O Natal e a vida sob ocupação em Belém, pela EA Maira

Inevitavelmente o ano chega ao seu fim e com ele a reflexão sobre o ano que passou, assim como os planos e esperanças para o futuro. Uma época para aproveitar os feriados e ficar com a família e amigos, em muitos lugares. Na Palestina não é diferente. Exceto pelo fato de que mais um ano acaba e os palestinos ainda estão na busca por justiça, lutando contra ela em seu dia a dia, especialmente com o levante popular que está acontecendo desde outubro deste ano. Belém, a cidade onde viverei durante três meses fornecendo presença protetiva, é onde se encontra a Igreja da Natividade. A cidade recebe muitos turistas e visitantes em Dezembro, mês em que as celebrações natalinas começam com o Natal católico e protestante no dia 25. É de se esperar que este momento também traga visibilidade para o sofrimento diário que os palestinos têm vivido sob ocupação militar israelense.

Viver aqui é presenciar as diversas formas em que se tem tentado normalizar a ocupação. Em uma manhã em que monitoramos o checkpoint 300, que separa Belém de Jerusalém, uma mulher israelense nos aborda e questiona: “por que vocês estão aqui e não na Síria? Não há nada para fazer aqui, está tudo bem.” É possível compreender como ela chegou a essa conclusão. Para um observador distraído – ou desinteressado – os palestinos têm uma vida normal, visto que trabalham, estudam, têm carros, têm decoração de Natal na rua, vão à escola, bares e restaurantes. Mas não é preciso ir muito fundo para ver que a vida aqui oscila entre tranquilidade e pânico, segurança e ansiedade, esperança e desespero. Afinal a vida na ocupação não chega nem perto de ser confortável.

Viver sob a ocupação é levar pelo menos uma hora e meia de ônibus para ir de Belém a Jerusalém, cidades que ficam a uma distância de 7km uma da outra, por causa dos checkpoints. É ter que descer do ônibus em um dia de chuva e ficar esperando em baixo da chuva na fila para ser revistado, enquanto turistas estrangeiros podem ficar dentro do ônibus aguardando. Também enquanto isso colonos ilegais israelenses têm sua própria estrada e conseguem se movimentar livremente. É ter que chegar no checkpoint às 4h da madrugada, ou até mesmo antes, e ficar pelo menos uma hora na fila para poder chegar a tempo no trabalho em Jerusalém ou outras cidades israelenses. É não saber se hoje aleatoriamente você vai conseguir passar pelo checkpoint, porque pode ser que aconteça de seu nome estar em uma lista de pessoas que não podem passar, sem nenhuma explicação.

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“Você é livre para fazer o que nós mandamos” ©PAEPI/Maira Peres

Viver na ocupação é não ter permissão para visitar locais sagrados para a sua crença, por causa da sua nacionalidade. É não poder ampliar a sua casa ou fazer reformas porque a permissão para construção nunca é concedida pelas autoridades israelenses para um palestino e porque se você ousar fazer qualquer construção sem permissão eles virão até sua casa a demolir e ainda te cobrarão uma multa pelo serviço prestado. É receber ordens de demolição aleatoriamente e ver assentamentos sendo construídos onde antes era sua casa, sua terra, sua plantação de oliveiras. É se ver separado de suas terras por um muro de 12 metros ou por uma cerca, com acesso restrito ou nenhum acesso a elas.

Viver na ocupação é ter medo de deixar suas crianças irem para a escola, pois lá estão os soldados israelenses prontos para proteger todos os direitos dos colonos israelenses e nenhum direito de qualquer palestino, criança ou adulto. É ver as crianças crescerem rápido demais em uma realidade de violência na qual elas não podem ser crianças por muito tempo. É ver as crianças ficando doentes em virtude do gás lacrimogêneo com uma química extremamente forte que constantemente é jogado dentro das escolas, dentro das casas, nas ruas. É ver os jovens indo embora das cidades em busca de um futuro sem violência em outros países.

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Crianças palestinas da vila de Tuqu’ ©PAEPI/Maira Peres

Viver sob a ocupação é ter frequentemente sua vila e casa invadidas no meio da noite por militares israelenses como punição coletiva para os protestos que estão sendo feitos por jovens e crianças, que atiram pedras contra o muro de separação, contra os soldados, contra os colonos ilegais que roubam suas terras.

Mas viver sob a ocupação também é ver a resiliência e a força que o povo palestino é capaz. É vê-los não deixarem de ser pessoas receptivas e alegres, que acreditam em uma paz justa entre os povos, apesar da realidade que persiste. É ter esperança e lutar constantemente contra a ocupação. Existir é resistir, dizem as pichações pela cidade. Desta forma, celebrar o Natal e manter as tradições cristãs na cidade em que Jesus nasceu é uma forma de resistência. Aqui estão e aqui permanecerão até que a justiça seja feita.

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Árvore de Natal e bandeira Palestina enfeitam a cidade de Beit Jala na preparação para o Natal ©PAEPI/Maira Peres

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Maira Peres

EA do Grupo 59 em Belém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado.

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