VOZES QUE SE CRUZAM: uma poética da resistência nos territórios ocupados da Palestina

Quando se ouve a voz de Jibrin Al Baram, sabe-se instantaneamente que algo especial está sendo dito. Pastor de ovelhas de 52 anos, Jibrin vive na comunidade de Qawawis, incrustada em um dos morros de South Hebron Hills, região ao sul de Hebron, Palestina. Localizada na Área C[1] dos Territórios Ocupados Palestinos, portanto, sob o controle militar e administrativo de Israel, Qawawis é um dos motivos da presença do time de acompanhantes ecumênicos do EAPPI naquela região. A comunidade está circundada por colonatos judeus e são inúmeros os relatos de violência contra os palestinos. Este é, sem dúvida, o motivo da maioria das ligações recebidas pelo grupo 63, instalado na cidade de Yatta, província de Hebron. Mas existem outros: demolições, prisões, bloqueio de estradas pelo exército… Para Jibrin, entretanto, o perigo é maior. Sua tenda está isolada em um morro vizinho ao dos demais moradores, instalada em um declive há poucos metros da estrada que conduz ao colonato de Mitzpe Yair. Talvez por isso, sua fala esteja na fronteira entre o medo e a coragem.

“Aquele que luta pela humanidade vencerá sempre.” Assim ele nos recebe em sua tenda para um chá, e assim inicia sua fala. “Nunca vi um crime como esse, que nos tira dinheiro, tempo, ovelhas, que nos tira tudo.” Jibrin se refere aos ataques dos colonos. Devido à sua localização, ele sofre constantes ameaças enquanto pastoreia nas terras próximas ao colonato. Além disso, coleciona histórias de outros pastores e agricultores locais. Conta-nos de como Nael Khaled Abu Aram, outro pastor local, fora atacado e jogado ao chão, espancado a pau por dois colonos judeus enquanto pastorava suas ovelhas. Nael ficou gravemente ferido no braço, ombro e perna, e precisou passar sete meses em recuperação. Fez uma queixa e chegou a reconhecer um dos agressores dentre fotos de colonos mostradas pela polícia israelense, mas o processo não andou. Como a autoridade nesta área pertence a Israel, tudo flui em prejuízo dos palestinos.

Jibrin nasceu em uma caverna próxima à tenda onde mora hoje, a mesma caverna em que nascera seu pai. Nunca deixou sua terra, e nunca deixará, segundo afirma: “Para onde eu iria, para a Síria? Todos os palestinos lá estão morrendo”. Ele viu o primeiro colonato próximo a Qawawis ser fundado em 1983 (colonato de Susya), e os seguintes em 1998 (Mitzpe Yair) e 2001 (Avigayil). Em 2017 completa trinta e quatro anos, mais da metade de sua vida, de uma forçada convivência com judeus ortodoxos, em sua maioria, fundamentalistas que acreditam estarem tomando terras que lhe são suas por determinação divina. Na verdade, palestinos como os habitantes de Qawawis são os donos legais da terra e possuem os documentos de posse. Isso, entretanto, não impede a ação dos colonos, considerados ilegais pela Organização das Nações Unidas, mas encorajados pelo governo de Israel. Acostumado a viver e contar essas histórias aos acompanhantes ecumênicos e outras organizações internacionais, Jibrin desenvolveu uma maneira única de narrá-las e interpretá-las, uma espécie de abrigo pessoal para pensar a violência que presencia quase diariamente: “Imagine que alguém corta a minha garganta. Isso é uma coisa má. Mas se ao menos você contar [a minha história], em seus lábios, em seu coração, ela significará algo, será melhor que nada.” Essa é a sua forma de agradecer a nossa presença e pedir que espalhemos as suas palavras ao resto do mundo.

cachimbo

Jibrin Al Baram, inconfundível com seu cachimbo enquanto pastoreia seu rebanho de ovelhas. Ao fundo, o colonato de Avigayil, um dos três próximos a Qwawis. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Ameaças semelhantes são as que nos levam à comunidade de Umm El Kheir. Esta se encontra lado a lado com o colonato de Karmel, do qual está separada apenas por uma cerca. Aqui, o problema mais frequente são as ordens de demolição. A comunidade já foi vítima de várias demolições, tendo a mais recente ocorrida há pouco mais de dois meses.[2] Recentemente, o grupo 63 atendeu a um chamado de Hamed Qasameh, o responsável pelas operações de campo da UN OHCHR na região sul da Palestina[3], para verificação, em Um El Kheir, do recebimento de doze stop work orders que proíbem obras de qualquer tipo em residências palestinas. Essas ordens são emitidas pela Administração Civil, sob comando de Israel. Segundo dados apresentados no site da organização B’Tselem, os palestinos estão proibidos de construir em cerca de 70% do território da área C.[4] Em Umm El Kheir,  apenas uma das ordens entregues abrange nove residências, entre tendas e casas da comunidade, sendo uma delas datada de vinte anos atrás, forçando uma família a viver por duas décadas sem manutenção em uma construção que já é extremamente precária. Na prática, essas ordens são um prenúncio de novas ordens de demolição que os moradores esperam receber em breve.

cabana

Uma das “casas” sob ordem de demolição em Umm El Kheir. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Na comunidade, fomos recebidos por Ihmeed, um garoto de 19 anos, que nos guiou entre as tendas, apontando aquelas sob risco de demolição. De uma delas, sai uma mulher se lamentando. Ela traz a ordem que lhe foi entregue por soldados israelenses e pede que a fotografemos. Em seguida, senta-se em frente à sua casa e chora. “Esta é a minha mãe”, diz Ihmeed. Já sentados, enquanto nos oferece chá, Ihmeed nos conta como as ordens de demolição são entregues com um prazo de alguns dias para ser cumprida. Isso daria a opção aos moradores de demolirem eles mesmos as próprias tendas, em grande medida, uma tortura psicológica. Quando questionado sobre o que fará quando os tratores voltarem, Ihmeed não hesita em dizer: “Morarei debaixo desta pedra [sobre a qual conversávamos]. Eu não deixarei esta terra.”

ea-entrevistando

Ihmeed, 19 anos, morador de Umm El Kheir, relata à acompanhante ecumênica Liss B.-H como é viver sob a constante ameaça de ter sua casa demolida. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Jibrim e Ihmeed, 52 e 19 anos, em pontos opostos da vida, mas atravessados pelo mesmo sofrimento de viver sob ocupação, são a imagem daquilo que o filósofo Michel Onfray chama de “pensadores da existência”. Praticam uma filosofia prática, de enfrentamento na dor, de liberação da angústia e do medo que vivem constantemente. Trazem na fala uma espécie de poesia que só um povo oprimido é capaz de produzir. Tecem uma rede invisível de dizeres que lhe fazem resistir. Mais que isso, eles mostram que a Palestina não precisa de interlocutores, pois já tem uma voz própria. Precisa apenas ser ouvida. Isto nos leva à questão: qual o papel dos acompanhantes ecumênicos nessa luta? Qual a voz que nos cabe aqui?[5]

Estranha combinação de palavras esta: presença protetiva. Mistura de fragilidade e força, mas também de uma fina ironia. Proteger pela presença – como pensar possível esta ação se ao chegar dos tratores, se ao cercar dos soldados de Israel, tudo o que podemos fazer, nós, “internacionais”, é observar, esperar, escrever? Quando vieram pela primeira vez à comunidade de Umm El Kheir, e puseram suas casas no chão, de que serviu estarmos aqui? Quando vierem da próxima vez, que poderemos senão assistir? Talvez na espessura histórica da palavra resida uma resposta. No latim, praesentia,ae significa “presença, aparição dos deuses”. Seu uso data dos séculos XIII e XIV, quando o mundo latinizado – ocidental – dava os primeiros sinais de esgotamento, a fome e a peste grassavam, e as pessoas pediam o auxílio divino.[6] “Estar presente”, então, traz esta herança distante que liga Deus aos homens; é descer ao mais fraco, fazer-se igual, na fragilidade do outro, é afirmar-se humano. Ihmeed entretanto, dá-nos uma outra alternativa. Para ele, está claro o que viemos fazer.  Afinal, ao escutá-lo dizer: “Obrigado por estar aqui, por ver e levar ao mundo a nossa história”, papel e caneta ganham outro sentido.

[1] “Os acordos de Oslo firmado entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina, em 1933, dividiu a Cisjordânia em zonas distintas: A, B e C, sob diferentes jurisdições e níveis de controles entre elas.  A área A está sob total controle da Autoridade Palestina e consiste em áreas urbanas. Área B está sob controle civil palestino, e quanto à segurança, está compartilhada com Israel, constituindo, em grande parte, áreas rurais. A área C está sob total controle do poder militar e da Administração Civil Israelense.” Disponível em: https://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_area_c_factsheet_january_2013_english.pdf>. Acesso em: 11/12/2016.

[2] Ver http://www.taayush.org/?p=4270. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[3] Sigla para United Nations Office of the High Commissioner for Human Rights (UN OHCHR) in the Occupied Terriories in Palestine (oPt), a UN OHCHR é a voz das Nações Unidas nas questões de direitos humanos na Palestina.

[4] http://www.btselem.org/planning_and_building/restrictions_on_palestinian_planning_and_building. Acesso em 22 de janeiro de 2017.

[5] ONFRAY, Michel. Michel Onfray: a libertação na filosofia. In: http://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-onfray-a-libertacao-na-filosofia. Acesso em 21 de janeiro de 2017.

[6] HOUAISS, Antonio. Grande dicionário Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 2291.

Leonardo V

EA do Grupo 63, Yatta, South Hebron Hills.

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

 Obrigada(o).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s