Narrativas únicas sobre a Palestina

Como narra a escritora Nigeriana Chimamanda Adichie, é muito comum que tenhamos histórias únicas sobre pessoas de outras culturas e sobre as situações que estas pessoas vivem. A escritora define o conceito de história única da melhor forma: “Show people as one thing over and over again, and that’s what they become” (Mostre as pessoas como uma única coisa repetidas vezes e elas se tornarão isso. Tradução livre). Essas histórias únicas limitam nossa compreensão crítica sobre a complexidade da experiência humana. Podem, inclusive, ser perigosas, na medida em que as utilizamos para justificar sentimentos como indiferença ou violência contra outras pessoas. A narrativa única que mais encontro sobre palestinos é a que mais é utilizada por muitas pessoas para que possam se manter indiferentes ao que acontece sob ocupação militar na Palestina: palestinos seriam muçulmanos fundamentalistas que não aceitam a presença de judeus e cristãos em suas terras e, em virtude de sua religião e intolerância, cometem ataques terroristas contra civis em Israel. Sob este pretexto, aceitam-se todas as violações de direitos humanos que acontecem nesse pequeno pedaço de terra do Oriente Médio. Esse discurso sobre a identidade dos palestinos é o que mais tenta-se combater dentro da Palestina. Desde que cheguei aqui, com muito humor e paciência, homens e mulheres palestinos se esforçam para desafiar esse conceito orientalista, como define Edward Said, trazido de fora e sustentado pela mídia tradicional.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Como Acompanhantes Ecumênicos na Palestina e Israel tivemos a oportunidade de encontrar diversas faces da complexa história de opressão e resistência que aqui se desenrola. A ocupação afeta as pessoas de formas diferentes e desiguais, provocando igualmente variadas reações aos traumas aqui sofridos. Encontrei palestinos que acreditam que “existir é resistir”, ou seja, que se manter aqui e tentar viver normalmente apesar da ocupação é uma forma de resistência a ela. Afinal, em suas opiniões sustentadas por todas as violações sistemáticas que sofrem, o objetivo final da ocupação seria expulsá-los de suas terras. Essas pessoas, através de organizações ou não, encontram formas de facilitar ao máximo a vida dos palestinos que acreditam nesta forma de resistência. Nunca deixarão suas terras, resistem. São guerreiros pacíficos e acreditam nesta forma de luta.

Encontramos também palestinos ativistas que atuam das mais variadas formas. Fazem protestos pacíficos nas ruas, auxiliam outros palestinos a trabalharem em suas terras mesmo contra a vontade dos colonos judeus e do governo israelense. Atiram pedras todas as sextas-feiras contra o muro de separação, bloqueiam estradas e fazem o máximo para dificultar a vida dos colonos ilegais quem vem roubar suas terras.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Encontramos pessoas que acham que a ocupação hoje em dia nem é um mal tão grande assim, que se pode viver normalmente com ela. Pessoas que, ao ouvirem histórias de estrangeiros sobre as dificuldades em outros países ou ao observarem a difícil situação que outros países árabes vivem, passam a acreditar que a ocupação os protege. Encontramos pessoas que têm orgulho de ter esta luta como objetivo de vida, pois estava previsto em algum lugar em suas escrituras sagradas. Encontramos também pessoas tão desesperadas e afetadas pela violência da ocupação que acabam reagindo também com violência.

E vidas se perdem. Contudo, poucas pessoas se perguntam por que a violência se perpetua. A história única que possuem já lhes dá a resposta pronta: são terroristas, são fundamentalistas, são violentos.

Outra história única que comumente ouço diz respeito à mulher palestina. É comum que feministas brasileiras digam que a luta das mulheres árabes contra o patriarcado é muito mais difícil que a nossa, em nossa sociedade ocidental tão mais desenvolvida – alto nível de ironia aqui. É muito comum que se associe o hijab à submissão, à fraqueza, quando comparada à liberdade da mulher brasileira em poder vestir-se da forma que quiser. Nenhum destes discursos aborda a complexidade de ser uma mulher vivendo em uma zona de conflito, vivendo sob ocupação militar. O discurso não atinge a dupla resistência diária dessas mulheres: contra a opressão de sua própria sociedade e a opressão que vem de fora.

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Belém EAPPI/Maira Peres

A noção de que as mulheres seriam as reprodutoras da nação, enquanto os homens seriam os protetores, acarreta a ideia de que as mulheres estão subordinadas ao heroísmo masculino. Na Palestina, existe a lenda de que a mulher também pode se tornar uma heroína ao dar o exemplo de coragem nas formas de reagir em momentos de caos ou de grande estresse, quando pessoas mais fracas sentem-se derrotadas e sem esperança. O papel da mulher na sociedade palestina sob ocupação está principalmente associado à manutenção da família, à criação de crianças fortes, à integração da comunidade. Mas na prática está relacionado à convivência diária com a violência proveniente da presença dos colonos judeus e dos militares israelenses nas mínimas ações do dia a dia, mas também na política interna e na economia. Sua existência e luta têm como base a afirmação da identidade palestina e de suas religiões, de suas práticas culturais, ao mesmo tempo em que se resiste a opressões internas  inerentes ao patriarcado.

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Belém EAPPI/Maira Peres

Além disso, as mulheres palestinas sempre foram importantes no movimento de liberação da Palestina, como mostram histórias famosas como a de Leila Khaled. Somente em 2015, 291 mulheres de diferentes idades foram presas ou detidas por manifestações políticas, violentas ou não, contra a ocupação militar israelense (The Palestinian Center for Prisioner Studies – PCPS). Mulheres organizam protestos contra a ocupação, contra o próprio governo, lutam por seus direitos, criam organizações para dar suporte umas as outras, resistem.

Eu tinha uma história única sobre o que eu viria a viver aqui durante estes três meses do programa. Pensava que encontraria pessoas tristes e cansadas de uma ocupação que dura mais de 60 anos, fazendo com que já a terceira geração tenha nascido e crescido sob ela. Pensava que a única coisa que essas pessoas poderiam me ensinar era como existem sofrimentos maiores do que os meus próprios e o quão fúteis meus próprios problemas poderiam ser comparado aos deles. O que aprendi, na verdade, é que existe vida e amor sob ocupação. Existe luta e esperança, principalmente. Encontrei pessoas que cantam, apesar de ter que enfrentar as filas do checkpoint (postos de controle) todos os dias de manhã. Aprendi que não é preciso ser triste para lutar.

 Fonte: http://english.palinfo.com/site/pages/details.aspx?itemid=75941

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Maira Peres

EA do Grupo 59 em Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

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