Vocabulário da ocupação

Já é início de outubro e, para os EAs do grupo 62, já se passou um mês de experiência na Palestina e em Israel. Um dos nossos grandes desafios é tentar entender a narrativa de ambos os lados da ocupação militar israelense na Cisjordânia, que existe desde 1967 e não mostra sinais de abrandamento.

O trabalho em Yanoun, uma pequena vila palestina localizada na região de Nablus, possibilita o contato mais frequente e próximo com as famílias locais e com as comunidades vizinhas. Durante as conversas é possível ir aprendendo algumas palavras que a população local utiliza ao se referir à vida na ocupação. A linguagem se torna uma ferramenta para tentar compreender a realidade e torná-la mais suportável – e, para os estrangeiros e recém-chegados, como nós, ela funciona como uma lente através da qual temos acesso às experiências vivenciadas cotidianamente por aqui.

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Rebanho de ovelhas pertencente às famílias do vilarejo de Yanoun, ao fundo na foto. No topo da colina pode-se ver a torre e o estábulo do assentamento mais próximo. Foto: EAPPI/Jade

“Adhi”, que significa algo como “é normal”, por exemplo. É uma expressão comum que exprime a resignação que as pessoas sentem na maior parte do tempo. G., nosso motorista e principal contato na região, nos diz em tom de brincadeira que costuma ouvir histórias das maiores desgraças seguidas por um “adhi”: “Os soldados invadiram minha casa no meio da noite… adhi!”, “Mataram meu filho bem na minha frente… adhi!”, “Demoliram minha casa com tudo dentro… adhi!”. E por mais comuns que sejam esses relatos, depois de algumas semanas precisamos fazer um esforço para lembrar que não é “adhi”, não é normal – ou, pelo menos, não deveria ser.

Mas a ocupação se manifesta em todos os aspectos da vida, aqui em Yanoun assim como na maior parte do território da Cisjordânia que está sob controle civil e militar de Israel: é proibido construir novas casas sem permissão das autoridades israelenses (que quase nunca as concedem); ao mesmo tempo, as comunidades são cercadas cada vez mais de perto pelos assentamentos israelenses, que expandem suas construções em território palestino sem nenhum tipo de restrição; a cada ano mais terras palestinas são confiscadas pelo exército para serem usadas como áreas de treinamento militar. Isso sem mencionar as dificuldades de locomoção dentro do próprio território, como a obrigação de cruzar check-points pra ir de uma cidade a outra, a impossibilidade de ir a Israel sem uma autorização nominal específica, a proibição de viajar pelo aeroporto de Tel Aviv (mesmo para os palestinos que conseguem permissão para irem a Israel). São muitas as políticas que restringem os direitos básicos da população palestina, e depois de quase cinquenta anos de ocupação militar, seus efeitos já são considerados normais.

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Pracinha/playground em Belém, logo ao lado do muro da separação. Foto: EAPPI/Jade

Todas essas medidas são justificadas pelo poder ocupante como medidas necessárias à segurança do povo israelense. Por aqui, do outro lado do muro, a impressão que se tem é que elas são executadas com o objetivo de dificultar ao máximo a vida dos que decidem permanecer na sua terra. Mas as pessoas permanecem – e para isso também há uma palavra no vocabulário da ocupação: “Sumud”.

“Sumud” não tem uma tradução simples no nosso idioma. Significa uma forma de resistência, mas sem a conotação de agressão ou de revide que às vezes vem implícita na palavra em português. Sumud significa ficar, apesar de tudo. Permanecer na Palestina e levar a vida adiante apesar da ocupação e da violência. A fala de A., que conhecemos no vilarejo de Duma, ilustra bem essa definição.

“Nós passamos para as próximas gerações uma mensagem de esperança, de que um dia seremos livres. Apesar das demolições, das prisões e tudo mais, a geração seguinte está aí e nós continuamos casando e construindo nossas casas. Não devemos ter medo porque não somos ladrões, não roubamos nada de ninguém. Essa terra é nossa, essas casas são nossas.” A., Duma.

Nesse sentido, a escolha de não abandonar a terra, de casar e constituir família na Palestina já é por si só considerada uma forma de resistir pacificamente ao regime de ocupação militar.

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EAs do grupo 62 observam os assentamentos ao redor da vila de Qaryut, na região de Nablus. Foto: EAPPI/Noirin Healy-Magwa

A escolha das palavras para se referir aos lugares também é significativa no contexto das disputas narrativas. Muitas das cidades que conhecemos hoje pelos nomes hebraicos antigamente também eram chamadas pelos nomes árabes: Jerusalém é Al-Quds, Hebron é Al-Khalil, Tel Aviv é Yafa, Shechem é Nablus (essa última talvez uma das poucas que continua sendo mais conhecida pelo nome em árabe). Mesmo na Palestina os nomes em hebraico são comumente utilizados pela população local para dar direções aos estrangeiros. Porém, quando o estrangeiro toma a iniciativa de referir-se a cidade pelo nome em árabe, entende-se que está implícita nessa escolha a simpatia pela narrativa palestina, a lembrança da história árabe desses lugares. No campo simbólico do conflito, cada palavra é uma chance de tomar partido.

Jade

EA do Grupo 62, Yanoun

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).

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