Acompanhando as crianças de Belém

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Acompanhantes caminham com as crianças da escola para suas casas, na Vila de Tuqua, Belém. EAPPI/Ruan

Pela segunda vez, venho para a Palestina participar do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e em Israel (EAPPI) do Conselho Mundial das Igrejas. Desta feita estou localizada na cidade onde nasceu Jesus, em Belém. É uma grande satisfação fazer parte desse programa, especialmente porque é um programa de acompanhamento – termo muito caro para mim. Gustavo Gutiérrez, um dos pais da Teologia da Libertação, foi quem popularizou o termo e a noção de acompanhamento. Para o teólogo, o termo significa estar presente e apoiar alguém na sua jornada, caminhar lado a lado e partilhar o pão com os pobres e oprimidos assim como o mestre Jesus. Segundo Gutiérrez o verdadeiro serviço a humanidade envolve a compreensão de como a pobreza global é uma situação estrutural e sistêmica, e seu entendimento deve estar ligado aos esforços para acabar com ela.

A finalidade do acompanhamento para o teólogo peruano é unir a justiça social com a espiritualidade; “a espiritualidade que recusa-se a ser uma espécie de oásis, ou, menos ainda, uma fuga ou um refúgio em tempos difíceis”, mas que envolve uma jornada de solidariedade e de autorreconhecimento de nossa própria cumplicidade na perpetuação da violência estrutural. Com a ciência e com o avanço da tecnologia, o nosso pecado estrutural se aprofunda e o chamado não é para medidas de socorro, mas uma demanda para construirmos uma ordem social diferente. Gutiérrez fala da necessidade da transição da caridade para modelos de justiça social, do auxílio financeiro para o acompanhamento.¹

“Vinde e vede” conclamou Gustavo Gutiérrez aos cristãos do mundo para acompanhar os palestinos nas suas vidas sob à ocupação militar israelense.² Este chamado também fora realizado pelo Arcebispo de Jerusalém no ano de 2002 ao Conselho Mundial das Igrejas e, a partir de então foi estabelecido o Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e em Israel.

O EAPPI conta com o respaldo da população palestina, da Comunidade Internacional e de setores da esquerda israelense. O programa conta com observadores em toda Cisjordânia que acompanham os palestinos em suas vidas diárias, provendo presença protetiva com o objetivo de atenuar a violência e monitorar as violações dos direitos humanos. A nossa visibilidade, a dos acompanhantes, em locais de conflito, atua de modo a desescalar e prevenir a violação dos direitos humanos. Os abusos que presenciamos são documentados e tornados públicos para ONGs Internacionais e agências da ONU.

Parte fundamental do acompanhamento em Belém consiste em caminhar com as crianças de suas casas para a escola no período da manhã, e na parte da tarde quando voltam da escola para suas casas. Cerca de 85% da área da província de Belém está localizada na Área C, o que significa que está sob total controle do exército israelense. Como resultado dos Acordos de Oslo de 1993, a Cisjordânia foi dividida em três áreas: A, B e C. A área A é controlada pela Autoridade Palestina, na área B o controle é compartilhado entre Israel e Palestina, e a Área C está completamente sob controle militar israelense. Mais de 60% de toda a Cisjordânia está sob controle administrativo e militar de Israel.³

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Crianças atravessam o checkpoint (posto de controle) após a habitual checagem de suas identidades e mochilas escolares. Vila de An Numan, Belém. EAPPI/ I Neiva

Mas por que acompanhamos as crianças no seu caminho para escola e de volta pra casa? Mais de 60% da Cisjordânia, haja vista que está sob o controle militar da potência ocupante, tem uma presença militar constante em diferentes áreas, inclusive em frente de várias escolas. Os ataques às crianças ocorrem com frequência: bombas de gás lacrimogênio, bombas de som, balas de borracha e mesmo munição real são atiradas contra as crianças. Muitas vezes elas podem “provocar” – palavra que os soldados usam – e atirar uma pedra contra um jipe militar ao que se segue a retaliação com bombas de todos os tipos. A maior parte das vezes, todavia, não há qualquer “provocação” e os soldados atiram contra as crianças mesmo assim.

Há algumas semanas estávamos na escola na vila de Al Khader (uma das vilas que monitoramos na província de Belém) e havia um veículo militar de onde os soldados começaram a atirar gás contra as crianças (era um grupo de crianças entre 6 e 10 anos de idade). Não havia nenhuma razão ou ‘provocação’, as crianças caminhavam em grupo escoltadas por professores e nós observávamos a caminhada deles de volta pra casa. Meu colega foi tentar falar com o soldado que atirava e que estava há cerca de dois metros de distância de nós, e este respondeu com um tiro há poucos centímetros de nossos pés e, em seguida, mais tiros de gás lacrimogêneo no playground da escola.

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Acompanhante Ecumênico e professor olham as bombas de gás lacrimogênio no playground da escola, na Vila de Al Khader, Belém. EAPPI/TA Prois

Na semana seguinte vimos o diretor da escola saindo as pressas da escola para o hospital por ter inalado muito gás e ouvimos nas notícias que um rapaz tinha sido baleado perto da escola. No dia seguinte fomos até o hospital saber o estado do jovem e o que tinha acontecido. Um jovem de 17 anos havia sido baleado nas costas perto da escola, a bala perfurou seu corpo perto do coração mas ele sobreviveu pois conseguiu ser levado as pressas ao hospital. Em seguida os militares israelenses tentaram invadir o hospital para levar o menino, só que havia muitos carros na porta de hospital e todos os aldeões se reuniram na frente do hospital para impedir que os israelenses entrassem. Os soldados começaram a atirar contra a multidão e acertaram um médico, também no coração. Os dois passavam bem. O diretor do hospital nos explicou que eles têm bastante experiência no tratamento de ferimentos de bala e nos mostrou o vídeo dos militares israelenses tentando invadir o hospital. Aqui na Palestina, os smartphones da maioria das pessoas têm vídeos da violência. Os professores das escolas já nos mostraram diversos vídeos de bombas na escola e de crianças correndo em pânico em meio a nuvens de gás.

Em Al Khader, as escolas que datam de 1932 têm vista para uma estrada que agora é usada por israelenses para acessar assentamentos ilegais na Palestina ocupada. O Exército de Israel diz que sua presença é necessária para impedir que as crianças atirem pedras contra os carros nas estradas e contra os jipes militares. Os ataques contra escolas contribuem para o clima de impunidade e injustiça na Palestina. De acordo com o Conselho de Segurança das Nações Unidas, ataques a escolas são tidos como uma grave violação dos direitos da criança, em reconhecimento de que eles são ilegais nos termos do artigo 50° da Quarta Convenção de Genebra, e que eles afetam o direito da criança à educação, consagrado no artigo 26° da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e no artigo 28° da Convenção sobre os Direitos da Criança. 4

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Crianças pousam para foto, e atrás, ver-se soldados israelenses em frente a escola de Tuqua. EAPPI/K Fox

Na última segunda-feira, dia 21 de março, os colonos dos assentamentos ilegais cerca da vila de Al Khader (os assentamentos de Efrat e Neve Danyyel) tinham uma maratona marcada e foram escoltados pelos soldados israelenses pelo território palestino. Quando os colonos passavam perto da vila de Al Khader os soldados atiraram balas de gás e de borracha contra as crianças e detiveram três menores por 4 horas. Os professores nos contaram que a detenção das crianças foi uma retaliação haja vista que os professores tentaram argumentar para que eles parassem de atirar contra a escola. No final de fevereiro, um total de 440 crianças palestinas estavam presas no sistema de detenção militar israelense. Este é o maior número de crianças presas desde que os dados tornaram-se disponíveis em janeiro de 2008. Segundo o relatório do Defence For Children International, o único país no mundo que processa crianças sistematicamente em tribunais militares é Israel, com uma média de 500 e 700 crianças processadas por ano.5

No campo de refugiados Aida, que fica na cidade de Belém, há cinco minutos da minha casa, o cheiro de gás já é algo familiar. As crianças voltam da escola cerca de meio dia e meia e vão brincar na rua mais ampla do campo, ou no único espaço para crianças no campo de refugiados – um campinho de futebol no qual foi preciso instalar uma rede, de modo que as bombas atiradas pelos soldados da torre de controle militar do muro de separação, que fica a alguns metros do campo, não atingissem as crianças. As crianças jogam pedras contra o muro e contra os jipes militares e os soldados respondem com bombas de som e com gás lacrimogêneo. Esse é o rito diário aqui. De fato, para mim, Belém tem cheiro de gás lacrimogênio.

O EAPPI e outras organizações internacionais têm pedido às autoridades israelenses para cumprir sua responsabilidade segundo o Direito Internacional, permitir o acesso seguro à educação para as crianças em Al Khader e em toda a Palestina ocupada, parar com os ataques às escolas e com a prisão e detenção arbitrária de crianças. Toda criança merece acesso à escola e a sentir-se seguro nela.

[1] http://projects.iq.harvard.edu/srcp/blog/walking-together-paul-farmer-gustavo-guti%C3%A9rrez-and-limits-modern-juxtaposition-religion#_edn15

[2] De banden van Paus Franciscus met de bevrijdingstheologie (8 mei 2014). http://www.kairospalestina.nl/nl/pausbezoek-palestina-2014.aspx

[3] http://www.unrwa.org/sites/default/files/west_bank_demolitions_factsheet.pdf

[4] http://www.gddc.pt/direitos-humanos/textos-internacionais-dh/tidhuniversais/dih-conv-IV-12-08-1949.html

[5] http://www.nowaytotreatachild.org

Clique aqui https://www.eappi.org/en/advocacy/focus-on-education para ver a gama de ações que você pode tomar para apoiar as crianças, incluindo uma carta que você pode enviar para o seu representante.

 

Indra Neiva                                         Indra

 

EA do Grupo 60 em Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

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