Horizonte em pó

O dia amanheceu escuro. Nas ruas, pessoas mascaradas. As massas de ar e areia invadiram os dois países com muita sujeira. Esse fenômeno da natureza não parece ser muito comum. Do lado de cá, noticias em cada esquina falando desse fenômeno meteorológico que tem causado caos na rotina dos habitantes.

Ligo meu celular e recebo notícias de que há presença militar em um bairro palestino que fica a poucos metros da Cidade Velha, Silwan, mas totalmente desconhecido pelos turistas. Enquanto o caos empoeirado deixa os turistas nervosos, estudantes residentes em Silwan retornam para suas casas depois da escola. No caminho são surpreendidos – ou não – pela tempestade corriqueira que atinge a vida dos palestinos: a ocupação militar.

Nesse percurso, os estudantes são atingidos por gás lacrimogênio e um garoto de 8 anos é preso. Arrastado pela mochila, a criança é levada pelos militares. Interrogado por três autoridades, deixado sem roupa e com um saco fétido na cabeça, sem advogado ou qualquer tipo de acompanhamento especial, ele foi mantido com olhos vendados por longas 12 horas. Depois de uma série de abusos e ameaças, finalmente foi entregue aos seus pais. Urinado e defecado.  

Em Israel, situações fora da normalidade são “normais”. Diferente dos acidentes climáticos, o caos sionista faz a poeira subir todos os dias. E cega. Hoje, faz sete semanas que estou em Jerusalém, e ela é suja, com massas ou sem massas de areia. O dia amanhece escuro para a maioria dos palestinos que aqui moram. Nas ruas, os militares andam com suas máscaras institucionalizadas. As nuvens de foguetes atacam Gaza sem serem penalizadas, afinal, foguete jerusalemita é sagrado. Ponto final.

Um dia se passou. Da varanda da casa, não consigo ver a cidade e a temperatura está alta. Reclamo do calor. Ao sair para mais uma missão, sinto-me fraca e sem ar. (Reclamo da poeira). Hoje, o nosso destino é uma comunidade situada no deserto de Jerusalém, classificado como área C, e por sua vez, controlado pela força ocupante israelense. Chama-se Wadi Abu Hindi, uma comunidade beduína da tribo de Al Jahalin, uma das maiores tribos de refugiados na Cisjordânia. Deslocados ilegalmente por quase cinquenta anos, a situação das trinta e três famílias dessa comunidade não é menos degradante que a de outras centenas de comunidades que lutam diariamente contra as consequências da ocupação. Abandonada à periferia da justiça, os beduínos vivem em condições ambientais precárias devido à poluição do ar, do solo, e pela grave escassez de água. (Paro de reclamar.)

11999946_10153679188459744_2007776098_n

Na aldeia de Wadi Abu Hindi, uma criança. Ao longe, uma tempestade de areia se aproxima. Mas o vento não perturba seu balanço: há muito ela desaprendera a enxergar o horizonte. Jerusalém Oriental, EAPPI/Michelle Julianne

Infelizmente, os maiores afetados são as crianças, cujo acesso à educação nesse contexto é o maior desafio. Salas de aula sem eletricidade, sem água tratada e com um grande campo de lixo advindo dos colonos vizinhos da escola – para eles, o ar está sempre sujo, com ou sem tempestade. Noto que o contexto geográfico, político e econômico de Wadi Abu Hindi é semelhante da comunidade Khan Al-Ahmar: cercados por o assentamentos ilegais e por bases militares altamente violentas.

A história se repete. Tanques de água quebrados por colonos, animais roubados, ameaça contra crianças, despejo forçado, demolições…

tumblr_inline_nuff1fppl31skdn81_1280

Escola Wadi Abu Hindi foi demolida três vezes pela autoridade israelense. Após o caso ser levado à suprema corte, foi liberada a reconstrução apenas com material de bambu. Mesmo em obediência às restrições impostas pelas autoridades, a escola já possui uma nova ordem de demolição. Jerusalém Oriental, EAPPI/Michelle Julianne

Hoje, mais do que nunca foi um dia propício para entender que a realidade diária dos beduínos não diverge muito do caos climático que se instalou há dois dias. Em meio às massas de ar quente, crianças que moram nas proximidades caminharam mais de dezesseis quilômetros para ter acesso à escola. Os que não tiveram essa sorte, caminharam ao menos trinta. Parte deles vão de jumento – nada demais nisso, exceto quando as consequências os levam à morte por atropelamento antes de alcançar o destino final.

img_2438

Estacionados, burros aguardam as crianças na entrada da escola. EAPPI/Michelle Julianne

 

A poluição do ar tem deixado grande parte da comunidade com doenças respiratórias graves e 90% das mortes são causadas pelas condições sanitárias. As massas de poeira e a visita aos beduínos me confirmaram algo: a sujeira só não fede quando é sua.  

 

 

 

Michelle Julianne

EA do Grupo 57, Jerusalém Oriental.

 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem necessariamente o entendimento do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina-Israel. Para publicar este texto ou citá-lo em outra fonte, por favor contatar a Coordenação Nacional do PAEPI através do  email paepibrasil@gmail.com.

 Obrigada(o).

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s