DEMOLINDO CASAS, ENGENHANDO SONHOS: famílias em cerco em Shi’B Al Butum

Quando amanhece na comunidade de Shi’B Al Butum, Sheadi, 5 anos, já está de pé ajudando os pais em tarefas como alimentar as ovelhas e acender o fogo para o chá. Ele e seus seis irmãos moram em uma tenda improvisada e isolada nas montanhas de South Hebron Hills. Em regiões como essa, dentro da área C dos territórios palestinos ocupados[1], sob o controle das forças israelenses, menos de 1% dos palestinos conseguem autorização para construir, e mesmo as tendas como a que abriga a família de Sheadi estão sob ordem de demolição.[2] Também condenadas estão as instalações em cavernas, pois nem todas as famílias das redondezas podem arcar com os custos de uma tenda ao ar livre, e abrigam-se debaixo da terra, dividindo grutas com seus rebanhos de ovelhas. Assim, quando entramos na caverna do tio de Sheadi, convidados para uma xícara de café, a gargalhada foi geral ao desejarmos boa noite – Masa ikher! – às ovelhas da casa.

Uma das tarefas do time de acompanhantes ecumênicos (AE) de South Hebron Hills, instalados em Yatta, Hebron, é fazer presença protetiva durante a noite quando requisitada – os sleep-overs. A grande maioria dos chamados se deve aos ataques dos colonos judeus. Desde 1967, os colonatos israelenses já somam quase 250 em todo o West Bank.[3] Considerados ilegais pela legislação internacional, essas pequenas vilas chegam a abrigar, apenas um deles, dezenas de milhares de judeus ortodoxos fundamentalistas, que se apossam de terras em território palestino, e passam a tornar impossível a vida de comunidades próximas, promovendo ataques – muitos andam armados e são protegidos pelo exército de Israel – e impedindo o acesso dos palestinos aos recursos naturais. Nos últimos meses, um caso especial vem sendo acompanhado pelo time de SHH: o de Mohammed Itzaq al Jabareen e sua família, residente em Shi’B Al Butum.

Mohammed afirma vir sofrendo assédio por parte de colonos e das forças de segurança israelenses. Em seu último telefonema, relatou a abordagem noturna efetuada por soldados, que revistaram sua tenda em busca de supostos “invasores” de um colonato próximo. Em outra ocasião, havia notado um grupo de colonos rondando sua tenda, armados e com um mapa em mãos, fazendo medições em seu terreno. E por aí vão outras formas de pressão psicológica. Seus efeitos são visíveis em seus filhos, incluindo Sheadi.

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A tenda de Mohammed e sua família ao anoitecer em Shi’B Al Butum. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

A única menina, Ahlean, 4 anos, traz os olhos quase sempre assustados, como carregasse neles a sombra de um fantasma. É preciso paciência para ver um sorriso romper sua face e lembrar que há ali uma criança – e cada minuto de espera vale a pena. Feadi, 6, é o mais adulto. Seu rosto é a cópia do pai, não apenas na aparência, mas em uma seriedade   precoce, uma gravidade nos olhos difícil de decifrar. Ahmmed, 3, o mais tímido. Sempre que possível, está perto do pai ou da mãe, buscando algum pedaço de abrigo. Há ainda os pequenos Iúsaf, 2, que ensaia os primeiros passos, tropeçando nos desvãos da caverna, e Teerek, pouco mais de 1 ano, quase sempre chorando nos braços de Arlean, ou embalado no berço por algum de seus irmãos. Sheadi é sem dúvida o mais inquieto, o primeiro a revistar as mochilas dos visitantes, testar seus óculos e perguntar os seus nomes. Nenhum lugar lhe basta, nenhuma resposta o silencia. Parece trazer no sangue o nomadismo dos beduínos traduzido em pequenos gestos de revolta, como fugir da escola quando há visita de médicos, ou tomar emprestada nossa lanterna para um passeio noturno fora da tenda.

Ensaf, sua mãe, consegue reunir todos em torno de si, e manter uma família onde poucos veriam possível um lar. É capaz de transformar um pequeno ato, como retirar o espinho preso no pé do pequeno Teerek, em uma grande operação que mobiliza todos ao redor: alguém traz a água para limpeza, outro segura lhe as pernas, um outro, os braços, enquanto mais um o distrai da dor fazendo caretas. Seu cuidado se estende para fora dos filhos, e, quando já estamos deitados para dormir, ela nos cobre, a cada um dos AE’s, com um cobertor extra, como fôssemos mais um dos seus. Termina por ser uma grande companheira para Mohammed, cujo semblante ao deixarmos sua tenda pela manhã revela a angústia de um pai que precisa trazer estranhos para dentro de casa para proteger a própria família.

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Mohammed, 27 anos, aquecendo-se ao fogo para o chá matinal. ©EAPPI/Leonardo V.

Antes de retornar à nossa base em Yatta, peço a Mohammed para tirar uma fotografia dele com os filhos. No momento da foto, um dos garotos sai rapidamente do quadro, enquanto um de seus filhos que passava perto corre para sentar-se ao seu lado. Só depois fico sabendo que o garoto desertor é na verdade filho de um outro morador local, e não queria aparecer na imagem de uma família que não é a sua. Não é possível compreender a resistência palestina sem ter em mente esse instinto de pertencimento, de saber qual o seu lugar.

Neste momento, Sheadi me flagra com a câmera em punho. Puxa-me pelo braço, busca algumas pedras, rearranja-as em torno de um objeto que encontra no chão e pede-me para fotografar, orgulhoso de sua obra. Por alguma magia de que só as crianças são capazes, ele parece perceber que na Palestina cada imagem pode ser a última. As paisagens aqui são atravessadas por múltiplas temporalidades. As montanhas revelam o peso de uma duração geológica, e sugerem o papel do olhar no despertar do desejo pela posse da terra, que está no centro de uma disputa milenar entre os povos desta região.

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A “Fortaleza de Sheadi”. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

Por outro lado, nada está seguro do amanhã – veja-se o fato: apenas na área C, atualmente, há 1.134 ordens de demolição contra tendas, casas, cavernas e quaisquer outras instalações palestinas.[4] Dividindo a existência entre o eterno e o efêmero, os palestinos carregam o peso de um anacronismo particular. Disso, provém uma espessura política difícil de mensurar. Pois cada uma daquelas ordens judiciais traz em si a possibilidade de um novo enfrentamento entre os cidadãos palestinos e as forças israelenses, entre o passado e o presente.[5]

Na Escola de Shi’B al Butum, construída com a ajuda da União Europeia, o diretor Mohammed Jaber al Nawajah explica que Sheadi e seus irmãos têm dificuldades nos estudos. “São de uma família pobre, sofrem com os ataques dos colonos judeus, estão muito assustados.”[6] (À medida que fala, a obra de Sheadi começa a fazer sentido: uma fortaleza de pedra entorno do peito.) Nawajah mostra então uma carta redigida pelos alunos do quinto e sexto graus do ensino básico, na qual, entre outras coisas, falam do medo constante em viver sob ocupação, do desejo de viverem em segurança, com liberdade, e de terem uma profissão, e me aponta Sheadi como exemplo, dizendo: “Ele quer ser engenheiro – quer aprender a construir casas”. Nunca um sonho me pareceu tão justo.

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O futuro engenheiro Sheadi, e a serenidade no olhar de quem, contra todas as apostas, ainda não desaprendeu a sonhar. Yatta, ©EAPPI/Leonardo V.

 

[1] “Os acordos de Oslo firmado entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina, em 1933, dividiu a Cisjordânia em zonas distintas: A, B e C, sob diferentes jurisdições e níveis de controles entre elas.  A área A está sob total controle da Autoridade Palestina e consiste em áreas urbanas. Área B está sob controle civil palestino, e quanto à segurança, está compartilhada com Israel, constituindo, em grande parte, áreas rurais. A área C está sob total controle do poder militar e da Administração Civil Israelense.” Disponível em: https://www.ochaopt.org/documents/ocha_opt_area_c_factsheet_january_2013_english.pdf>. Acesso em: 11/12/2016.

[2] Ver o relatório sobre as ordens de demolição na área C produzido pela OCHA – Office for the Coordination of Humanitarian Affairs, pertencente à ONU. Disponível em: http://www.ochaopt.org/content/under-threat-demolition-orders-area-c-west-bank.

[3] Dados disponíveis em: http://www.btselem.org/settlements/statistics. Acesso em 10/12/2016.

[4] Idem.

[5] Sobre anacronismo das imagens, ver DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.

[6] Entrevista com Mohammed Jaber al Nawajah diretor da Escola Básica de Shi’B Al Butum.

Leonardo V

EA do Grupo 63, Yatta, South Hebron Hills.

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

 Obrigada(o).

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Entre concreto, choro e chá: demolição em Silwan – Jerusalém Oriental

Este artigo teve vários inícios. Um dos esboços contava como a estratégia política do Estado de Israel para seguir apropriando-se das terras dos/as palestinos/as se sustenta em um conjunto de técnicas operada por uma burocracia eficiente e por um dos exércitos mais poderosos do mundo. Entre estas políticas destaca-se: a construção dos muros, a restrição para se conseguir a autorização para a construção, o controle pelo exército da mobilidade dos/as palestinos/as em suas próprias terras, as prisões de crianças e adultos palestinos sem uma acusação formal, construção de assentamentos em terras palestinas.  No entanto, tudo que escrevi ficou sem sentido, sem alma, depois que conheci a família do senhor  Asma Shuikhe.

Ali, entre ferro, concreto e outros escombros estava a materialização, na esfera micro, da política tentacular do Estado de Israel. Com sua voz cansada e pausada, contou que às 3 da manhã, centenas de soldados da Forças de Defesa de Israel (IDF – Israel Defense Forces) fecharam a rua e, em pouco tempo, os 35 metros (uma expansão da casa original) foi destruída. A reforma tinha como objetivo dar mais conforto à sua família de 13 membros.

“Depois que eles terminaram a demolição, soldados entraram na minha casa [refere-se à parte da casa original, não demolida] com cachorros. Eu perguntei o que eles queriam. Um soldado respondeu: Eu faço o que eu quero!”

A família e vizinhos olhavam para os escombros como se estivessem velando um corpo de uma criatura amada. Não sobrou nada. A casa morreu. Algumas pessoas estavam em silêncio, outras evocam palavras e jogavam suas mãos para seus céus em um claro diálogo com Deus.

Enquanto conversávamos, um dos seus filhos nos oferecia chá.  O funeral de uma casa sonhada. De um lado os escombros, do outro, os poucos e pobres móveis que foram retiradas às pressas. Qual o motivo da demolição? A falta de autorização para a realização da obra.

A demolição desta casa não é “apenas” a demolição de uma casa. Conforme dito, há um conjunto de políticas eficazmente planejada para retirar as terras dos/as palestinos/as. O controle das construções é uma delas. Para se conseguir a autorização deve-se submeter um pedido a vários órgãos, nos termos de lei de planejamento e construção (Planning and Building, de 1965), que regula inteiramente o planejamento e construção em Israel, incluindo a Jerusalém Oriental[1]. Raramente uma família palestina consegue esta autorização, o processo pode levar anos e custa somas consideráveis.

De acordo com esta lei há, principalmente, três categorias de demolição realizada contra a casa ou outra estrutura: 1) punitiva; 2) necessidade militar; 3) judicial ou administrativa.[2]

As demolições por punição são realizadas nos termos do artigo 119 da Emergency Defense Regulations de 1945, em situações onde um ocupante da casa foi encontrado envolvido ou com suspeita de envolvimento em atos de violência contra o Estado de Israel. As autoridades militares também podem autorizar demolições, uma medida que, em certas circunstâncias, é permitida sob a internacional lei, mas é estritamente limitada nos casos de absoluta necessidade militar. De acordo com a lei de planejamento e construção, as demolições judiciais ou administrativas (as que acontecem com maior frequência), são realizadas nos casos onde a casa ou outra estrutura é construída sem a permissão. A demolição da casa daquela família que conheci naquela manhã, insere-se nesta categoria. Mas seria “apenas” a casa dele?

A família vive em Silwan Valley, na Jerusalém Oriental[3], área com aproximadamente 55.000 palestinos/as e 400 judeus/judias espalhados/as em vários assentamentos.[4] Cerca de 99% dos pedidos de permissão para construir ou reformar feitos por palestinos são negados. Ainda naquela manhã visitei outras duas construções que foram demolidas (um abrigo para animais – com o confisco do cavalo pelo Estado – e uma outra casa que abrigava 09 pessoas), todas na mesma área.[5]

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Jerusalém Oriental – Demolição em Silwan. ©EAPPI/Berenice B

Como em toda a Jerusalém Oriental, a infraestrutura nesta área é pobre, embora os/as palestinos/as sejam obrigados/as a pagar todos os impostos ao Estado de Israel. As ruas não têm asfalto de qualidade, a iluminação pública é precária e o lixo espalha-se por todas as partes.

Enquanto conversávamos, Sr. Asma Shuikhe me mostrava a incoerência da lei.

“Você está vendo aquela casa? A que tem uma bandeira de Israel? Ele é uma casa de um colono judeu. ” [Era uma casa de três andares que se destacava pela ostentação das outras da mesma rua.]

Continuou:

“Nós, palestinos, nunca conseguimos permissão para fazer nada em nossas casas. Gastamos muito dinheiro e nunca conseguimos. Israel quer expulsar todos nós. Como conseguir uma autorização para fazer reformas ou construir uma nova casa?”

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Jerusalém Oriental – Escombros da casa. ©EAPPI/Berenice B

Jerusalém Oriental é considerada território ocupado. Desta forma, a transferência de civis é proibida de acordo com o direito internacional humanitário.[6] Ainda de acordo com a internacional lei humanitária, uma ordem para expropriação de terra para ser legal, deve beneficiar a população local que está sob ocupação. No caso de Jerusalém Oriental, contudo, a vasta maioria de terras expropriadas, anteriormente propriedade de palestinos, foram para beneficiar os judeus israelenses.

Quando Sr. Asma Shuikhe afirma que o Estado de Israel quer expulsar os/as palestinos/as de suas terras, a demolição de sua casa passa a ter um sentido mais amplo e conecta-se com o projeto política mais amplo e tentacular. A aparente fragmentação desaparece e o que poderia ser interpretado apenas como uma questão de uma burocracia estatal perversa e eficiente, passa a ter outros sentidos.

[1] Todos os documentos para requerer autorização devem ser submetidos em hebraico. Para entender os mecanismos burocráticos necessários, ver: Fact sheet: applying for a building permit in East Jerusalem.  Norwegian Refugee Council (NRC), May, 2013.

[2] In: Information, counselling and legal assistence programme in the occupied Palestinian territory. Fact sheet: FAQS on mainn legal issues in East Jerusalem, May, 2013.

[3] Durante a guerra de 1948, Israel apoderou-se da área ocidental de Jerusalém. Em  junho de 1967,  Israel ocupou a Cisjordânia, incluindo a parte oriental de Jerusalém. De acordo com a lei de Israel, os palestinos de Jerusalém Oriental são considerados “residentes permanentes” e não cidadãos.

[4] Para acompanhar as demolições e prisões dos/as palestinos/as moradores/as desta área, ver: http://silwanic.net/?p=53269;

http://alt-arch.org/en/about-us/

[6] De acordo com o Statute of the International Criminal Court, esta prática também constitui um  crime de guerra em conflitos armados internacionais. Os assentamentos estabelecidos e expandidos em todo o território ocupado da Palestina, incluindo Jerusalém Oriental, tem sido repetidamente confirmado pelo Conselho de Segurança da UNO como ilegais.

 

Berenice B

EA do Grupo 63, Jerusalém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

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