Documentos palestinos não são garantia de acesso às suas terras

Por volta das seis horas, o pastor Ibrahim aguarda pacientemente com seu rebanho do lado de fora da longa cerca de arame farpado em Akkaba, uma pequena vila na região de Tulkarm, no norte da Cisjordânia. Ao levar suas ovelhas para pastar do outro lado da cerca, ele deve atravessar um portão controlado por soldados israelenses, que irão checar sua identidade e o documento que lhe permite a travessia. Mesmo tendo uma autorização válida para a semana toda, Ibrahim pode acessar sua terra apenas nos dias e horários em que as autoridades israelenses abrem o portão agrícola.

Os portões agrícolas são parte da paisagem desta área e apenas um dentre os resultados da barreira de separação entre Israel e a Cisjordânia. Segundo estimativa da Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas, ao terem seus 712 km finalizados, os muros e cercas colocarão cerca de 9,4% de território palestino no lado israelense da divisão. Por isso, os donos dessas terras precisam de autorização para acessá-las, sempre sob a vigilância de soldados ou policiais.

O esquema de segurança estabelecido transforma o acesso às propriedades e fonte de renda de muitos palestinos em algo complexo e restrito. Em Akkaba, por exemplo, o portão agrícola fica aberto entre 6h e 6h30, quando os soldados o fecham novamente. Durante à tarde, eles retornam para abri-la e permitir que os trabalhadores voltem para o lado palestino. Há relatos de horas de atrasos na abertura das portas, e não há nada que as pessoas possam fazer, a não ser esperar, como fez Ibrahim.

20-10-2016-_tulkarm-qalqiliya-shephard-goes-to-the-akkaba-gate-eappi_l-jensen– Tulkarm-Qalqiliya, Pastor caminha em direção ao portão de Akkaba. EAPPI/L. Jensen

A temporada da colheita das oliveiras começou e o movimento na porta agrícola é maior. Assim, ele aguardou que todos atravessassem primeiro para que pudesse passar com seu rebanho facilmente, sem tratores ou carroças no caminho dos animais. Eram 6h29 quando se dirigiu ao portão, em uma caminhada de cerca de 20 metros. Ao chegar, um dos soldados não permitiu sua entrada, dizendo que ele estava um minuto atrasado. Rindo, fechou o portão sem ouvir o que o pastor argumentava. Ibrahim retornou desolado – a posse de documentação não é garantia absoluta de acesso à terra do outro lado da barreira, já que a permissão pode depender do comportamento e humor do soldado que está no comando. Infelizmente, não é incomum que soldados apresentem razões variadas para negar o acesso de palestinos às suas terras.

20-10-2016-_tulkarm-qalqiliya-shephard-is-refused-at-the-akkaba-gate-eappi_l-jensenTulkarm-Qalqiliya, Pastor de ovelha tem sua entrada negada no portão Akkaba – EAPPI/L. Jensen

Alguns dos portões agrícolas também são ponto de passagem para palestinos que vão trabalhar em Israel. Por terem que iniciar a jornada de trabalho muito cedo, muitos chegam aos portões agrícolas horas antes de sua abertura para garantir que sejam os primeiros da fila. Em Sal’it, porta agrícola localizada muito próxima de um assentamento, várias pessoas chegam por volta das 3h da manhã e dormem em colchões no chão, ou dentro dos veículos, enquanto esperam. Cobertores e outros utensílios são deixados no local para que sejam utilizados no dia seguinte. Mais uma vez, seu retorno depende do horário em que o portão será aberto à tarde. “Vocês deveriam vir aqui todos os dias para ver o nosso sofrimento. No inverno eles demoram muito para abrir o portão, e às vezes ficamos 3 ou 4 horas esperando lá dentro”, disse um dos homens que aguardavam na fila.

26-09-2016-_tulkarm-qalqiliya-matress-at-salit-agricultural-gate-workser-sleep-there-whilst-waiting-danielle-af-2-Tulkarm-Qalqiliya, colchão próximo ao portão agrícola de Sal’it  (trabalhador dorme enquanto espera abertura dos portões). EAPPI/Danielle F

Em outro portão agrícola, Attil, dezenas de homens aguardam os soldados israelenses no escuro. Alguns à luz de uma fogueira, sentados no chão, conversam enquanto bebem café. Outros ainda dormem dentro de pequenos caminhões e a fila só aumenta com a chegada de tratores e carroças. Ao abrirem a porta, os soldados examinam um pequeno caminhão e autorizam sua passagem. Entretanto, o comandante decide que o material não é permitido e recusa a entrada. “Eles já haviam checado tudo e não havia problema. São horas de trabalho que eu perco, é dinheiro que eu vou perder. Isso me prejudica muito”, diz o dono do veículo.

Minutos depois, outro trabalhador é enviado de volta. Ao cruzar o portão, um dos soldados o cumprimenta com um aperto de mão, dizendo “salam” – paz. Ao ver a cena, um Palestino comenta “dessa vez eles recusaram a entrada dele, mas com apoio emocional”.

Danielle F

EA do Grupo 62, Tulkarm

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Mundial de Igrejas (WCC). Para publicar este texto ou trechos dele, favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).

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As raízes arrancadas de Wadi Fukin

Eu estava na estrada indo para Al Walaja quando um celular dentro do carro tocou. Era apenas 9h30 da manhã e, do outro lado da linha, uma voz decepcionada relatou um incidente no vilarejo de Wadi Fukin. Soldados das Forças de Defesa Israelenses, juntamente com funcionários da Administração Civil, haviam invadido uma área ao norte da vila, cortando cerca de 17 oliveiras centenárias e destruindo 0,02 km² de terra cultivável. De acordo com as autoridades israelenses, essa região é considerada como reserva natural e deve ser protegida. Mas talvez, para eles, as árvores cultivadas pelas famílias palestinas não se enquadrem sob essa proteção.

O vilarejo de Wadi Fukin está localizado no distrito de Belém, na Cisjordânia. Com aproximadamente 1300 habitantes, esta vila fica num vale com terras férteis, onde diariamente os moradores trabalham em suas plantações. Praticamente todas as famílias que aqui moram são de agricultores, que dependem da venda dos produtos para sua sobrevivência.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Agricultor trabalha em sua propriedade, ao sol do meio dia. – EAPPI/ Carolina B.

Na sua porção norte, está a fronteira entre Israel e Palestina, definida pelo armistício de 1949 (também conhecida como Linha Verde ou Green Line). A comunidade israelense Zur Hadassa está localizada após a fronteira, e o vilarejo costumava ter relações positivas com os moradores dessa cidade. Apesar de haver um trecho de muro de separação planejado para a região, até o momento não há uma barreira física entre terras palestinas e israelenses. Ao sul de Wadi Fukin, está o assentamento ilegal Beitar Illit. O impacto da presença de Beitar Illit vai muito além do que podemos imaginar à primeira vista. Ahmad Sokar, o prefeito, contou-me como a vida naquele vale silencioso mudou desde que a colônia foi construída sobre terras confiscadas do vilarejo. “Wadi Fukin sempre foi famoso pela produção agrícola mas, nos últimos 15 anos, Beitar Illit começou a despejar seu esgoto em canos que levam diretamente a nossas plantações. Isso comprometeu a reputação dos nossos produtos.” Com o solo contaminado pelo esgoto, a subsistência dos moradores ficou comprometida.

Ahmad também falou sobre as frequentes invasões que os colonos de Beitar Illit fazem na vila. “Às vezes, eles vêm apenas para nos intimidar com suas armas. Outras vezes, eles colocam fogo na terra, nadam em nossas piscinas agrícolas (tanques de água que são usados para irrigação), roubam coisas de nossas hortas ou destroem parte da plantação.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Parquinho do vilarejo, que tem uma ordem de demolição pelas autoridades israelenses. EAPPI/ Carolina B.

O único parquinho disponível para as crianças do vilarejo, que foi construído há 5 anos, tem uma ordem de demolição. Adel Hroub, ex-membro do conselho municipal, segura seu filho no colo e afirma que “em Beitar Illit, há cerca de 60 parquinhos, onde as crianças podem brincar. Aqui, temos apenas um, e não sabemos quanto tempo ele ainda vai durar.” Adel me levou para andar pelo vilarejo e ver algumas das obras para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, mas quase todas as obras receberam ordens para serem interrompidas, vindas da Administração Civil israelense. O motivo? A maior parte de Wadi Fukin está em território classificado como área C,na qual Israel detém o controle civil e militar. Os Acordos de Oslo, nos anos 90, dividiram a Cisjordânia em três tipos de área, de acordo com quem tem o controle de cada uma. A área A está sob controle da Autoridade Palestina, enquanto a área B está sob controle civil palestino e militar israelense. Atualmente, mais de 60% do território palestino na Cisjordânia é classificado como área C, o que impede que palestinos e palestinas façam uso de suas próprias terras sem antes conseguir uma permissão de Israel. Conseguir uma permissão para qualquer tipo de obra requer muita paciência, dinheiro – e quase sempre gera frustração, já que apenas 1% dos pedidos de permissão são aceitos. Sem opções, as famílias arriscam construir sem a permissão legal, correndo o risco de ter sua obra demolida a qualquer momento.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Campo de futebol quase finalizado, com uma ordem de demolição emitida recentemente. EAPPI/ Carolina B.

Andando pelos campos de oliveiras em direção ao sul da vila, há um campo de futebol quase finalizado. Adel disse que logo irão colocar a grama e o campo poderá ser utilizado pelos jovens e adultos, e que todos estão empolgados para jogar bola ali antes que o exército venha destruir a quadra. O campo de futebol também recebeu uma ordem de demolição antes mesmo de ser finalizado.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – A comunidade israelense Zur Hadassa se expande e avança a Linha Verde, ameaçando tomar mais terras do vilarejo.  EAPPI/ Carolina B.

Esta é minha segunda visita à Palestina ocupada, mas algumas cenas não deixam de impressionar. Vimos as oliveiras que foram arrancadas pelos tratores na manhã anterior, as raízes expostas ao ar. Ahmad me mostrou o vídeo da destruição das árvores e no rosto dos agricultores o olhar de perda. De certa forma, aquelas árvores eram uma parte da família deles, cuidadas ao longo de gerações, anualmente fornecendo milhares de azeitonas. Ao arrancar as raízes das oliveiras, um recado foi passado: são também as raízes que palestinos e palestinas têm naquela terra que estão sendo rompidas. Ao ver os campos queimados pelos colonos que invadem o vilarejo, eu enxerguei a tentativa de apagar as memórias daquelas famílias.

Enquanto estávamos em seu escritório, Ahmad me mostrou um mapa de planejamento para a região, elaborado pelas autoridades israelenses. Onde antes estavam as oliveiras, seria construída uma zona industrial e uma estrada para ligar Beitar Illit a Zur Hadassa.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Terras agrícolas queimadas pelos colonos durante invasões ao vilarejo. Ao fundo, o assentamento ilegal de Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ahmad não conseguiu esconder sua preocupação com o futuro do vilarejo enquanto me mostrava a expansão de Beitar Illit e de Zur Hadassa. “Não sabemos ainda se a única entrada para a vila será fechada quando a expansão da colônia e da comunidade e a construção da zona industrial forem finalizadas.”

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Expansão do assentamento ilegal Beitar Illit. – EAPPI/ Carolina B.

Ao deixar aquele vale encurralado por ocupantes ilegais, eu me perguntei se na minha próxima visita ainda existirá Wadi Fukin – ou se mais um vilarejo palestino será anexado a Israel e todas as raízes palestinas dali estarão expostas ao ar, como as oliveiras arrancadas.

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Distrito de Belém, Wadi Fukin – Na prefeitura do vilarejo, algumas fotos mostram a luta dos moradores para salvar o futuro de Wadi Fukin – EAPPI/ Carolina B.

Mais informações:

https://electronicintifada.net/content/video-without-land-we-are-nothing/14774

http://english.wafa.ps/page.aspx?id=EUdHELa47753255022aEUdHEL

https://www.ochaopt.org/documents/opt_arij_vp_wadifukin.pdf

http://mondoweiss.net/2014/09/village-largest-israeli/

Referências:

www.ochaopt.org/location/area-c

http://data.ochaopt.org/vpp.aspx

Carolina B

EA do Grupo 62, Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com). Obrigada(o).

Vocabulário da ocupação

Já é início de outubro e, para os EAs do grupo 62, já se passou um mês de experiência na Palestina e em Israel. Um dos nossos grandes desafios é tentar entender a narrativa de ambos os lados da ocupação militar israelense na Cisjordânia, que existe desde 1967 e não mostra sinais de abrandamento.

O trabalho em Yanoun, uma pequena vila palestina localizada na região de Nablus, possibilita o contato mais frequente e próximo com as famílias locais e com as comunidades vizinhas. Durante as conversas é possível ir aprendendo algumas palavras que a população local utiliza ao se referir à vida na ocupação. A linguagem se torna uma ferramenta para tentar compreender a realidade e torná-la mais suportável – e, para os estrangeiros e recém-chegados, como nós, ela funciona como uma lente através da qual temos acesso às experiências vivenciadas cotidianamente por aqui.

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Rebanho de ovelhas pertencente às famílias do vilarejo de Yanoun, ao fundo na foto. No topo da colina pode-se ver a torre e o estábulo do assentamento mais próximo. Foto: EAPPI/Jade

“Adhi”, que significa algo como “é normal”, por exemplo. É uma expressão comum que exprime a resignação que as pessoas sentem na maior parte do tempo. G., nosso motorista e principal contato na região, nos diz em tom de brincadeira que costuma ouvir histórias das maiores desgraças seguidas por um “adhi”: “Os soldados invadiram minha casa no meio da noite… adhi!”, “Mataram meu filho bem na minha frente… adhi!”, “Demoliram minha casa com tudo dentro… adhi!”. E por mais comuns que sejam esses relatos, depois de algumas semanas precisamos fazer um esforço para lembrar que não é “adhi”, não é normal – ou, pelo menos, não deveria ser.

Mas a ocupação se manifesta em todos os aspectos da vida, aqui em Yanoun assim como na maior parte do território da Cisjordânia que está sob controle civil e militar de Israel: é proibido construir novas casas sem permissão das autoridades israelenses (que quase nunca as concedem); ao mesmo tempo, as comunidades são cercadas cada vez mais de perto pelos assentamentos israelenses, que expandem suas construções em território palestino sem nenhum tipo de restrição; a cada ano mais terras palestinas são confiscadas pelo exército para serem usadas como áreas de treinamento militar. Isso sem mencionar as dificuldades de locomoção dentro do próprio território, como a obrigação de cruzar check-points pra ir de uma cidade a outra, a impossibilidade de ir a Israel sem uma autorização nominal específica, a proibição de viajar pelo aeroporto de Tel Aviv (mesmo para os palestinos que conseguem permissão para irem a Israel). São muitas as políticas que restringem os direitos básicos da população palestina, e depois de quase cinquenta anos de ocupação militar, seus efeitos já são considerados normais.

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Pracinha/playground em Belém, logo ao lado do muro da separação. Foto: EAPPI/Jade

Todas essas medidas são justificadas pelo poder ocupante como medidas necessárias à segurança do povo israelense. Por aqui, do outro lado do muro, a impressão que se tem é que elas são executadas com o objetivo de dificultar ao máximo a vida dos que decidem permanecer na sua terra. Mas as pessoas permanecem – e para isso também há uma palavra no vocabulário da ocupação: “Sumud”.

“Sumud” não tem uma tradução simples no nosso idioma. Significa uma forma de resistência, mas sem a conotação de agressão ou de revide que às vezes vem implícita na palavra em português. Sumud significa ficar, apesar de tudo. Permanecer na Palestina e levar a vida adiante apesar da ocupação e da violência. A fala de A., que conhecemos no vilarejo de Duma, ilustra bem essa definição.

“Nós passamos para as próximas gerações uma mensagem de esperança, de que um dia seremos livres. Apesar das demolições, das prisões e tudo mais, a geração seguinte está aí e nós continuamos casando e construindo nossas casas. Não devemos ter medo porque não somos ladrões, não roubamos nada de ninguém. Essa terra é nossa, essas casas são nossas.” A., Duma.

Nesse sentido, a escolha de não abandonar a terra, de casar e constituir família na Palestina já é por si só considerada uma forma de resistir pacificamente ao regime de ocupação militar.

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EAs do grupo 62 observam os assentamentos ao redor da vila de Qaryut, na região de Nablus. Foto: EAPPI/Noirin Healy-Magwa

A escolha das palavras para se referir aos lugares também é significativa no contexto das disputas narrativas. Muitas das cidades que conhecemos hoje pelos nomes hebraicos antigamente também eram chamadas pelos nomes árabes: Jerusalém é Al-Quds, Hebron é Al-Khalil, Tel Aviv é Yafa, Shechem é Nablus (essa última talvez uma das poucas que continua sendo mais conhecida pelo nome em árabe). Mesmo na Palestina os nomes em hebraico são comumente utilizados pela população local para dar direções aos estrangeiros. Porém, quando o estrangeiro toma a iniciativa de referir-se a cidade pelo nome em árabe, entende-se que está implícita nessa escolha a simpatia pela narrativa palestina, a lembrança da história árabe desses lugares. No campo simbólico do conflito, cada palavra é uma chance de tomar partido.

Jade

EA do Grupo 62, Yanoun

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