Hebron, pelo EA Renan

Hebron: uma prisão a céu aberto

Há pouco mais de um mês eu chegava na cidade de Hebron, na Palestina, para atuar como EA (Ecummenical Acompannier) pelo PAEPPI. Algumas das missões que terei até outubro na cidade é a de observar, testemunhar, documentar e relatar os abusos e violações de direitos humanos decorrentes da política ilegal, agressiva e silenciosa de ocupação do Estado de Israel em território palestino. Além disso, nossa presença in loco tem o objetivo de prover presença protetiva àqueles que sofrem com a violência diária (física e psicológica) gerada pela ocupação. Este breve artigo visa, portanto, a compartilhar um pouco das primeiras impressões que tive como EA na Palestina.

Hebron é a maior cidade da Palestina, com cerca de 250 mil habitantes, e está localizada no sul do território palestino. Tradicionalmente conhecida como importante centro fabril e comercial do Oriente Médio, Hebron também é considerada, historicamente, uma cidade sagrada para os povos das três religiões monoteístas: judaísmo, islamismo e cristianismo. Bastante presente nas escrituras da Torá, do Alcorão e da Bíblia, acredita-se que a cidade seja o local onde foram enterrados Abrahão, Isaac, Jacó, Sarah, Rebeca e Lea.

©PAEPI/Renan Leme - Soldado Israelense no mercado palestino na Cidade Velha de Hebron

©PAEPI/Renan Leme – Soldado Israelense no mercado palestino na Cidade Velha de Hebron

Apesar de sua importância histórica, o que chama atenção em Hebron atualmente não são mais seus atributos religiosos, mas sim o cenário constante de violência, miséria, exploração social e genocídio cultural, consequências nefastas da política ilegal de ocupação israelense sobre a Palestina, cujas violações de direitos humanos são facilmente observáveis no centro da cidade a todo e qualquer momento, e condenadas pela ONU e por diversas organizações multilaterais, pois desrespeitam uma porção de acordos de paz e leis humanitárias internacionais.

Em 1968, logo após o início da ocupação de Israel sobre a Palestina, os primeiros colonos israelenses chegaram ao centro de Hebron e fundaram os primeiros assentamentos ilegais na cidade, os quais se expandiram vertiginosamente ao longo das últimas quatro décadas, por meio de uma política agressiva de expulsões, invasões, demolições e confisco de propriedades e terras palestinas.

Em 1997, Hebron foi dividida em duas áreas administrativas: H1, sob o controle dos palestinos; e H2, sob o controle total do exército de Israel, e que contém o importante centro histórico de Hebron (Old City of Hebron), com o mercado árabe e a mesquita Ibrahimi. A área H2 conta também com seis assentamentos ilegais, que juntos abrigam cerca de 8 mil colonos israelenses. Apesar de esta área estar ocupada militarmente pelo exército de Israel, ela ainda é a casa de aproximadamente 35 mil palestinos, que são atacados diariamente por colonos e sofrem abusos constantes por parte das centenas de soldados israelenses que estão presentes no centro da cidade.

©PAEPI/Renan Leme - CheckPoint entre H1 e H2 em Hebron

©PAEPI/Renan Leme – CheckPoint entre H1 e H2 em Hebron

A ocupação israelense tem negado sistematicamente o direito de ir e vir dos palestinos que residem na área H2. Por meio de dezenas de postos de controle (checkpoints) espalhados no centro histórico de Hebron, o exército israelense controla a liberdade de movimento dos civis, quem pode entrar ou sair, quem pode caminhar ou não por determinadas ruas, todos são obrigados a mostrar carteira de identidade ou passaporte quando cruzam os checkpoints, assim muitos são frequentemente proibidos de entrar, sair ou retornar às suas casas, dependendo do humor dos soldados.

Algumas vezes por dia, muitas durante a noite, os soldados fazem incursões no centro histórico e, mesmo que não haja motivo para tal, eles revistam civis palestinos no mercado público, fecham lojas e estabelecimentos comerciais, proíbem a entrada para a mesquita e invadem casas, além de agredir e prender homens, mulheres e até crianças. Quando perguntados sobre os motivos das prisões e de tais ações militares inconsequentes, os soldados têm sempre duas respostas prontas: “Não precisamos de motivo!”, ou “Security reasons! (Questão de segurança!)”. Estas respostas não são novas, são aquelas mesmas utilizadas para legitimar as várias colonizações e ocupações ilegais que já ocorreram ao longo da história em várias partes do planeta. Infelizmente, estas são apenas as cenas de mais um capítulo.

©PAEPI/Renan Leme - Soldados Israelenses e Mulheres palestinas na Cidade Velha de Hebron

©PAEPI/Renan Leme – Soldados Israelenses e Mulheres palestinas na Cidade Velha de Hebron

Para poderem ir às escolas localizadas na área H2, as crianças palestinas são obrigadas a cruzar diariamente os checkpoints, onde são recepcionadas toda manhã por soldados armados com metralhadoras maiores que elas. Muitas vezes as professoras e as crianças são revistadas.

As escolas são envoltas por assentamentos ilegais israelenses, por isso no meio do caminho as crianças palestinas são, muitas vezes, apedrejadas, cuspidas e sofrem tentativas de agressão por parte de crianças israelenses, sob os olhares contemplativos dos soldados e dos colonos. Por isso, uma das tarefas como EA é acompanhar as crianças palestinas durante a entrada e saída das escolas, como forma de protegê-las, minimizar os incidentes e relatar os eventuais abusos e violações.

©PAEPI/Renan Leme - Escola Palestina em Hebron

©PAEPI/Renan Leme – Escola Palestina em Hebron

Na teoria, o motivo alegado pelo Estado de Israel para manter a presença maciça de soldados na região é a de que eles têm a missão de proteger os colonos israelenses que vivem em Hebron, vendendo a ideia de que os palestinos são terroristas. Esta é uma farsa muito bem elaborada e construída por Israel e propagada no mundo ocidental, inclusive no Brasil, com a ajuda das grandes mídias de massa. Afinal, só assim, silenciando, escondendo e maqueando a realidade é que se pode manipular a opinião pública mundial e sustentar tal ocupação com o mínimo de alarde possível.

Na prática, o que se pode testemunhar facilmente em Hebron é o constante abuso e violência do exército e dos colonos israelenses contra um povo cada vez mais pobre e miserável que, sem nenhum direito ou instância legal para se defender, tenta resistir à opressão de uma política que visa exterminar sua herança cultural e expulsá-los de seu território.

A estratégia usada para cumprir o objetivo da ocupação, que é um projeto político, e não religioso, já que vai contra vários preceitos do próprio judaísmo, é simples: é o da opressão e humilhação diária dos palestinos – assustar, violar, agredir e explorar seus direitos básicos – como forma de tornar suas vidas insustentáveis socialmente, economicamente e psicologicamente, assim são pressionados a desistirem de suas terras, de suas casas, de seus trabalhos e de suas vidas, sendo forçados a cedê-los “voluntariamente” aos israelenses.

©PAEPI/Renan Leme - Menina palestina é revistada por soldado israelense em CheckPoint em Hebron

©PAEPI/Renan Leme – Menina palestina é revistada por soldado israelense em CheckPoint em Hebron

Para quem se interessar mais pelo assunto, segue uma sugestão: Visite a Palestina, e veja com seus próprios olhos o que tentam esconder de você!

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Renan Leme

EA do Grupo 57 em Hebron

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Conselho Latino Americano de Igrejas – Brasil ou do Conselho Mundial de Igrejas. Para publicar este texto ou trechos dele favor contatar a Coordenação Nacional do EAPPI – PAEPI (paepi@claibrasil.org.br). Obrigado

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Uma resposta em “Hebron, pelo EA Renan

  1. Querido! Q a sua luz e coragem conforte estes nossos irmãos! Todos somos um! Q os opressores se iluminem e percebam q ha um único Deus! Pois tudo eh uma só verdade! Sem guerras ! Namastê! Amém! Awoh!Oxalá! Salamaleco! pra todos!

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