Terra Santa: país das maravilhas ou filme de terror?

Uma breve reflexão da experiência no EAPPI.

O objetivo desse texto é tentar resumir minha experiência em Israel e na Palestina, vivenciada nos últimos três meses. Conhecer Israel e a Palestina é um sonho para muita gente, especialmente quando são pessoas religiosas, amantes da história ou interessadas de alguma forma nas narrativas bíblicas. Sou teólogo, cientista da religião e ministro de uma igreja pentecostal. Para mim, até poucos anos atrás, me ver na Terra Santa era um sonho. Não por achar que visitar Israel me aproximaria de Deus, mas porque fazia parte de um mundo que conhecia por ler as histórias e, de alguma forma, imaginava como poderia ser. Claro que não deixa de ter seu valor religioso, mas a experiência que tive foi como no conto de Alice no País das Maravilhas: apesar de um sonho, há nuances de pesadelo. Isso porque, do ponto de vista da paz justa que acontece em harmonia e respeito aos direitos humanos e aos acordos internacionais, as coisas quase nunca fazem sentido, a função das personagens envolvidas não é clara, é difícil encontrar uma saída e há sempre uma voz opressora e radical exclamando algo como “cortem a cabeça”.

©PAEPI/Renan Leme - Domo da Rocha

©PAEPI/Renan Leme – Domo da Rocha

Quando cheguei para participar do programa do EAPPI, a lua-de-mel com a Terra Santa durou alguns dias na capital internacional, Jerusalém. Especialmente a primeira noite: a vista da cidade velha, o som dos sinos das igrejas, as buzinas de judeus e das rezas muçulmanas ecoando pelo céu, a diversidade cultural, provocam a sensação de se estar num sonho. O pesadelo começou quando atravessei o primeiro checkpoint, que separa Jerusalém de Ramala, atual capital da Palestina. Os muros, torres de vigia e procedimentos são análogos a uma prisão. Por outro lado, Israel é um país livre, democrático e desenvolvido para quem tem cidadania israelense – especialmente para quem é judeu. Já a Palestina continua sonhando em ser um estado autônomo, mas ainda permanece sob dupla ocupação: interna, por políticos corruptos, lenientes ou violentos; e principalmente externa: pelas forças militares e econômicas do estado de Israel. A solução de dois estados, defendida pela ONU e prevista nos acordos assinados por ambos os povos, vai se tornando cada vez mais remota e impraticável.

©PAEPI/Renan Leme

©PAEPI/Renan Leme

Logo na primeira semana, “acordei” assustado e sem ar, dentro da casa de Duma, ainda quente das chamas que consumiram os sonhos e a vida de uma família palestina quase inteira. Um bebê morreu na hora. Seus pais faleceriam nas semanas seguintes. Apenas seu irmão de quatro anos continua lutando pela vida num hospital israelense. Os perpetradores do crime, identificados como judeus ultraortodoxos, eternizaram nas paredes externas a primazia do Rei Messias e a vingança através de pichações. Mesmo o Ministério da Defesa de Israel chamou o caso de ataque terrorista. Os pesadelos são ainda piores quando se tornam reais…

O sonho reaparecia no sorriso das crianças, nas paisagens bucólicas das montanhas e dos vales palestinos de “Samaria” e do Vale do Jordão. Mas se dissolvia nas águas das belas praias de Tel Aviv e Haifa, que apesar de cercadas de romantismo e brilho das luzes noturnas, o povo palestino não é bem-vindo como fora no passado.

©PAEPI/Renan Leme

©PAEPI/Renan Leme

Vi o sonho dos pequeninos se tornando realidade em uma pequena vila da Palestina que ganhou brinquedos novos para o humilde playground. Em frente, um grande e desenvolvido assentamento israelense, que mesmo sendo ilegal diante da lei internacional, é a realização do sonho de judeus que no passado andaram desamparados pelas perseguições e holocaustos na Europa. Não por acaso, os assentamentos são muito mais estáveis e desenvolvidos do que as casas palestinas que há décadas tentam se estabelecer em seu território de direito. Por outro lado, facilmente, o sonho humilde de muita gente na Cisjordânia se transforma em escombros de demolição diante dos tratores implacáveis do exército de Israel.

Mas, nem sempre os israelenses se isentam do sofrimento na Terra Santa (e da sensibilidade que ele traz). Em Jerusalém, uma sinagoga do judaísmo reformado abriu suas portas para receber gente que fala de acordos de paz, de direitos humanos, de dignidade das pessoas, de solução para a convivência harmoniosa ao invés de ódio.

©PAEPI/Renan Leme

©PAEPI/Renan Leme

Na fronteira com a Faixa de Gaza conheci o sonho de uma comunidade que tem construído um kibutz, seguindo o modelo igualitário e solidário dos primeiros imigrantes judeus para a Palestina. O parquinho das crianças do kibutz tem no centro um bunker (compartimento seguro) para o caso de bombardeios. Apesar de pintado de cores, não consegue apagar a história cinza das guerras. Vez por outra, mísseis de Gaza atingem casas em Israel. Em tempos de conflitos mais acirrados, aprende-se a se viver apenas com o necessário, ou com o que cabe nos bunkers das casas. Mesmo assim, um grupo de israelenses insiste em ouvir a voz das famílias ainda mais oprimidas de Gaza.

O sonho e a esperança que a espiritualidade semita alimentam com as diferentes narrativas de messias/mahdis e outras escatologias, também se veem envolvidos em nuvens escuras quando se trata do lugar comum da religião islâmica e judaica: o Monte do Templo. Seus arredores são o Kotel, as sagradas ruínas dos muros do templo de Salomão, ponto principal da tradição judaica. O pico do monte é coroado pelo Domo da Rocha – uma parte da mesquita de Al-Aqsa, construída em homenagem ao lugar em que o profeta Mohamed teve visões, e o terceiro local mais sagrado para a fé islâmica. O lugar mais importante é também palco ou símbolo de protestos, disputas e conflitos físicos. Quando os feriados mais importantes se aproximam, os conflitos se acirram mais. Tanto o grito dos palestinos oprimidos quanto o sussurro amedrontado dos judeus redundam em violência.

As igrejas cristãs, tanto de palestinos como em Israel, estão no meio do conflito. A cada domingo, a oração, o partir do pão, os cânticos e as pregações se voltam para um só pedido: paz! A cada dia que passa, no entanto, testemunhar sua fé se torna mais difícil e aos poucos alguns se vão desistindo. Aqui e ali, a vida sob ocupação limita as possibilidades de negócios, formação acadêmica, de ir e vir.

Outros dois pesadelos próximos a nós, a começar pela execução de uma jovem palestina de 18 anos por soldados israelenses num checkpoint em Hebrom. Seu rosto coberto não escondeu seu olhar de pedido de socorro, apesar de não ter dito uma só palavra. Os colonos judeus, armados, tiravam foto da cena trágica e tratavam de manter as testemunhas afastadas.

O outro foi o assassinato de um casal de influentes colonos judeus por um palestino em Nablus. Quatro crianças que estavam no banco de trás do veículo que foi cena do crime sobreviveram. Segundo alguns interpretam, os responsáveis disseram com isso que não matam crianças como seus rivais fazem. Automaticamente, a comunidade de colonos iniciou protestos e vinganças. A resposta do estado de Israel ao que chamou de terrorismo foi dura, incluindo prisões em massa e demolições de casas. Policiais e soldados receberam carta branca para matar. As mídias têm noticiado muitos casos de palestinos (especialmente adolescentes e mulheres) tentando ou conseguindo esfaquear israelenses à esmo, israelenses atirando nos “terroristas” à revelia, israelenses atacando israelenses porque achavam se tratar de árabes! A cultura de morte e extermínio parece estar mais viva do que nunca pelas ruas de Israel e da Palestina. Ao mesmo tempo, parece que sempre foi assim.

Nos contos, inclusive no de Alice, mesmo quando as coisas não vão bem durante a história, o final previsível surpreende. No desenrolar da trama, as personagens sempre encontram formas de resolver os problemas, por meio de estratégias que envolvem a solidariedade e a cooperação.

Minha experiência na Palestina e em Israel mostraram muito sobre mim. Mostraram muito sobre o mundo em que vivemos. Mostraram o quanto ainda precisamos aprender a amar para viver em paz. Não aquela paz do império romano, que se impõe pela força aplicada no silenciamento e neutralização do outro.

Encerro com as palavras do profeta bíblico Isaías: “A justiça habitará no deserto, e a retidão viverá no campo fértil. O fruto da justiça será paz; o resultado da justiça será tranquilidade e confiança para sempre.” (Isaías 32.16-17). A mensagem do profeta continua me fazendo sonhar com um final feliz. Continua a me inspirar a praticar e defender a justiça, para que haja paz. Justiça não como ainda mais retaliações. Justiça como reparação, como libertação, como respeito e amor ao próximo. Assim como alguns religiosos veem na Bíblia profecias que justificam os conflitos na Terra Santa como tendo sido previstos por Deus, é também possível encontrar palavras do mesmo Deus que nos enviam a promover paz, com justiça!

©PAEPI/Renan Leme

©PAEPI/Renan Leme

No começo eu disse que não acreditava que me sentiria mais perto de Deus por causa do lugar. Estava certo quanto ao lugar, mas errado quanto a me aproximar de Deus. Ele se fez mais perto. Ele está entre os pobres, os frágeis. Está entre as pessoas que lutam pela paz e pela justiça. Toda a Terra é “santa”, porque o Deus que se fez humano em Jesus habita entre os humanos!

Salam, Shalom, Paz!

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EA do Grupo 57 em Yanoun

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado

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O niqab e o kipá

Enquanto se caminha na Cidade Velha, é difícil não notar a forte presença da Força de Defesa Israelense (IDF). São centenas deles em todas as esquinas, em áreas como a educação, entretenimento, espaço urbano, de serviços sociais, e ambiente familiar. Sem dúvida, a integração na sociedade israelense está diretamente condicionada ao serviço militar, que por sua vez é moldado como um dever social inquestionável e irrecusável.  Fardo para a minoria não-judia, trunfo para a maioria judaica

Na Cidade Velha, fieis oram do lado de fora da Mesquita após dias seguidos de restrições de movimento por militares. @EAPPI/E. Aldenberg

Na Cidade Velha, fieis oram do lado de fora da Mesquita após dias seguidos de restrições de movimento por militares. ©EAPPI/E. Aldenberg

Como um apêndice para os corpos, os militares ostentam suas armas apontadas para civis. De norte a sul de Israel, e em todo território palestino ocupado. Em Jerusalém, a presença militar representa um sinal revelador de um processo de militarização que é, sem dúvidas, responsável pelos mais de 60 anos de conflito com os palestinos. Para a sociedade israelense, o militarismo é uma ideologia onde a violência organizada é legitimada como uma solução de conflitos, e esse processo de militarização envolve tanto a propagação dessa ideologia criminosa, como a expansão do poder e influência das forcas armadas sobre uma minoria oprimida.

Palestinos são proibidos de circular na Cidade Velha e são posteriormente evacuados. ©EAPPI/Michelle Julianne

Palestinos são proibidos de circular na Cidade Velha e são posteriormente evacuados. ©EAPPI/Michelle Julianne

Na Palestina, qualquer criança a partir dos seus 4 anos sente na pele as consequências da ocupação militar, e elas são, em grande parte, as mais afetadas. A ordem é clara: a qualquer criança palestina vista atirando pedra, a sentença é prisão em cárcere israelense, onde a morte de sua infância é a prisão perpétua. Desde a Segunda Intifada, as crianças palestinas na Cisjordânia têm vivido uma escala de violência que tem moldado sua infância. A presença intimidante e onipresente dos militares e a frequente abordagem humilhante têm despertado sentimentos de perda de dignidade, honra e justiça.

Estudantes entre 6-15 anos sofrem corriqueiramente restrições de acesso à educação pelos militares em Jerusalém. ©EAPPI/Michelle Julianne

Estudantes entre 6-15 anos sofrem corriqueiramente restrições de acesso à educação pelos militares em Jerusalém. ©EAPPI/Michelle Julianne

Após a sua anexação a Israel, as leis israelenses passaram a ser aplicadas em Jerusalém. Aquele país é o único em que crianças são passíveis de serem jugadas automaticamente em tribunais militares. Uma regra não reconhecida internacionalmente e de que Israel lança mão para prender apenas menores palestinos, geralmente, pelo ato de atirar pedras.

Ainda de acordo com a lei israelense, as condenações podem ter penas de 10 a 20 anos de cadeia. Evidentemente, esses tribunais carecem de garantias básicas de um julgamento justo e igualitário.

Crianças palestinas sendo detidas na frente da escola pela força militar. ©EAPPI/Michelle Julianne

Crianças palestinas sendo detidas na frente da escola pela força militar. ©EAPPI/Michelle Julianne

O processo de prisão infantil tem requintes de crueldade. Primeiro, as crianças são levadas em uma viatura militar. Depois de horas deixadas com fome e com sede, são interrogadas sem o direito de ficar em silêncio, o que vai totalmente contra as leis internacionais. Elas ficam nesse centro de interrogatório sozinhas, sem os pais e sem direito a advogados. O interrogatório é na maioria das vezes coercivo e acompanhado de violência verbal e física, ferindo gravemente a convenção da ONU contra tortura.

Costumamos pensar sentimento e razão como conceitos opostos, desligados um do outro, trabalhando em mútua exclusão. O filósofo Michel Serrés chama de terceiro incluído àquilo que foge à dialética histórica, o que não seria nem um, nem outro, o impossível, desconhecido, impensável. Israel não odeia simplesmente o terrorismo que tanto diz combater. Em grande medida, precisa dele como desculpa para a prática de extermínio institucionalizada dos palestinos. Por isso, o produz. Não de maneira inconsciente, ou desregrada como já foi dito, mas através de uma tática perversa de humilhação dos palestinos desde a infância, para criar os “terroristas” que irá combater quando adultos.  Entre razão e sentimento, Israel articula uma racionalidade cruel, ou uma crueldade racional, algo que escapa ao senso comum, e por isso é tão difícil de ser denunciada.

Nisso, a foto de Hadeel Hashlamoon sob a mira do soldado israelense – a burca sob a mira do kipá – revela pelo que esconde: uma nação a quem foi dado armas contra um povo de quem foi tirada a nação.

©YAS

©YAS

 

Ver mais textos de Michelle Julianne nos links abaixo:

Jerusalém ocupada: relato de uma experiência em comunidades beduínas https://eappibrasil.com.br/2015/11/02/jerusalem-ocupada-relato-de-uma-experiencia-em-comunidades-beduinas/

Horizonte em pó: https://eappibrasil.com.br/2015/09/01/jerusalem-pela-ea-michelle/

 

 

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Michelle Julianne

EA do Grupo 57 em Jerusalém

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