Jesus era palestino: uma reflexão sobre (a falta de lugar para) o Natal

A Terra Santa não recebe este nome por acaso. Tanto os territórios palestinos quanto os de Israel representam uma grande parcela do que teria sido palco de muitas histórias da Bíblia judaico-cristã e do Corão muçulmano. As convergências sobre assuntos religiosos são tantas quantas são as divergências, e a complexidade da situação na Palestina e Israel não para por aí.

Em tempos de natal, é interessante pensarmos um pouco sobre Jesus, pois todo dia 24 e 25 de dezembro se comemora o seu “natal”. Há controvérsias quanto ao lugar em que Jesus nasceu, pois, pelo menos três lugares diferentes são apontados como possíveis. O mais famoso é onde foi construída a Igreja da Natividade, em Belém, dentro da qual há uma estrela de prata colocada no exato local onde Jesus teria nascido.

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Entrada do Campo de Refugiado de Aida em Belém ©PAEPI/Renan Leme

Conforme a fé cristã, a jovem judia e virgem Maria, grávida de Jesus, ia montada num jumentinho e acompanhada por seu noivo José da Galileia para Belém, onde deveriam participar de recenseamento ordenado pelo governo daquela época. Jesus nasceu no meio do caminho, dentro de uma estrebaria pobre e foi colocado numa manjedoura para descansar porque não havia lugar nas hospedarias.

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Muro de Segregação em Belém ©PAEPI/Renan Leme

Dizem que, no trajeto para Belém, Maria também passou por Yanoun, pequena vila palestina onde morei durante a participação como EA. É por isso, dizem, que as azeitonas de lá são as melhores da região. Sem dúvida elas são! A bem da verdade, a presença de internacionais em Yanoun ainda é indispensável, pois inibe violências e provocações por parte dos colonos de assentamentos judaicos ao redor, ilegais até mesmo para Israel e outras transgressões aos acordos internacionais assinados por ambas as partes.

Há muitos judeus e israelenses que que sofrem com o conflito. De fato, a situação gera insegurança e dor para todos os que vivem. Mas, seguramente, quem se aproximar para vivenciar um pouco da realidade atual do povo da Palestina, sob ocupação israelense, reconhecerá que Israel é o maior violador de direitos humanos neste conflito e o povo palestino é a maior vítima nesse contexto. A vida na Cisjordânia e na Faixa de Gaza é de incerteza, falta de esperança e muitas dificuldades. A fronteiras e oportunidades em geral são restritas a poucos que conseguem têm a sorte de conquistar o direito de trabalhar, cultivar ou construir casas.

Jesus, que era filho de mãe judia e palestino, disse que se identificava com os oprimidos, desabrigados e excluídos. Ele se via neles: “Quando deram de comer a um destes pequeninos, a mim o fizeram. Quando acolheram um estrangeiro, a mim o fizeram”. Ainda bem pequeno, ele teve de deixar sua terra e viver como refugiado no Egito. O motivo era que o rei mandou matar os meninos de dois anos de idade para baixo: eles seriam um problema no futuro. Fato semelhante ainda ocorre com a prisão de crianças e adolescentes palestinos, tidos como perigosos e terroristas em potencial. Isso se confirma com a presença ostensiva de soldados israelenses nas proximidades de escolas, por exemplo, para que, desde cedo, as crianças árabes aprendam “quem manda” e não representem resistência no futuro. O rei que perseguiu os meninos era o judeu Herodes, numa época em que os judeus eram oprimidos na Palestina. O quadro atual é semelhante: os palestinos são oprimidos até mesmo pelos políticos que deveriam defender seus interesses e avançar nas negociações por paz e por direitos humanos.

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©PAEPI/Renan Leme

Herodes se sujeitava ao império romano, que mantinha a Palestina e outras terras ocupadas. Para os projetos imperialistas/colonialistas de hoje, a região da Terra Santa ainda atende muito bem ao propósito de inserir a cultura e dominação ocidental no Oriente Médio, além de fazer girar o mercado bélico com a continuidade do conflito. Lembro-me de alguns dias que passamos em Belém, e víamos da janela do hotel uma espécie de tanque de guerra do exército israelense que atirava muitas bombas de gás ao mesmo tempo contra um pouco mais de cem palestinos durante um protesto. A manifestação começou por causa dos problemas envolvendo o acesso à mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, somados à indignação pela morte de um garoto de treze anos que vivia num campo de refugiados. O menino foi alvejado por um tiro que veio da torre de vigia do muro que separa Belém de Jerusalém. Após o protesto, a rua estava forrada de cápsulas de balas e de bombas de gás e de efeito moral. Dos palestinos ficaram inúmeras pedras e bolinhas de gude, usadas como arma pelos palestinos.

Não só o natal, mas a vida na Cisjordânia é um desafio cada vez maior e muitos estão desistindo. Os que resistem o fazem pela persistência ou porque não têm para onde ir. A saída de muitos palestinos, inclusive membros das igrejas cristãs, tem sido a de procurar abrigo em outros países. O papai Noel não é generoso com as crianças de lá. Mas, mesmo assim, dar à luz tem sido uma forma de resistência das mulheres palestinas para garantir que seu povo não será extinto. A ocupação, porém, coloca em cheque o direito de muitas crianças acessarem um hospital ou clínica de maternidade. As crianças judias já crescem aprendendo a ter medo de quem não é judeu e a enxerga-los como inimigos, que podem se manifestar mais cedo ou mais tarde. O bom velhinho talvez seria encarado como mais um infiltrado antissemita.

Se Jesus estivesse entre nós hoje em dia, não seria contra a existência do estado moderno de Israel, como também não o somos, porque é o lar de muita gente que em outros momentos da história sofreu perseguição e preconceito. Mas, certamente não deixaria de criticar as injustiças que o Estado pratica em nome do judaísmo, como já acontecia na época de Jesus, e que, inclusive, o levaram à morte. Para o cristianismo, porém, Jesus ainda está vivo porque ressuscitou, e continua a inspirar seus seguidores a fazer o que ele fez e a consolar o coração dos que sofrem, porque ele mesmo foi um dos esquecidos, oprimidos, vitimados e saqueados de seus direitos mais básicos pela truculência dos poderosos e seus sistemas de injustiça e morte. O projeto de um estado para garantir o lugar de um povo não pode ser construído sobre o não-lugar de outro. De acordo com a Bíblia, mesmo os hebreus do antigo Israel habitavam com outros povos, compartilhando a terra.

O evangelho conta que pouco depois de sua ressurreição, Jesus estava caminhando ao lado de dois de seus discípulos que estavam voltando para casa porque duvidavam da história que ouviram sobre seu mestre e, por isso, não o reconheceram. Ao fim do trajeto eles convidaram Jesus para entrar, comer e repousar. Ele aceitou e, na hora do partir do pão, foi reconhecido e desapareceu. Aqueles discípulos exerceram hospitalidade e solidariedade com um ser humano em situação de fragilidade e, no final das contas, ele era Jesus. A dor deles gerou empatia pela dor de outra pessoa e por mais que tivessem sofrido, guardavam a lição de amar ao próximo como a eles mesmos. Por isso tiveram o privilégio de ver a esperança renascer!

O natal onde Jesus nasceu continua sendo difícil. O clima é inóspito, o conflito é de matar a esperança, a religião mal interpretada alimenta o ódio e os interesses políticos e econômicos ditam as regras do jogo. Mesmo assim, ainda há pessoas de Israel, da Palestina e do mundo todo que conseguem enxergar algo positivo no outro (mesmo que ele ou ela seja diferente) e convidar para repartir o pão, os sonhos de paz, o desejo de justiça, a esperança de um mundo melhor. Afinal de contas, época de natal, é tempo de lembrar que toda a humanidade é uma comunidade fraterna, que há espaço para toda gente e que as fronteiras só deveriam aparecer nos mapas para localização geográfica. Não precisam ser de separação!

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EA do Grupo 57 em Yanoun

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado

 

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Um conto de Natal palestino

Joaquim e Ana, pais de Maria, viviam em Nazaré, na Palestina. Suas famílias estavam lá há gerações, mas em 1948, com a criação do Estado de Israel, muitos dos seus amigos e parentes que moravam na região foram expulsos, alguns mortos, durante um processo deliberado e violento de limpeza étnica. Na época, mais da metade da população palestina foi evacuada da região que veio a ser chamada de Israel: 531 vilas foram destruídas. Esse processo ficou conhecido como Nakba – “catástrofe” em árabe -, e hoje há em torno de 5 milhões de palestinos refugiados, esperando o dia em que voltarão para suas casas.

Os pais de Maria permaneceram em Nazaré e se tornaram, assim como ela ao nascer, cidadãos israelenses. Isso não significava que tivessem os mesmos direitos e oportunidades dos cidadãos judeus de Israel. A alocação de verba do governo no bairro em que viviam era prova disso: os palestinos são 20% da população de Israel e somente 6,25% dos recursos públicos são destinados a eles. Na escola frequentada por Maria, só para palestinos – já que o sistema educacional é dividido – o investimento por aluno era seis vezes menor do que em uma escola judaica.

Quando soube que estava grávida, ela manteve o fato em segredo até a visita a sua prima Isabel, que também esperava um filho. Ela e seu marido Zacarias moravam em Al Araqib, mais ao Sul do país. Era uma das 60 vilas não reconhecidas por Israel: lá não havia nenhum serviço público. Quando Maria chegou, os primos, já idosos, reerguiam as casas que haviam sido demolidas por Israel pela 62ª vez.

De volta a Nazaré, o nascimento do filho se aproximava, quando chegou a notícia sobre o processo judicial de seu marido José. Ele nascera em Belém, cidade localizada na região da Cisjordânia, parte da Palestina ocupada por Israel desde 1967. Desde que se casaram, vinham enfrentando muitas dificuldades para viverem juntos, por causa de uma lei de 2003 que proíbe palestinos de Gaza e da Cisjordânia, como José, de viverem com suas esposas em Israel.

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Grafite no muro de Belém ©Pedro Charbel

Desde que se casou com Maria, vinha batalhando judicialmente pelo direito de morarem juntos em Nazaré. A poucas semanas do nascimento de seu filho, a ordem de deportação chegou: para cumprir a determinação do Estado de Israel, José precisava ir à Belém. Temendo que fossem ficar separados e diante do iminente nascimento do filho, o casal decide fazer a jornada juntos.Os palestinos da Cisjordânia são separados de Israel por uma extenso muro, em alguns trechos em forma de cerca, considerado ilegal pela Corte Internacional de Justiça, pois anexa blocos de assentamentos ilegais e entrecorta terras palestinas. Todos os dias, milhares de palestinos como José, chegam durante a madrugada nos postos de controle e se agrupam entre grades e soldados para cruzarem para o outro lado. São palestinos com permissões de trabalho em Israel, a maioria em sub-empregos. No caso de José, o trabalho era em uma carpintaria israelense.

Morar em Belém não seria fácil. Os Acordos de Oslo dividiram a Cisjordânia ocupada entre a administração da Autoridade Nacional Palestina e Israel. Sob o controle palestino relativo resta menos de 40% de território descontínuo, um verdadeiro arquipélago no qual 90% dos palestinos se concentram. Nos 60% restantes, assentamentos judeus e bases militares israelenses ocupam 70% da área, o que, entre outras restrições, faz com que apenas 1% esteja sujeito à construção por palestinos com a devida autorização.

José e Maria se hospedaram na casa de um amigo nos arredores da cidade. Eram humildes e não se importariam de dormir num estábulo se fosse necessário. Sorte que esse não era o caso pois infelizmente o estábulo da casa em que estavam fora demolido poucos dias antes – assim como outros 170 somente em 2010.  Nesse mesmo ano, 222 casas palestinas foram destruídas por Israel, o que, somado a restrições no acesso à água e a outros recursos básicos vem contribuindo para o contínuo deslocamento forçado de palestinos.

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Cartão de Natal do artista britânico Banksy mostra José e Maria impedidos de cruzar o muro da Cisjordânia (Reprodução)

Maria entrou em trabalho de parto poucas horas depois de chegarem à casa. Tão logo as contrações se intensificaram, José tomou o carro do amigo emprestado e dirigiu rumo ao hospital. Locomover-se na Cisjordânia, no entanto, nunca é simples.  O movimento é restringido por blocos de assentamentos judeus, o imenso muro que entrecorta e anexa territórios,  estradas exclusivas para judeus e uma série de barreiras e postos de controle, mesmo entre comunidades palestinas – ao todo são 513  impedimentos localizados no interior da Cisjordânia.

José contava o tempo entre as contrações de Maria quando avistou o controle militar adiante na estrada. O soldado israelense sinalizou para que encostasse o carro para revista. José explicou a situação da esposa para que agilizassem a passagem, mas os soldados não se incomodaram em prosseguir a vistoria no veículo. Ao insistir em apressá-los, José foi posto para fora do carro e levado para a guarita próxima. Voltou a tempo de ajudar a esposa, prestes a dar à luz, a se deitar no chão ao lado do carro.

Jesus nasceu ali, no asfalto, a alguns metros do controle militar israelense.

Um grupo de pastores protestava nos campos próximos à cidade de Beit Sahour contra a expansão dos assentamentos na região quando ouviram sobre o caso. Partiram rumo ao hospital, onde o casal e o recém nascido acabavam de chegar. Três importantes líderes palestinos, refugiados na Jordânia desde 1967, tentaram cruzar a fronteira para visitar o menino. Foram, no entanto, impedidos pelo controle israelense.

O caso de Jesus ficou famoso, mas de maneira semelhante, entre 2000 e 2007, 10% das grávidas palestinas rumo a hospitais foram atrasadas e 69 bebês acabaram nascendo em postos de controle nos Territórios Palestinos Ocupados. O filho do casal que vinha batalhando pelo direito de viver juntos em Nazaré, nascido num posto de controle, tornou-se mais um símbolo da luta palestina e ficou, desde então, conhecido como Jesus de Nazaré. Levaria consigo o nome da cidade que lhe fora negada, como tantos outros palestinos refugiados e deslocados internos. Morreria como mártir, sem nunca se esquecer.

Leia aqui a versão em inglês.

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Pedro Ferracio Charbel

EA do Grupo 43 em Yanoun

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Jesus nasce em Hebron neste Natal, pelo EA Manoel

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Jesus nasceu e isso é simbolicamente forte para os cristãos. O nascimento de Jesus significa o nascimento do salvador, do redentor, aliás, poderia se afirmar que não há cristianismo sem Cristo e só há Cristo porque houve Jesus. Mas paradoxalmente esse nascimento acontece num contexto de deslocamento, de exílio. Conta a narrativa bíblica que José teve que voltar a Belém para o recenseamento (Luc, 2,4). Segundo o historiador Flavio Joséfo, o recenseamento era algo comum feito pelo império romano com diferentes finalidades: contar os homens, cobrar taxas e/ou jurar lealdade ao imperador. De qualquer forma era uma maneira de controlar o povo e a terra.  Isto é, José, o pai de Jesus foi obrigado a se locomover por causa de um programa de controle do império romano. E assim, o verbo se fez carne no filho de um refugiado que não tinha onde nascer e ao nascer teve que ser escondido no exílio. Que salvador é esse?

Maria foi uma das raras mães que não chorou a morte de seu filho pois o escondeu no exílio no Egito, Herodes mandou matar todos (Mat. 2.16). É natal na palestina e muitas mães têm que esconder seus filhos e filhas, outras choram a morte, enquanto outras ainda hoje pedem os corpos dos filhos/as mortos/as para lhes dar um último adeus, elas querem simplesmente o direito de chorar a morte dos seus filhos e sepultá-los como corresponde. Israel detém 23 corpos de palestinos mortos por eles mesmos. Quem tem o direito de tirar a vida de alguém? E ainda de não devolver os corpos as famílias?

Interior da tenda em que se reunem os familiares

Interior da tenda em que se reúnem os familiares ©PAEPI/Manoel Botelho

Entrada da tenda onde se reunem os familiares dos mortos que esperam os corposo

Entrada da tenda onde se reúnem os familiares dos mortos que esperam os corpos ©PAEPI/Manoel Botelho

Para as/os cristãs/cristãos o nascimento de Jesus tem sentido por causa da sua vida e morte, mas sua vida só foi possível enquanto filho de exilado. Nancy Cardoso disse: “Vou correr e chorar com eles, porque é lá, na periferia da ocupação do império e dos seus soldados que Deus vai escolher novamente a tornar-se humana e habitar entre nós.”[1] Não é no império, nem no poder que Jesus tem espaço, mas é na periferia, é entre os refugiados e exilados que ele se encontra. Aqueles que ocupam a terra são contrários a esse Jesus nascido em situação de exílio, aqueles que ocupam a terra não querem perder seu poder e para tanto precisam matar, inclusive matar as crianças. Nessa lógica, não importa nada além do poder, da autoridade, do controle. E pra a manutenção desse poder é necessário assumir que algumas vidas valem mais do que outras, pior do que isso, que algumas vidas não têm nenhum valor. E o anterior justifica e legitima os abusos e as mortes cometidas.

Depois de adulto, Jesus também mostrou uma clara opção pelo lado oposto do império. Ele era um sinal de constante contradição, a qual já tinha sido anunciada (Luc 2, 34). Durante sua vida chamou um samaritano –“estrangeiro impuro”– de próximo, conversou com mulheres consideradas “impuras”, trabalhou no sábado – porque se importou com a vida e não com as regras –, não julgou uma adúltera, e tantos outros gestos que mostram que Jesus nunca serviu aos interesses do império e nem quis satisfazer os anseios imperiais da sua própria religião. Esta postura de contestação e contradição lhe causaria perseguição e sua morte.

O nascimento e a vida de Jesus nos mostram que o império não se importa com as pessoas, sejam crianças, mulheres, jovens ou adultos, isto é, não lhe interessa a vida e sim manter o poder a qualquer preço. Por isto, há e sempre haverá duas opções no natal, ceder ao império e suas forças (às vezes é o caminho mais curto e fácil) mantendo assim alguns privilégios, ou se juntar a Jesus e seu caminho aparentemente contraditório de quebrar algumas regras imperiais em prol da vida.

Em qualquer lugar do mundo estamos diante dessas duas opções, o império ou a vida, e  principalmente a vida das vitimas do império. Aqui em Hebron não é muito diferente. As mães aqui choram não só a morte de seus filhos e filhas, mas cessam de chorar, pois não tem nem seus corpos para o funeral. Elas não podem enterrar seus filhos porque o império não quer devolver os corpos. Em Hebron o império dita as regras e as executa com seu poder, diz onde se pode andar, fecha casas, demole outras, controla o cotidiano e tira a paz.

professoras e criancas sendo revistadas para irem a escola

Professoras e crianças sendo revistadas para irem a escola ©PAEPI/Manoel Botelho

Diante disso, minha esperança é que nesse natal prevaleça a vida, que nesse natal Jesus nasça pra essas famílias, pra essas mães, irmãs, esposas, assim como pra esses pais, irmãos, amigos e amigas. Enfim, que Jesus nasça pra esse povo que sofre com os abusos do império, que o verbo se faça carne e habite de novo alí, no território ocupado, pois certamente Jesus não está com o Império, Jesus nasce em Hebron, em Belém, em Ramalah… Jesus nasce na Palestina.

[1]CARDOSO. Nancy ChristmasAlert 2015, Belém, Palestina: KairosPalestine. Tradução livre

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EA do Grupo 59 em Hebron

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Natal em Jerusalém, pela EA Mayara

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Vista da Cidade antiga de Jerusalém, Monte das Oliveiras ao fundo ©PAEPI/Mayara de Carvalho

À exceção do bairro cristão, na cidade antiga, onde as luzes de natal foram recebidas com festa na última quinta-feira, a comemoração do nascimento de Jesus não é percebida nas ruas de Jerusalém. O conflito Israel-Palestina, no entanto, pode ser visto a olhos nus todo o tempo.

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©PAEPI/Mayara de Carvalho

De olhos abertos, os cristãos em Jerusalém tem se perguntado, “diante de tamanha violência e de um contexto tão desumano, o que temos a comemorar nesse natal?”. Perguntam o que fazer, assim como a multidão interrogou João quando ele pregava o batismo de arrependimentos para o perdão dos pecados (Lucas, 3:7-18). Naquela ocasião, João respondeu que todos deveriam respeitar e repartir, com o que não tem, aquilo que lhes sobra.

A resposta de João parece dizer muito a indagação que fazemos hoje. Talvez os cristãos não possam, ainda que queiram, mudar o sistema, mas são capazes de influenciar individualmente, de mudar um a um, na esfera da micropolítica. É suficiente? Talvez não, mas reduz sofrimentos, compartilha esperanças e pode levar a ações verdadeiramente transformadoras. Parece ser esse também o nosso papel, enquanto acompanhantes ecumênicos nos territórios ocupados.

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Sabeel, Centro de Teologia da Libertação Palestina ©PAEPI/Mayara de Carvalho

Assim, a comunidade cristã em Jerusalém tem feito um convite para olharmos o natal de forma menos romântica. Se pensarmos que um nascimento é sempre barulhento e doloroso, cheio de sofrimento, mas também coberto de esperança e contentamento, o nascimento de Jesus Cristo tem muito a dizer sobre o conflito Israel-Palestina. É desse modo que Jerusalém comemorará o natal: como uma oportunidade de transformação, de esperança e de lançar feixes de luz na escuridão.

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©PAEPI/Mayara de Carvalho

Mayara de Carvalho

EA do Grupo 59 em Jerusalém

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O Natal e a vida sob ocupação em Belém, pela EA Maira

Inevitavelmente o ano chega ao seu fim e com ele a reflexão sobre o ano que passou, assim como os planos e esperanças para o futuro. Uma época para aproveitar os feriados e ficar com a família e amigos, em muitos lugares. Na Palestina não é diferente. Exceto pelo fato de que mais um ano acaba e os palestinos ainda estão na busca por justiça, lutando contra ela em seu dia a dia, especialmente com o levante popular que está acontecendo desde outubro deste ano. Belém, a cidade onde viverei durante três meses fornecendo presença protetiva, é onde se encontra a Igreja da Natividade. A cidade recebe muitos turistas e visitantes em Dezembro, mês em que as celebrações natalinas começam com o Natal católico e protestante no dia 25. É de se esperar que este momento também traga visibilidade para o sofrimento diário que os palestinos têm vivido sob ocupação militar israelense.

Viver aqui é presenciar as diversas formas em que se tem tentado normalizar a ocupação. Em uma manhã em que monitoramos o checkpoint 300, que separa Belém de Jerusalém, uma mulher israelense nos aborda e questiona: “por que vocês estão aqui e não na Síria? Não há nada para fazer aqui, está tudo bem.” É possível compreender como ela chegou a essa conclusão. Para um observador distraído – ou desinteressado – os palestinos têm uma vida normal, visto que trabalham, estudam, têm carros, têm decoração de Natal na rua, vão à escola, bares e restaurantes. Mas não é preciso ir muito fundo para ver que a vida aqui oscila entre tranquilidade e pânico, segurança e ansiedade, esperança e desespero. Afinal a vida na ocupação não chega nem perto de ser confortável.

Viver sob a ocupação é levar pelo menos uma hora e meia de ônibus para ir de Belém a Jerusalém, cidades que ficam a uma distância de 7km uma da outra, por causa dos checkpoints. É ter que descer do ônibus em um dia de chuva e ficar esperando em baixo da chuva na fila para ser revistado, enquanto turistas estrangeiros podem ficar dentro do ônibus aguardando. Também enquanto isso colonos ilegais israelenses têm sua própria estrada e conseguem se movimentar livremente. É ter que chegar no checkpoint às 4h da madrugada, ou até mesmo antes, e ficar pelo menos uma hora na fila para poder chegar a tempo no trabalho em Jerusalém ou outras cidades israelenses. É não saber se hoje aleatoriamente você vai conseguir passar pelo checkpoint, porque pode ser que aconteça de seu nome estar em uma lista de pessoas que não podem passar, sem nenhuma explicação.

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“Você é livre para fazer o que nós mandamos” ©PAEPI/Maira Peres

Viver na ocupação é não ter permissão para visitar locais sagrados para a sua crença, por causa da sua nacionalidade. É não poder ampliar a sua casa ou fazer reformas porque a permissão para construção nunca é concedida pelas autoridades israelenses para um palestino e porque se você ousar fazer qualquer construção sem permissão eles virão até sua casa a demolir e ainda te cobrarão uma multa pelo serviço prestado. É receber ordens de demolição aleatoriamente e ver assentamentos sendo construídos onde antes era sua casa, sua terra, sua plantação de oliveiras. É se ver separado de suas terras por um muro de 12 metros ou por uma cerca, com acesso restrito ou nenhum acesso a elas.

Viver na ocupação é ter medo de deixar suas crianças irem para a escola, pois lá estão os soldados israelenses prontos para proteger todos os direitos dos colonos israelenses e nenhum direito de qualquer palestino, criança ou adulto. É ver as crianças crescerem rápido demais em uma realidade de violência na qual elas não podem ser crianças por muito tempo. É ver as crianças ficando doentes em virtude do gás lacrimogêneo com uma química extremamente forte que constantemente é jogado dentro das escolas, dentro das casas, nas ruas. É ver os jovens indo embora das cidades em busca de um futuro sem violência em outros países.

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Crianças palestinas da vila de Tuqu’ ©PAEPI/Maira Peres

Viver sob a ocupação é ter frequentemente sua vila e casa invadidas no meio da noite por militares israelenses como punição coletiva para os protestos que estão sendo feitos por jovens e crianças, que atiram pedras contra o muro de separação, contra os soldados, contra os colonos ilegais que roubam suas terras.

Mas viver sob a ocupação também é ver a resiliência e a força que o povo palestino é capaz. É vê-los não deixarem de ser pessoas receptivas e alegres, que acreditam em uma paz justa entre os povos, apesar da realidade que persiste. É ter esperança e lutar constantemente contra a ocupação. Existir é resistir, dizem as pichações pela cidade. Desta forma, celebrar o Natal e manter as tradições cristãs na cidade em que Jesus nasceu é uma forma de resistência. Aqui estão e aqui permanecerão até que a justiça seja feita.

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Árvore de Natal e bandeira Palestina enfeitam a cidade de Beit Jala na preparação para o Natal ©PAEPI/Maira Peres

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Maira Peres

EA do Grupo 59 em Belém

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