Jesus nasce em Hebron neste Natal, pelo EA Manoel

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Jesus nasceu e isso é simbolicamente forte para os cristãos. O nascimento de Jesus significa o nascimento do salvador, do redentor, aliás, poderia se afirmar que não há cristianismo sem Cristo e só há Cristo porque houve Jesus. Mas paradoxalmente esse nascimento acontece num contexto de deslocamento, de exílio. Conta a narrativa bíblica que José teve que voltar a Belém para o recenseamento (Luc, 2,4). Segundo o historiador Flavio Joséfo, o recenseamento era algo comum feito pelo império romano com diferentes finalidades: contar os homens, cobrar taxas e/ou jurar lealdade ao imperador. De qualquer forma era uma maneira de controlar o povo e a terra.  Isto é, José, o pai de Jesus foi obrigado a se locomover por causa de um programa de controle do império romano. E assim, o verbo se fez carne no filho de um refugiado que não tinha onde nascer e ao nascer teve que ser escondido no exílio. Que salvador é esse?

Maria foi uma das raras mães que não chorou a morte de seu filho pois o escondeu no exílio no Egito, Herodes mandou matar todos (Mat. 2.16). É natal na palestina e muitas mães têm que esconder seus filhos e filhas, outras choram a morte, enquanto outras ainda hoje pedem os corpos dos filhos/as mortos/as para lhes dar um último adeus, elas querem simplesmente o direito de chorar a morte dos seus filhos e sepultá-los como corresponde. Israel detém 23 corpos de palestinos mortos por eles mesmos. Quem tem o direito de tirar a vida de alguém? E ainda de não devolver os corpos as famílias?

Interior da tenda em que se reunem os familiares

Interior da tenda em que se reúnem os familiares ©PAEPI/Manoel Botelho

Entrada da tenda onde se reunem os familiares dos mortos que esperam os corposo

Entrada da tenda onde se reúnem os familiares dos mortos que esperam os corpos ©PAEPI/Manoel Botelho

Para as/os cristãs/cristãos o nascimento de Jesus tem sentido por causa da sua vida e morte, mas sua vida só foi possível enquanto filho de exilado. Nancy Cardoso disse: “Vou correr e chorar com eles, porque é lá, na periferia da ocupação do império e dos seus soldados que Deus vai escolher novamente a tornar-se humana e habitar entre nós.”[1] Não é no império, nem no poder que Jesus tem espaço, mas é na periferia, é entre os refugiados e exilados que ele se encontra. Aqueles que ocupam a terra são contrários a esse Jesus nascido em situação de exílio, aqueles que ocupam a terra não querem perder seu poder e para tanto precisam matar, inclusive matar as crianças. Nessa lógica, não importa nada além do poder, da autoridade, do controle. E pra a manutenção desse poder é necessário assumir que algumas vidas valem mais do que outras, pior do que isso, que algumas vidas não têm nenhum valor. E o anterior justifica e legitima os abusos e as mortes cometidas.

Depois de adulto, Jesus também mostrou uma clara opção pelo lado oposto do império. Ele era um sinal de constante contradição, a qual já tinha sido anunciada (Luc 2, 34). Durante sua vida chamou um samaritano –“estrangeiro impuro”– de próximo, conversou com mulheres consideradas “impuras”, trabalhou no sábado – porque se importou com a vida e não com as regras –, não julgou uma adúltera, e tantos outros gestos que mostram que Jesus nunca serviu aos interesses do império e nem quis satisfazer os anseios imperiais da sua própria religião. Esta postura de contestação e contradição lhe causaria perseguição e sua morte.

O nascimento e a vida de Jesus nos mostram que o império não se importa com as pessoas, sejam crianças, mulheres, jovens ou adultos, isto é, não lhe interessa a vida e sim manter o poder a qualquer preço. Por isto, há e sempre haverá duas opções no natal, ceder ao império e suas forças (às vezes é o caminho mais curto e fácil) mantendo assim alguns privilégios, ou se juntar a Jesus e seu caminho aparentemente contraditório de quebrar algumas regras imperiais em prol da vida.

Em qualquer lugar do mundo estamos diante dessas duas opções, o império ou a vida, e  principalmente a vida das vitimas do império. Aqui em Hebron não é muito diferente. As mães aqui choram não só a morte de seus filhos e filhas, mas cessam de chorar, pois não tem nem seus corpos para o funeral. Elas não podem enterrar seus filhos porque o império não quer devolver os corpos. Em Hebron o império dita as regras e as executa com seu poder, diz onde se pode andar, fecha casas, demole outras, controla o cotidiano e tira a paz.

professoras e criancas sendo revistadas para irem a escola

Professoras e crianças sendo revistadas para irem a escola ©PAEPI/Manoel Botelho

Diante disso, minha esperança é que nesse natal prevaleça a vida, que nesse natal Jesus nasça pra essas famílias, pra essas mães, irmãs, esposas, assim como pra esses pais, irmãos, amigos e amigas. Enfim, que Jesus nasça pra esse povo que sofre com os abusos do império, que o verbo se faça carne e habite de novo alí, no território ocupado, pois certamente Jesus não está com o Império, Jesus nasce em Hebron, em Belém, em Ramalah… Jesus nasce na Palestina.

[1]CARDOSO. Nancy ChristmasAlert 2015, Belém, Palestina: KairosPalestine. Tradução livre

Manoel BotelhoIMG-20151224-WA0003

EA do Grupo 59 em Hebron

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

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