A terra se estreita no Vale

“A terra nos é estreita. Ela nos encurrala no último desfiladeiro” escreveu o poeta palestino Mahmoud Darwich, em um poema que expressa a constante redução das terras da Palestina disponíveis para seu povo. O Vale do Jordão é uma terra fértil e rica em recursos hídricos, mas sua amplitude se estreita de acordo com a filiação étnica e religiosa ao qual se pertence: ao mesmo tempo que mais espaço é disponibilizado para colonos israelenses nessa região, os palestinos se veem constritos a cantões cada vez menores e com menos recursos disponíveis.

A área do Vale do Jordão cobre a quase um terço de toda Cisjordânia, se estendendo por toda a parte leste desse território. Por conta disso, o Vale do Jordão também corresponde a única saída disponível para os palestinos da Cisjordânia: o acesso ao resto do mundo via Jordânia. Parte da justificativa israelense para o controle quase absoluto do Vale do Jordão se define pelo valor estratégico de controlar a “fronteira leste” para a segurança do “Estado Judeu”. Entretanto, Israel tem um acordo de paz há mais de 20 anos com o estado com quem divide as águas do Rio Jordão, isto é, o Reino Hashemita da Jordânia. A tão recorrente lógica da “segurança” não esclarece por si só as políticas israelenses em relação ao Vale do Jordão, em especial em relação aos subsídios aos assentamentos econômicos nessa região.

Igualmente significativo para os palestinos é o valor do Vale do Jordão para recursos hídricos e para agricultura. Desde 1967, a ocupação israelense reduziu abruptamente o usufruto desses recursos naturais para os palestinos. A dupla política de controle e desvios dos recursos hídricos para assentamentos em conjunto com o confisco crescente de terras privadas e públicas outrora disponíveis para uso agrícola de palestinos. Outra face dessa política é o deslocamento forçado de populações, através de ordens de expulsões por razões militares, demolição de propriedade e treino militar, entre tantas táticas. Em conjunto com a fuga de dezenas de milhares de palestinos durante a Guerra de 1967 (sobretudo refugiados de 1948 de dois campos oficiais e outros dois não oficiais), essa estratégia resultou na redução da população do Vale do Jordão de 300 mil para 65 mil. Mais de uma dezena de comunidades desapareceram do Vale, desde então. Outras foram reduzidas a uma fração de sua população pré-1967. As terras disponíveis para uso e desenvolvimento palestino é ainda mais fracionada: pouco mais 5% do Vale do Jordão é acessível para os palestinos, outros 94% são áreas de fronteira, assentamentos, fazendas de assentamentos, zonas de prática de tiro e reservas naturais israelenses ou palestinas.

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Vale do Jordão – Árvores de colonos em terras palestinas no Norte de Jericó. EAPPI/G Soares

Na vila de Al-‘Auja, ao Norte de Jericó, a terra disponível para crescimento natural e agricultura se estreitou consideravelmente. A terra cultivada foi reduzida a um décimo do que era antes da ocupação israelense: 40 mil dunums para menos de 4 mil dunums (1 dunum = 1 m²). O exército de Israel confiscou a maior parte das terras de Al-‘Auja originalmente alegando razões de “segurança” (32,000 dunums foram tomados para “zona tampão” com a Jordânia). Todavia, uma parte significativa dessas terras tomadas por motivos securitários foram transferidas para colonos israelenses explorarem economicamente, formando lucrativos assentamentos. Como uma trágica ironia dessa história que se repete em tantos outros lugares do Vale do Jordão, palestinos de Al-‘Auja acabam por trabalhar nas fazendas dos assentamentos, frequentemente em terrenos que eles mesmos outrora possuíam, ou em alguns casos, para os quais a família mantém documentos de posse ou até propriedade.

Ao menos parte da vila de al-‘Auja se encontra em uma situação de mais garantias a maior parte dos vilarejos e comunidades rurais do Vale do Jordão: a parte central de al-‘Auja encontra-se em área A, sob controle total da Autoridade Palestina. Isso possibilita o desenvolvimento de vários tipos de infraestrutura sem prévia aprovação de autoridades israelenses. No restante do território, inclusive boa parte das terras agrícolas de al-‘Auja, vigora a lei militar israelense em todos os assuntos civis. As áreas sob total controle da lei marcial israelense são partes da Área C, o que corresponde 61% do território da Cisjordânia. No Vale do Jordão, a Área C corresponde por 87% de toda essa região. Questões como água e segurança para o Estado de Israel são praticamente independentes dessas decisões criadas nos Acordos de Oslo a partir de 1993, porém são mais drásticas as implicações para a população vivendo diretamente sob um regime de leis militares que limitam qualquer desenvolvimento, ou até mesmo a existência.

As áreas de al-‘Auja fora da Área C continuam submetidas ao regime de confisco de terra e a diversas estratégias de expropriação. No início do ano, um colono chamado Omer espalhou fertilizantes industriais sob um lote não cultivado para alegar posse. Esse lote pertence a três famílias distintas, mas a escassez de água para eles impossibilita o cultivo de qualquer planta. Nessa terra agora árida e seca, há, todavia, o mesmo potencial agrícola de todas as outras. Nas proximidades desse terreno, colonos plantam tâmaras e pimentas. Devido a localidade desse lote, a tomada por colonos irá afetar todos os habitantes ao redor, restringindo ainda mais a área de pastos para ovelhas para então criar “zonas de segurança” ao redor da parte expandida do assentamento.

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Vale do Jordão – O prefeito de Al Auja mostra a plantação palestina com fertilizantes de colonos. EAPPI/ G Soares

“Existir é resistir” diz um lema palestino no Vale do Jordão. Por vezes os habitantes dessa região são chamados de sabra por palestinos de outras partes: referência a uma espécie de cacto e que simboliza a perseverança diante as intemperes naturais dali e também diante os ditames da ocupação. Tanto as grandes vilas agrícolas (como Jiftlik), quanto as pequenas comunidades beduínas (como ‘Ein Al Hilwa) são submetidas a medidas dracônicas que tornam a vida quase impossível. Ordens de evacuação, ordens de demolição, confisco de propriedade, drenagem dos recursos hídricos, restrições ao movimento, treinamentos militares, agressões diretas por soldados e colonos, tudo isso se acumula e se repete constantemente com o passar dos anos, desgastando o vigor físico e mental dos indivíduos e corroendo os alicerces socioeconômicos que tornam essas comunidades viáveis. A “mera” existência perante essas intermináveis agruras acaba por se fazer um ato heroico de resistência, por vezes a única possível.

Em uma das vilas do Norte do Vale do Jordão mais afetadas por essas políticas de expropriação e expulsão forçadas, al Hadidya, poucos indivíduos restam. Desde da década de 1990, essa vila foi demolida seis vezes. Isso não impediu que os habitantes da vila começassem a reerguer as estruturas demolidas assim que a poeira da demolição baixasse. Todavia, como em outros casos pelo Vale do Jordão, as autoridades israelenses têm buscados “meios legais” de expulsar para sempre os palestinos de al Hadidya de suas terras. Tanto as demolições de propriedade quanto expulsões forçadas de população são medidas que contravêm as leis internacionais humanitárias de acordo com a Quarta Convenção de Genebra, que prevê que uma força ocupante deve zelar pelos interesses da população ocupada. Diante da inação da Comunidade Internacional, Israel continua aplicar seus próprios critérios para atingir seus objetivos em relação ao Território Palestino ocupado que envolve o controle do máximo de território com o mínimo de população palestina presente.

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Al Hadidya seca e os assentamentos de Roi green. EAPPI/G Soares

Abu Sakr, o líder comunitário de al Hadidya, tenta há algum tempo conseguir uma aprovação da Suprema Corte de Israel para um plano central para a vila, que a permitiria desenvolver e obter infraestrutura legalmente segundo o ordenamento militar israelense que rege a vida dos palestinos na Cisjordânia. Abu Sakr não demonstra nenhuma crença no sistema judiciário israelense, busca apenas: “Você acha que eu vou obter justiça da corte israelense? A intenção deles é nos expulsar, então o que se faz é apenas adiar, como uma ovelha adiando o seu abate”.

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Jordan Valley – Al Hadidya – Abu Sakar. EAPPI/G Soares

A metáfora da ovelha esperando o abate pode parecer passiva demais considerando a enorme perseverança dos palestinos diante da ocupação israelense que perdura há décadas. Entretanto, faz algum sentindo ao ver ao passar dos anos um Vale que deixa de ser palestino, cujos poços de água se tornam escassos, as terras agrícolas se reduzem e vilas inteiras desaparecem. A passividade não está tanto naqueles que são afetados diretamente por esse processo e não possuem por si só os recursos para se contrapor a sina que Israel tenta lhes destinar, mas sim daqueles que assistem mudos a esse processo. Não caberá somente a potência ocupante a responsabilidade pelo apagamento da presença e da cultura palestina no Vale do Jordão. E por isso deverão ser responsabilizados. Muitos palestinos acreditam que a história eventualmente os redimirão, como expressou: “Aqui morreremos / No último desfiladeiro / Aqui ou aqui… plantará oliveiras / Nosso sangue”.

 

Gabriel Soares

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EA do Grupo 60 em Vale do Jordão

 

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

 

 

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