O niqab e o kipá

Enquanto se caminha na Cidade Velha, é difícil não notar a forte presença da Força de Defesa Israelense (IDF). São centenas deles em todas as esquinas, em áreas como a educação, entretenimento, espaço urbano, de serviços sociais, e ambiente familiar. Sem dúvida, a integração na sociedade israelense está diretamente condicionada ao serviço militar, que por sua vez é moldado como um dever social inquestionável e irrecusável.  Fardo para a minoria não-judia, trunfo para a maioria judaica

Na Cidade Velha, fieis oram do lado de fora da Mesquita após dias seguidos de restrições de movimento por militares. @EAPPI/E. Aldenberg

Na Cidade Velha, fieis oram do lado de fora da Mesquita após dias seguidos de restrições de movimento por militares. ©EAPPI/E. Aldenberg

Como um apêndice para os corpos, os militares ostentam suas armas apontadas para civis. De norte a sul de Israel, e em todo território palestino ocupado. Em Jerusalém, a presença militar representa um sinal revelador de um processo de militarização que é, sem dúvidas, responsável pelos mais de 60 anos de conflito com os palestinos. Para a sociedade israelense, o militarismo é uma ideologia onde a violência organizada é legitimada como uma solução de conflitos, e esse processo de militarização envolve tanto a propagação dessa ideologia criminosa, como a expansão do poder e influência das forcas armadas sobre uma minoria oprimida.

Palestinos são proibidos de circular na Cidade Velha e são posteriormente evacuados. ©EAPPI/Michelle Julianne

Palestinos são proibidos de circular na Cidade Velha e são posteriormente evacuados. ©EAPPI/Michelle Julianne

Na Palestina, qualquer criança a partir dos seus 4 anos sente na pele as consequências da ocupação militar, e elas são, em grande parte, as mais afetadas. A ordem é clara: a qualquer criança palestina vista atirando pedra, a sentença é prisão em cárcere israelense, onde a morte de sua infância é a prisão perpétua. Desde a Segunda Intifada, as crianças palestinas na Cisjordânia têm vivido uma escala de violência que tem moldado sua infância. A presença intimidante e onipresente dos militares e a frequente abordagem humilhante têm despertado sentimentos de perda de dignidade, honra e justiça.

Estudantes entre 6-15 anos sofrem corriqueiramente restrições de acesso à educação pelos militares em Jerusalém. ©EAPPI/Michelle Julianne

Estudantes entre 6-15 anos sofrem corriqueiramente restrições de acesso à educação pelos militares em Jerusalém. ©EAPPI/Michelle Julianne

Após a sua anexação a Israel, as leis israelenses passaram a ser aplicadas em Jerusalém. Aquele país é o único em que crianças são passíveis de serem jugadas automaticamente em tribunais militares. Uma regra não reconhecida internacionalmente e de que Israel lança mão para prender apenas menores palestinos, geralmente, pelo ato de atirar pedras.

Ainda de acordo com a lei israelense, as condenações podem ter penas de 10 a 20 anos de cadeia. Evidentemente, esses tribunais carecem de garantias básicas de um julgamento justo e igualitário.

Crianças palestinas sendo detidas na frente da escola pela força militar. ©EAPPI/Michelle Julianne

Crianças palestinas sendo detidas na frente da escola pela força militar. ©EAPPI/Michelle Julianne

O processo de prisão infantil tem requintes de crueldade. Primeiro, as crianças são levadas em uma viatura militar. Depois de horas deixadas com fome e com sede, são interrogadas sem o direito de ficar em silêncio, o que vai totalmente contra as leis internacionais. Elas ficam nesse centro de interrogatório sozinhas, sem os pais e sem direito a advogados. O interrogatório é na maioria das vezes coercivo e acompanhado de violência verbal e física, ferindo gravemente a convenção da ONU contra tortura.

Costumamos pensar sentimento e razão como conceitos opostos, desligados um do outro, trabalhando em mútua exclusão. O filósofo Michel Serrés chama de terceiro incluído àquilo que foge à dialética histórica, o que não seria nem um, nem outro, o impossível, desconhecido, impensável. Israel não odeia simplesmente o terrorismo que tanto diz combater. Em grande medida, precisa dele como desculpa para a prática de extermínio institucionalizada dos palestinos. Por isso, o produz. Não de maneira inconsciente, ou desregrada como já foi dito, mas através de uma tática perversa de humilhação dos palestinos desde a infância, para criar os “terroristas” que irá combater quando adultos.  Entre razão e sentimento, Israel articula uma racionalidade cruel, ou uma crueldade racional, algo que escapa ao senso comum, e por isso é tão difícil de ser denunciada.

Nisso, a foto de Hadeel Hashlamoon sob a mira do soldado israelense – a burca sob a mira do kipá – revela pelo que esconde: uma nação a quem foi dado armas contra um povo de quem foi tirada a nação.

©YAS

©YAS

 

Ver mais textos de Michelle Julianne nos links abaixo:

Jerusalém ocupada: relato de uma experiência em comunidades beduínas https://eappibrasil.com.br/2015/11/02/jerusalem-ocupada-relato-de-uma-experiencia-em-comunidades-beduinas/

Horizonte em pó: https://eappibrasil.com.br/2015/09/01/jerusalem-pela-ea-michelle/

 

 

Michelle perfil

Michelle Julianne

EA do Grupo 57 em Jerusalém

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento  do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepibrasil@gmail.com).

Obrigada/o.

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