Jesus era palestino: uma reflexão sobre (a falta de lugar para) o Natal

A Terra Santa não recebe este nome por acaso. Tanto os territórios palestinos quanto os de Israel representam uma grande parcela do que teria sido palco de muitas histórias da Bíblia judaico-cristã e do Corão muçulmano. As convergências sobre assuntos religiosos são tantas quantas são as divergências, e a complexidade da situação na Palestina e Israel não para por aí.

Em tempos de natal, é interessante pensarmos um pouco sobre Jesus, pois todo dia 24 e 25 de dezembro se comemora o seu “natal”. Há controvérsias quanto ao lugar em que Jesus nasceu, pois, pelo menos três lugares diferentes são apontados como possíveis. O mais famoso é onde foi construída a Igreja da Natividade, em Belém, dentro da qual há uma estrela de prata colocada no exato local onde Jesus teria nascido.

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Entrada do Campo de Refugiado de Aida em Belém ©PAEPI/Renan Leme

Conforme a fé cristã, a jovem judia e virgem Maria, grávida de Jesus, ia montada num jumentinho e acompanhada por seu noivo José da Galileia para Belém, onde deveriam participar de recenseamento ordenado pelo governo daquela época. Jesus nasceu no meio do caminho, dentro de uma estrebaria pobre e foi colocado numa manjedoura para descansar porque não havia lugar nas hospedarias.

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Muro de Segregação em Belém ©PAEPI/Renan Leme

Dizem que, no trajeto para Belém, Maria também passou por Yanoun, pequena vila palestina onde morei durante a participação como EA. É por isso, dizem, que as azeitonas de lá são as melhores da região. Sem dúvida elas são! A bem da verdade, a presença de internacionais em Yanoun ainda é indispensável, pois inibe violências e provocações por parte dos colonos de assentamentos judaicos ao redor, ilegais até mesmo para Israel e outras transgressões aos acordos internacionais assinados por ambas as partes.

Há muitos judeus e israelenses que que sofrem com o conflito. De fato, a situação gera insegurança e dor para todos os que vivem. Mas, seguramente, quem se aproximar para vivenciar um pouco da realidade atual do povo da Palestina, sob ocupação israelense, reconhecerá que Israel é o maior violador de direitos humanos neste conflito e o povo palestino é a maior vítima nesse contexto. A vida na Cisjordânia e na Faixa de Gaza é de incerteza, falta de esperança e muitas dificuldades. A fronteiras e oportunidades em geral são restritas a poucos que conseguem têm a sorte de conquistar o direito de trabalhar, cultivar ou construir casas.

Jesus, que era filho de mãe judia e palestino, disse que se identificava com os oprimidos, desabrigados e excluídos. Ele se via neles: “Quando deram de comer a um destes pequeninos, a mim o fizeram. Quando acolheram um estrangeiro, a mim o fizeram”. Ainda bem pequeno, ele teve de deixar sua terra e viver como refugiado no Egito. O motivo era que o rei mandou matar os meninos de dois anos de idade para baixo: eles seriam um problema no futuro. Fato semelhante ainda ocorre com a prisão de crianças e adolescentes palestinos, tidos como perigosos e terroristas em potencial. Isso se confirma com a presença ostensiva de soldados israelenses nas proximidades de escolas, por exemplo, para que, desde cedo, as crianças árabes aprendam “quem manda” e não representem resistência no futuro. O rei que perseguiu os meninos era o judeu Herodes, numa época em que os judeus eram oprimidos na Palestina. O quadro atual é semelhante: os palestinos são oprimidos até mesmo pelos políticos que deveriam defender seus interesses e avançar nas negociações por paz e por direitos humanos.

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©PAEPI/Renan Leme

Herodes se sujeitava ao império romano, que mantinha a Palestina e outras terras ocupadas. Para os projetos imperialistas/colonialistas de hoje, a região da Terra Santa ainda atende muito bem ao propósito de inserir a cultura e dominação ocidental no Oriente Médio, além de fazer girar o mercado bélico com a continuidade do conflito. Lembro-me de alguns dias que passamos em Belém, e víamos da janela do hotel uma espécie de tanque de guerra do exército israelense que atirava muitas bombas de gás ao mesmo tempo contra um pouco mais de cem palestinos durante um protesto. A manifestação começou por causa dos problemas envolvendo o acesso à mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, somados à indignação pela morte de um garoto de treze anos que vivia num campo de refugiados. O menino foi alvejado por um tiro que veio da torre de vigia do muro que separa Belém de Jerusalém. Após o protesto, a rua estava forrada de cápsulas de balas e de bombas de gás e de efeito moral. Dos palestinos ficaram inúmeras pedras e bolinhas de gude, usadas como arma pelos palestinos.

Não só o natal, mas a vida na Cisjordânia é um desafio cada vez maior e muitos estão desistindo. Os que resistem o fazem pela persistência ou porque não têm para onde ir. A saída de muitos palestinos, inclusive membros das igrejas cristãs, tem sido a de procurar abrigo em outros países. O papai Noel não é generoso com as crianças de lá. Mas, mesmo assim, dar à luz tem sido uma forma de resistência das mulheres palestinas para garantir que seu povo não será extinto. A ocupação, porém, coloca em cheque o direito de muitas crianças acessarem um hospital ou clínica de maternidade. As crianças judias já crescem aprendendo a ter medo de quem não é judeu e a enxerga-los como inimigos, que podem se manifestar mais cedo ou mais tarde. O bom velhinho talvez seria encarado como mais um infiltrado antissemita.

Se Jesus estivesse entre nós hoje em dia, não seria contra a existência do estado moderno de Israel, como também não o somos, porque é o lar de muita gente que em outros momentos da história sofreu perseguição e preconceito. Mas, certamente não deixaria de criticar as injustiças que o Estado pratica em nome do judaísmo, como já acontecia na época de Jesus, e que, inclusive, o levaram à morte. Para o cristianismo, porém, Jesus ainda está vivo porque ressuscitou, e continua a inspirar seus seguidores a fazer o que ele fez e a consolar o coração dos que sofrem, porque ele mesmo foi um dos esquecidos, oprimidos, vitimados e saqueados de seus direitos mais básicos pela truculência dos poderosos e seus sistemas de injustiça e morte. O projeto de um estado para garantir o lugar de um povo não pode ser construído sobre o não-lugar de outro. De acordo com a Bíblia, mesmo os hebreus do antigo Israel habitavam com outros povos, compartilhando a terra.

O evangelho conta que pouco depois de sua ressurreição, Jesus estava caminhando ao lado de dois de seus discípulos que estavam voltando para casa porque duvidavam da história que ouviram sobre seu mestre e, por isso, não o reconheceram. Ao fim do trajeto eles convidaram Jesus para entrar, comer e repousar. Ele aceitou e, na hora do partir do pão, foi reconhecido e desapareceu. Aqueles discípulos exerceram hospitalidade e solidariedade com um ser humano em situação de fragilidade e, no final das contas, ele era Jesus. A dor deles gerou empatia pela dor de outra pessoa e por mais que tivessem sofrido, guardavam a lição de amar ao próximo como a eles mesmos. Por isso tiveram o privilégio de ver a esperança renascer!

O natal onde Jesus nasceu continua sendo difícil. O clima é inóspito, o conflito é de matar a esperança, a religião mal interpretada alimenta o ódio e os interesses políticos e econômicos ditam as regras do jogo. Mesmo assim, ainda há pessoas de Israel, da Palestina e do mundo todo que conseguem enxergar algo positivo no outro (mesmo que ele ou ela seja diferente) e convidar para repartir o pão, os sonhos de paz, o desejo de justiça, a esperança de um mundo melhor. Afinal de contas, época de natal, é tempo de lembrar que toda a humanidade é uma comunidade fraterna, que há espaço para toda gente e que as fronteiras só deveriam aparecer nos mapas para localização geográfica. Não precisam ser de separação!

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EA do Grupo 57 em Yanoun

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado

 

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