As raízes arrancadas de Wadi Fukin

Eu estava na estrada indo para Al Walaja quando um celular dentro do carro tocou. Era apenas 9h30 da manhã e, do outro lado da linha, uma voz decepcionada relatou um incidente no vilarejo de Wadi Fukin. Soldados das Forças de Defesa Israelenses, juntamente com funcionários da Administração Civil, haviam invadido uma área ao norte da vila, cortando cerca de 17 oliveiras centenárias e destruindo 0,02 km² de terra cultivável. De acordo com as autoridades israelenses, essa região é considerada como reserva natural e deve ser protegida. Mas talvez, para eles, as árvores cultivadas pelas famílias palestinas não se enquadrem sob essa proteção.

O vilarejo de Wadi Fukin está localizado no distrito de Belém, na Cisjordânia. Com aproximadamente 1300 habitantes, esta vila fica num vale com terras férteis, onde diariamente os moradores trabalham em suas plantações. Praticamente todas as famílias que aqui moram são de agricultores, que dependem da venda dos produtos para sua sobrevivência.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Agricultor trabalha em sua propriedade, ao sol do meio dia. – EAPPI/ Carolina B.

Na sua porção norte, está a fronteira entre Israel e Palestina, definida pelo armistício de 1949 (também conhecida como Linha Verde ou Green Line). A comunidade israelense Zur Hadassa está localizada após a fronteira, e o vilarejo costumava ter relações positivas com os moradores dessa cidade. Apesar de haver um trecho de muro de separação planejado para a região, até o momento não há uma barreira física entre terras palestinas e israelenses. Ao sul de Wadi Fukin, está o assentamento ilegal Beitar Illit. O impacto da presença de Beitar Illit vai muito além do que podemos imaginar à primeira vista. Ahmad Sokar, o prefeito, contou-me como a vida naquele vale silencioso mudou desde que a colônia foi construída sobre terras confiscadas do vilarejo. “Wadi Fukin sempre foi famoso pela produção agrícola mas, nos últimos 15 anos, Beitar Illit começou a despejar seu esgoto em canos que levam diretamente a nossas plantações. Isso comprometeu a reputação dos nossos produtos.” Com o solo contaminado pelo esgoto, a subsistência dos moradores ficou comprometida.

Ahmad também falou sobre as frequentes invasões que os colonos de Beitar Illit fazem na vila. “Às vezes, eles vêm apenas para nos intimidar com suas armas. Outras vezes, eles colocam fogo na terra, nadam em nossas piscinas agrícolas (tanques de água que são usados para irrigação), roubam coisas de nossas hortas ou destroem parte da plantação.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Parquinho do vilarejo, que tem uma ordem de demolição pelas autoridades israelenses. EAPPI/ Carolina B.

O único parquinho disponível para as crianças do vilarejo, que foi construído há 5 anos, tem uma ordem de demolição. Adel Hroub, ex-membro do conselho municipal, segura seu filho no colo e afirma que “em Beitar Illit, há cerca de 60 parquinhos, onde as crianças podem brincar. Aqui, temos apenas um, e não sabemos quanto tempo ele ainda vai durar.” Adel me levou para andar pelo vilarejo e ver algumas das obras para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, mas quase todas as obras receberam ordens para serem interrompidas, vindas da Administração Civil israelense. O motivo? A maior parte de Wadi Fukin está em território classificado como área C,na qual Israel detém o controle civil e militar. Os Acordos de Oslo, nos anos 90, dividiram a Cisjordânia em três tipos de área, de acordo com quem tem o controle de cada uma. A área A está sob controle da Autoridade Palestina, enquanto a área B está sob controle civil palestino e militar israelense. Atualmente, mais de 60% do território palestino na Cisjordânia é classificado como área C, o que impede que palestinos e palestinas façam uso de suas próprias terras sem antes conseguir uma permissão de Israel. Conseguir uma permissão para qualquer tipo de obra requer muita paciência, dinheiro – e quase sempre gera frustração, já que apenas 1% dos pedidos de permissão são aceitos. Sem opções, as famílias arriscam construir sem a permissão legal, correndo o risco de ter sua obra demolida a qualquer momento.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Campo de futebol quase finalizado, com uma ordem de demolição emitida recentemente. EAPPI/ Carolina B.

Andando pelos campos de oliveiras em direção ao sul da vila, há um campo de futebol quase finalizado. Adel disse que logo irão colocar a grama e o campo poderá ser utilizado pelos jovens e adultos, e que todos estão empolgados para jogar bola ali antes que o exército venha destruir a quadra. O campo de futebol também recebeu uma ordem de demolição antes mesmo de ser finalizado.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – A comunidade israelense Zur Hadassa se expande e avança a Linha Verde, ameaçando tomar mais terras do vilarejo.  EAPPI/ Carolina B.

Esta é minha segunda visita à Palestina ocupada, mas algumas cenas não deixam de impressionar. Vimos as oliveiras que foram arrancadas pelos tratores na manhã anterior, as raízes expostas ao ar. Ahmad me mostrou o vídeo da destruição das árvores e no rosto dos agricultores o olhar de perda. De certa forma, aquelas árvores eram uma parte da família deles, cuidadas ao longo de gerações, anualmente fornecendo milhares de azeitonas. Ao arrancar as raízes das oliveiras, um recado foi passado: são também as raízes que palestinos e palestinas têm naquela terra que estão sendo rompidas. Ao ver os campos queimados pelos colonos que invadem o vilarejo, eu enxerguei a tentativa de apagar as memórias daquelas famílias.

Enquanto estávamos em seu escritório, Ahmad me mostrou um mapa de planejamento para a região, elaborado pelas autoridades israelenses. Onde antes estavam as oliveiras, seria construída uma zona industrial e uma estrada para ligar Beitar Illit a Zur Hadassa.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Terras agrícolas queimadas pelos colonos durante invasões ao vilarejo. Ao fundo, o assentamento ilegal de Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ahmad não conseguiu esconder sua preocupação com o futuro do vilarejo enquanto me mostrava a expansão de Beitar Illit e de Zur Hadassa. “Não sabemos ainda se a única entrada para a vila será fechada quando a expansão da colônia e da comunidade e a construção da zona industrial forem finalizadas.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Expansão do assentamento ilegal Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ao deixar aquele vale encurralado por ocupantes ilegais, eu me perguntei se na minha próxima visita ainda existirá Wadi Fukin – ou se mais um vilarejo palestino será anexado a Israel e todas as raízes palestinas dali estarão expostas ao ar, como as oliveiras arrancadas.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Na prefeitura do vilarejo, algumas fotos mostram a luta dos moradores para salvar o futuro de Wadi Fukin – EAPPI/ Carolina B.

Mais informações:

https://electronicintifada.net/content/video-without-land-we-are-nothing/14774

http://english.wafa.ps/page.aspx?id=EUdHELa47753255022aEUdHEL

https://www.ochaopt.org/documents/opt_arij_vp_wadifukin.pdf

http://mondoweiss.net/2014/09/village-largest-israeli/

Referências:

www.ochaopt.org/location/area-c

http://data.ochaopt.org/vpp.aspx

Carolina B

EA do Grupo 62, Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).

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