 3h da manhã e dormem em colchões no chão, ou dentro dos veículos, enquanto esperam. Cobertores e outros utensílios são deixados no local para que sejam utilizados no dia seguinte. Mais uma vez, seu retorno depende do horário em que o portão será aberto à tarde. “Vocês deveriam vir aqui todos os dias para ver o nosso sofrimento. No inverno eles demoram muito para abrir o portão, e às vezes ficamos 3 ou 4 horas esperando lá dentro”, disse um dos homens que aguardavam na fila.

26-09-2016-_tulkarm-qalqiliya-matress-at-salit-agricultural-gate-workser-sleep-there-whilst-waiting-danielle-af-2-Tulkarm-Qalqiliya, colchão próximo ao portão agrícola de Sal’it  (trabalhador dorme enquanto espera abertura dos portões). EAPPI/Danielle F

Em outro portão agrícola, Attil, dezenas de homens aguardam os soldados israelenses no escuro. Alguns à luz de uma fogueira, sentados no chão, conversam enquanto bebem café. Outros ainda dormem dentro de pequenos caminhões e a fila só aumenta com a chegada de tratores e carroças. Ao abrirem a porta, os soldados examinam um pequeno caminhão e autorizam sua passagem. Entretanto, o comandante decide que o material não é permitido e recusa a entrada. “Eles já haviam checado tudo e não havia problema. São horas de trabalho que eu perco, é dinheiro que eu vou perder. Isso me prejudica muito”, diz o dono do veículo.

Minutos depois, outro trabalhador é enviado de volta. Ao cruzar o portão, um dos soldados o cumprimenta com um aperto de mão, dizendo “salam” – paz. Ao ver a cena, um Palestino comenta “dessa vez eles recusaram a entrada dele, mas com apoio emocional”.

Danielle F

EA do Grupo 62, Tulkarm

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