Infância, amizade e humanidade

“Não vamos desistir”, disse Jamal, um vendedor e dono de uma loja na cidade velha. Ele é muito orgulhoso de sua história, da sua família, especialmente de seu pai. A loja que agora é dele, situada no ‘souk’ era dele. O ‘velho souk’ não é apenas um ‘mercado árabe’ mas tem sua própria história assim como toda a cidade de Al-Khalil. Al-Khalil ou Hebron é a cidade de Abraão ou Ibraim, que é considerado o amigo de Deus. Em Hebraico a cidade é Hebron, e em Árabe é Khalil, nas duas línguas significa “amigo”.

Tudo nessa cidade tem um significado, uma história e uma memória. Essa cidade é uma das mais importantes cidades da Palestina, al-khalil se tornou uma das quatro cidades santas do Islã. Mas porque um palestino que vive na cidade conhecida como “amigo” estaria pensando em desistir?

O nome da cidade significa ‘amigo’, mas parece que existe muita ‘inimizade’ dentro dela. Todo mundo quer ser amigo do ‘grande amigo’ mas sem ser amigos e amigas um dos outros. A ocupação não é sobre amizade, nem tão pouco sobre humanidade, ela é sobre algo que não faz parte dessas coisas. Amizade só existe na humanidade, pois quando se fala de amigas e amigos, estamos falando de humanos. “Eu não vejo preto e branco, eu não acredito que alguém seja limpo e que alguém seja sujo. Eu acredito que somos todos o mesmo: cristãos, judeus, muçulmanos, meninos, meninas, homem, mulher…”. Isso foi o que Idris, um palestino revendedor, nos disse. Ele está sempre do lado de fora do CheckPoint 56 – na entrada da Shuhada Street – tomando café, conversando com as pessoas. Talvez se ele tivesse oportunidade, ele também conversaria e tomaria café com os israelenses, mas infelizmente existe uma barreira entre eles. Não estamos falando de barreiras físicas, elas são simples de se derrubar e destruir. As maiores barreiras são as mentais, os muros que construímos em nossos pensamentos, esses sim, são duros e difíceis de quebrar.

03.02.2016 Hebron H2, Bab Al Baladia, Boy detained for 4 soldiers. Photo EAPPI - M. Haglund

EAPPI/Manoel Botelho

 

Tel Rumeida é um bairro famoso em Hebron. Em Tel Rumeira existe uma casa onde há 15 anos mora uma família e, cerca de um mês atrás, eles tiveram sua casa ocupada mais um vez. Os soldados chegaram, colocaram a família em um mesmo cômodo, onde não eram permitidos ir a cozinha, e nem mesmo ao banheiro, enquanto o exército utilizava o restante da casa. Durante nove anos, soldados utilizavam a laje da casa como posto militar. Depois desses nove anos, os soldados finalmente saíram do telhado, mas deixaram uma câmera observando a família. De qualquer maneira, ainda é uma forma de ocupação. Sobre o que é isso? Humanidade? Amizade?

31.1.2016 Tel Rumeida, Hebron. House mentioned with camera on the roof, EAPPI - S. Tucci

EAPPI/ Manoel Botelho

Khaldon tem 14 anos e mora dentro do Souk. No último mês de outubro, ele foi comprar iogurte para seus irmãos, teve um conflito no momento em que ele estava na rua, ele tentou correr, mas mesmo assim levou um tiro na perna com uma munição ‘dumdum’. Ele ainda está em tratamento com pinos de aço e platina no perna, mas isso não o impediu de continuar sonhando em ser engenheiro e torcer pro seu time de futebol, Barcelona.

31.1.2016 Hebron H2 Khaldon`s leg with iron metal sticks to treat. EAPPI - F. Barreto

EAPPI/ Manoel Botelho

Ameer tem 15 anos, foi liberto da cadeia no final de janeiro. Durante os quatro meses que esteve encarcerado, teve suas duas pernas quebradas, seu dente e sua mandíbula. Ele não pode comer por causa de sua mandíbula, então tudo que ele pode é tomar leite, essa tem sido sua refeição.

31.1.2016 Old City Hebron, Khaldon`s leg in treatement. EAPPI- F. Barreto

EAPPI/ Manoel Botelho

A cidade que era a ‘cidade do amigo’ agora é a cidade da resistência. Resistir é existir.

Crianças sabem mais sobre amizade que adultos, por extensão, sabem mais sobre humanidade. Normalmente eles podem brincar com qualquer pessoa que esteja interessada, eles/elas vão tentar conversar com você mesmo sem falar sua língua. Crianças não pensam sobre as diferenças, elas só querem brincar juntas. Mas algumas vezes, crianças são forçadas a crescer antes da hora. Khaldon e Ameer são claros exemplos de crianças que tiverem suas infâncias roubadas e colocadas em outro lugar dentro da dura realidade de Hebron.

30.1.2016 WadAlHussein Hebron, EA and kids reading the dictionarey. EAPPI-F. Barreto - Cópia

EAPPI/ Manoel Botelho

Em  1992, Israel ratificou a Convenção sobre os Direitos da Criança, que diz:

“O melhor interesse da criança deve ser a principal preocupação na tomada de decisões que possam afetá-los. Todos os adultos devem fazer o que é melhor para as crianças. Quando os adultos tomam decisões, eles devem pensar sobre como suas decisões afetarão as crianças. Isso se aplica especialmente para o orçamento, a política e os legisladores.”1 (Tradução livre)

Nós temos muitas palavras e “leis” para proteger as crianças, mas o que são palavras e leis se histórias como a de Ameer e Khaldon não são exceções, mas a regra?

“toda criança privada da liberdade seja tratada com a humanidade e o respeito que merece a dignidade inerente à pessoa humana, e levando-se em consideração as necessidades de uma pessoa de sua idade.”2

8.1.2016.Hebron.EAs playing volleyball with children in Wadi al Hussein valley.EAPPI_E.Röst - Cópia

EAPPI/ Manoel Botelho

As crianças fazem mais que falam, elas podem falar muito, mas também fazem muito. Elas podem te convidar pra brincar sem dizer qualquer coisa que você possa entender; elas podem te chamar de amigo sem perguntar seu nome, religião, nacionalidade, gênero… etc. Enfim, elas entendem mais sobre a humanidade do que nós.

 1 http://www.unicef.org/crc/files/Rights_overview.pdf

2 Artigo 37 (c) da Convenção sobre os Direitos das Crianças

 

Manoel BotelhoIMG-20151224-WA0003

EA do Grupo 59 em Hebron

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

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